São tempos incríveis para a filosofia. Sim, também para os fabricantes de armas, gigantes tecnológicos e vendedores de antidepressivos – mas são negócios que não competem. Onde está a verdade, o que faz de nós humanos, até a crença na inevitabilidade da morte, o jogo das liberdades, a inesperada involução da história do direito e da democracia, todas as grandes questões filosóficas e as poucas que tínhamos por certezas estão em jogo. Pena que o nosso nível médio de atenção não dê hoje para acompanhar nem os primeiros 30 segundos de uma resposta, quanto mais para voltar à Crítica da Razão Pura.
Já sabíamos que o Presidente dos Estados Unidos da América não se dava ao trabalho de ir demasiado longe para acomodar a verdade ou sequer a contornar; ele, simplesmente, atropelava-a. Também já sabíamos que fazia de mudar de opinião um tique nervoso e sem pedir desculpa por isso e que colocava interesses pessoais, familiares e económicos à frente dos do seu país, quanto mais do dos países dos outros. Mas o que vamos percebendo melhor, nos últimos dias, é outro nível do jogo. É que tudo isto talvez esteja ligado. Que a errância e incoerência sejam, afinal, uma falsa percepção de instabilidade. Não viu nas notícias? Falsas ou verdadeiras? As fake news já não são apenas uma cortina de fumo para entreter fiéis; ascenderam a outro estatuto ontológico: elas servem agora para transformar, verdadeiramente, a realidade.
O pormenor que levantava suspeitas era a quantidade de palavras do tweet, ou o que quer que se lhe chame na “Truth Social”, rede de realidade paralela criada pelo próprio. Para os padrões do autor, a quantidade de texto roçava a de um livro em volumes, mas a presença de alguns erros ortográficos devolvia-nos ao conforto da familiaridade: sim, claro que quem ali estava era o bom e velho Donald J. Trump, mesmo que a fazer um inesperadíssimo anúncio de, não só estarem em curso negociações de paz com o Irão, como de as ditas seguirem de vento em popa. Que boa notícia! Não fosse, a seguir, o parceiro Israel negar tudo. E o Irão negar tudo. E continuar a negar nos dias seguintes. E agora, sites especializados na obscura vida dos mercados darem conta de movimentações estranhas que terão acontecido nas bolsas minutos antes antes da publicação, tal como, há um ano, antes do anúncio da suspensão por 90 dias do louco plano das tarifas com que o inquilino da Casa Branca por pouco não faliu o mundo.
Esta semana, a Meta anunciou o abandono do projecto do Metaverso, em que investiu biliões de dólares ao longo de anos, repetindo o fracasso do Second Life e, com isso, adiando, mais uma vez, a chegada maciça dos óculos de realidade virtual às nossas vidas. Anos antes, foi o cinema a fazer a enésima tentativa de impor o 3D e, mais uma vez, ela fracassar. Ontem mesmo, a notícia que deixou meio mundo de boca aberta foi a do encerramento do Sora, plataforma de geração de vídeos por inteligência artificial da OpenAI, que tudo apontava a um crescimento ciclópico. Cada uma destas tecnologias muito diferentes, perseguia à sua maneira o sonho de instalar uma realidade ilusória à nossa volta, de nos fazer mergulhar, realisticamente, num mundo de fantasia. Onde talvez tenham fracassado, onde a História operou uma dessas reviravoltas inesperadas que tem os filósofos sentados na ponta da cadeira desde pelo menos 2020, é que é a realidade que se está a tornar o jogo. É a realidade a verdadeira ilusão.
A confirmarem-se as suspeitas dos últimos dias, temos hoje sentada no lugar de homem mais poderoso do mundo uma pessoa que, não apenas envia para negociações de paz o genro e uns amigos empreiteiros, mas alguém que pode estar, deliberadamente, a usar, mais até do que a informação privilegiada que tem, o poder real, que a democracia lhe colocou nas mãos, de transformar a realidade para manipular o jogo. Para, por exemplo, comprar barato, dar uma notícia que faz levantar os mercados e, a seguir, vender caríssimo. Ou apostar na desvalorização do que, a seguir, vai contribuir, fortemente, para derrubar. Com um tweet. Meia dúzia de palavras e uns erros. Não precisar sequer de fazer uma guerra ou um acordo de paz. Qual Metaverso e óculos 3D. A realidade é muito mais barata, mais divertida e muito, muito mais lucrativa.
Quem diria, Einstein? Anda alguém a brincar a Deus – e joga aos dados, afinal. Já não é um astronauta nem um DJ; em 2026, Deus é um investidor. Pode apostar em petróleo, energia, armamento e na reconstrução do Médio Oriente. Em falências turísticas, ou da aviação, ou das energias renováveis (não se admire se, um dia destes, der pela família a comprar eólicas ao preço, enfim, do vento). Palavras e acções já não são coisas antagónicas; podem estar muito e bem combinadas. Pelo menos, até ao dia em que já ninguém acredite sequer na palavra de um Presidente. Nem sequer os mais fiéis. E esse será realmente o dia da pós-verdade – e até da pós-mentira.
Esta realidade foi artificialmente gerada. São dias bons para os filósofos, sim senhor. Que pena a filosofia não estar cotada em bolsa.