As suspeitas começaram a apontar para Cédric Prizzon assim que se soube, na última sexta-feira, 20, do desaparecimento da sua ex-mulher e do filho de ambos, na pequena localidade francesa de Vailhourles. Quando as autoridades procuraram o antigo polícia, não só não o encontraram como perceberam que, afinal, a lista de desaparecidos era maior: o homem teria levado com ele a nova companheira, de 26 anos, e o filho dos dois. Para onde? O mistério durou até esta terça-feira, quando o suspeito foi detido numa ‘Operação STOP’ da GNR. Sem a colaboração de Cédric, a PJ chegou aos corpos das duas mulheres, que estavam quase enterrados numa serra em Bragança.
Quando perceberam o crime que poderia estar em causa, os militares passaram rapidamente o caso à PJ, que conseguiu obter “elementos de prova” que apontavam para uma localização no meio da Serra da Nogueira, a mais de 100km do local da detenção do francês. Por ser de noite, os investigadores adiaram a busca dos corpos para a manhã desta quarta-feira.
Os corpos foram encontrados “semi-enterrados” — “não estavam numa cova profunda, estavam quase à superfície” — pelas 12h, adiantou ao Observador fonte ligada à investigação, numa operação que contou com a presença de um procurador. Os corpos ainda vão ser autopsiados, mas a mesma fonte acredita que as duas mulheres já estariam mortas há cerca de cinco dias e que o duplo homicídio terá sido cometido em Portugal, pouco depois da fuga em França.
Quando foi apanhado, o francês seguia no carro com os dois filhos, que estão agora a ser acompanhados pelas autoridades portuguesas, tendo sido, desde já, garantido apoio psicológico ao filho mais velho, de 13 anos, que está na companhia da irmã mais nova, com menos de dois anos. Cédric, de 41 anos, ainda está nas celas da GNR, podendo ainda ser transferido para a PJ da Guarda enquanto aguarda para conhecer as medidas de coação num inquérito titulado pelo Ministério Público de Mêda.
Para colaborar na investigação às causas da morte, a Gendarmerie francesa já tem a caminho uma equipa que apoiará a investigação a um velho conhecido das autoridades desse país. Cédric, antigo polícia e ex-jogador de râguebi, já tinha sido punido pela Justiça francesa. Em 2011, a relação com Audrey (uma das vítimas encontradas em Bragança e mãe do filho mais velho) terminou com uma condenação de seis meses de prisão para os dois pais na sequência de uma discussão com uma faca.
O tribunal, depois do episódio, decidiu a custódia partilhada: o filho, agora com 13 anos, ficaria duas semanas com a mãe, de 40 anos, e outras duas com o pai. Mas Cédric queria mais e, como os protestos não resultaram, em 2021 decidiu fugir com a criança para Espanha — acabou detido pela polícia após denúncia de Angela (a nova companheira, que também apareceu morta em Bragança) e ficaria sem direito de visita do filho.

Mãe de primeira mulher denuncia “ameaças de morte” antigas. Cédric fugiu de França com os dois filhos e as duas mulheres
A pequena localidade de Vailhourles, em Aveyron, viveu nos últimos dias um caos fora do normal. Na manhã da última sexta-feira, Audrey não apareceu no trabalho e Élio não foi à escola. Quando a polícia recebeu o alerta e se dirigiu à habitação de mãe e filho, encontrou uma casa totalmente vazia. Antes que as notícias sobre o caso começassem a ocupar a imprensa local francesa, as autoridades procuraram Cédric dado o historial entre os dois.
“Audrey é uma mulher amável, de ouro. É muito elogiada no trabalho, pelos colegas e pelos clientes”, disse a mãe da agente de seguros ao Le Nouveau Detective. Se se desdobrava em elogios pela filha, não fazia o mesmo para o ex-genro: “Ele gabava-se de ser violento. Quando era segurança dizia ‘ontem, meti [duas pessoas] a sangrar novamente'”.
“Após a separação, ele apareceu de caravana em frente ao trabalho dela para vigiá-la. Havia assédio, ameaças de morte. Ela tinha medo dele”. A mãe disse ao portal francês que “não queria pensar no pior”, mas acreditava que ela estaria “sequestrada em algum lugar”.
A polícia tentou localizar Cédric assim que se apercebeu do desaparecimento de Audrey e de Élio, sem sucesso. Ao mesmo tempo, o mistério ganhou novos contornos mas afunilou as suspeitas: com Angela e o filho mais novo do suspeito também em paradeiro incerto, a hipótese de Cédric estar envolvido nos quatro desaparecimentos era ainda maior.
O risco não era novo. Como já tinha acontecido, o francês podia fugir do país. As autoridades começaram a partilhar o caso com outros países, para que também estivessem atentos à cara do antigo jogador de râguebi.

Cédric estaria em Portugal há vários dias. Foi apanhado numa operação STOP da GNR
De acordo com a informação recolhida pela investigação, é provável que o homem estivesse em Portugal há vários dias — se a PJ acredita que as mulheres terão morrido há cinco dias, Cédric terá seguido rapidamente para Portugal mal iniciou a fuga. Porquê Portugal? Fonte ligada à investigação diz que ainda não foram encontradas ligações do francês ao nosso país, mas a informação ainda está a ser apurada de forma a perceber se a opção terá sido motivada por ter no Norte alguma rede de apoio.
Certo é que a fuga de Cédric terminou sem grande violência. O homem ainda não tinha sido localizado pelas autoridades francesas, que não tinham pistas fortes quanto ao seu paradeiro, quando foi apanhado numa mera Operação STOP da GNR. Os militares do comando Posto Territorial da Mêda mandaram-no parar e ele obedeceu.
O nervosismo não o denunciou, mas os documentos aparentemente falsos levantaram suspeitas, disse fonte da GNR ao Observador. Os militares analisaram e confirmaram: eram falsificados. No decorrer da operação de fiscalização, encontraram ainda uma arma de fogo (para a qual o condutor não tinha licença) e cerca de 17 mil euros em numerário. Os indícios recolhidos eram suficientes para a GNR deter Cédric por suspeitas dos crimes de falsificação de documentos e de posse ilegal de arma.
Mas havia mais. “No seguimento da ação, e no decurso das diligências subsequentes realizadas pelos mesmos militares, foi possível apurar-se que o detido se encontrava referenciado como suspeito da prática de crimes graves, designadamente rapto e outros ilícitos criminais de elevada gravidade, incluindo a suspeita de homicídio”, partilhou a GNR através de um comunicado.

Como perceberam que a investigação ultrapassava as competências dos militares, entraram em contacto com a PJ da Guarda. Este órgão de investigação criminal analisou os dados comunicados pela GNR e recolheu outras informações, chegando à conclusão que haveria uma “forte probabilidade” de aquele detido ser o responsável pelo duplo homicídio.
Em tempo recorde, e sem a colaboração do suspeito, os investigadores conseguiram contar com outro apoio para chegar à localização dos cadáveres — junto às antenas parabólicas da RTP na serra. Segundo informação avançada pelo Jornal de Notícias e confirmada pelo Observador, foi o próprio filho mais velho de Cédric que deu indicação aos investigadores sobre o local dos corpos. “Ponderou-se ir imediatamente ao local”, mas a PJ percebeu que qualquer investida durante a noite seria infrutífera. Esta manhã saíram para o local e encontraram as duas mulheres, sem vida, quase enterradas na serra.
Os dados na posse da PJ da Guarda apontam para que o homicídio tenha sido cometido em Portugal há vários dias, mas o trabalho ainda não acabou com a detenção do principal suspeito. Resta perceber por onde andou Cédric, o que fez em Portugal e se teve algum apoio — para isso, entram em cena, agora, as equipas do Laboratório de Polícia Científica que estão no local do crime a recolher vestígios. “É um trabalho demorado” que contará com a colaboração do Instituto de Medicina Legal, para as autópsias.
Ao que o Observador apurou, as duas crianças estão a ser acompanhadas pelo Ministério Público de Mêda, cabendo ao Tribunal de Menores encontrar uma solução imediata para o alojamento de ambos. A caminho de Portugal já está uma equipa de polícias franceses para pôr-se a par da investigação.
“Continuam a ser desenvolvidas as diligências necessárias à identificação das vítimas e à consolidação da prova. Contou-se a todo o momento com a disponibilidade de colaboração das diversas valências do Comando da Guarda da GNR. O inquérito é titulado pelo Ministério Publico de Mêda, onde o detido será presente a primeiro interrogatório judicial”, remata a PJ num comunicado.

Conhecido como “veado”, Cédric foi polícia e um jogador de râguebi elogiado — apesar do comportamento
Antes de conhecer Audrey, Cédric era polícia em Toulouse, onde também vivia. O “veado”, como era conhecido, tinha um trabalho tranquilo numa zona pacífica da cidade francesa, recorda o jornal Dépêche du Midi. Ainda jovem em formação na polícia, já falava sobre uma das maiores paixões: os carros, especialmente os Range Rovers — o fascínio como se vê pelas publicações mais recentes no Instagram, manteve-se.
Foi também em Toulouse que começou a desenvolver outro gosto, o râguebi, onde se destacava no Olympique XIII. O espírito de luta que o atleta de 1m80 e 95 quilos carregava valeu-lhe, além da alcunha, uma chamada para as seleções jovens francesas.
Mas a carreira sofreria com a sua instabilidade no trabalho. Os problemas disciplinares recorrentes obrigaram-no a ser transferido para Paris, onde as questões comportamentais continuaram a ser um dilema e Cédric — convocado algumas vezes para ser ouvido pela Inspeção-Geral dos Polícias franceses — acabou transferido pela polícia para a pequena localidade de Aveyron.
No sul de França volta a reencontrar-se com o râguebi. É no clube onde volta ao ativo que conhece, por volta de 2010, Audrey, a futura mãe do seu primeiro filho. Estiveram juntos cerca de dez anos, até ao fim da relação, com contornos violentos e a fuga para Espanha (que durou várias semanas). Durante a luta pela custódia total do filho, Cédric chegou a organizar protestos em frente à Câmara Municipal de Aveyron, com cartazes a acusar Audrey de ser uma “mulher com amnésia (…) protegida pela justiça”, apesar dos “ataques com faca” que levaram à condenação dos dois. “Em França, ser pai é um crime”, lia-se num dos cartazes divulgado pela imprensa local.
Além das manifestações em público, Cédric também se manteve vocal nas redes sociais. “Queres colocar-me na prisão, eventualmente vais mandar-me para a prisão por bons motivos”, disse num vídeo dirigido à ex-companheira. Já separado da primeira mulher, Cédric conhece Angela, funcionária administrativa de uma empresa agrícola em Aveyron. Até o percurso do francês voltar a eclodir em violência, com a fuga para Portugal, o casal teve uma filha que ainda não fez dois anos.
A família das vítimas procura agora que seja feita justiça pelas duas mortes que estão a ser investigadas pela PJ da Guarda, liderada por Alexandre Branco. Há menos de um ano, a mesma divisão teve em mãos outro duplo homicídio — quando Pedro e Alexandre, irmãos que estiveram desaparecidos em Unhais da Serra, na Covilhã, durante mais de uma semana, foram encontrados queimados e enterrados numa zona de mato. Os suspeitos foram detidos dois meses depois, em França, pelas autoridades francesas.
https://observador.pt/especiais/em-unhais-da-serra-pede-se-justica-pela-morte-dos-irmaos-pedro-e-alex-espero-que-descubram-os-verdadeiros-culpados/