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(A) :: Igreja Católica, a pedra angular da nossa civilização

Igreja Católica, a pedra angular da nossa civilização

John Stuart Mill demonstrou que a tirania é o estado natural da humanidade, e que a única forma de combater o mal é através da construção de uma forte convicção moral.

Hélio Marta
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No cerne da cultura ocidental, a figura de Jesus Cristo não se limita ao dogma religioso, mas ergue-se como o logos que reconfigurou a ética e por consequência a sociedade. A sua influência foi catalisadora de uma revolução ontológica que conduziu aprofundas transformações sociais e históricas.

A doutrina, ou se quiserem os princípios filosóficos de Jesus Cristo, funcionaram como uma catarse entre a antiguidade clássica e a modernidade. O seu impacto foi tão profundo, que o seu nascimento marca o início de uma era.  Esta nova abordagem filosófica modificou a natureza de Deus e por consequência a do Homem.  Enquanto a lei mosaica se dirigia ao Povo de Israel como comunidade corporativa, Jesus isola o indivíduo e a sua responsabilidade pessoal na salvação da alma. Ao atribuir a cada ser humano o dom da salvação, a doutrina cristã criou as bases para o que viria a ser o individualismo liberal. A parábola das ovelhas mostra de forma inequívoca a preocupação com o indivíduo. “Qual de vós é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca daquela que se perdeu até que a encontre”. Ao dizer “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, ou “O meu reino não é deste mundo”, Jesus lança as bases para a separação entre o Estado e as instituições religiosas. Nesta época, estes princípios filosóficos eram profundamente revolucionários.

Na transição do século IV para o século V, Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) elevaria a importância da individualidade de cada ser humano. Através da doutrina da Graça e do Livre-arbítrio, reforçou os princípios da liberdade individual e lançou as bases para os conceitos que viriam a ser usados na Reforma Protestante. Ao constatar a queda do Império Romano do Ocidente, Agostinho distinguiu a Cidade de Deus da Cidade Terrena, enfatizando a separação entre o poder secular e o poder religioso.

No século XIII emergiram dois notáveis doutores da Igreja, que deram contributos absolutamente extraordinários para a nossa civilização. Fernando Bulhões, vulgo Santo António de Lisboa/Pádua, forneceu os princípios filosóficos e teológicos para aquilo que hoje conhecemos por direito comercial. Ao opor-se aos abusos cometidos pelos credores contra os devedores, lançou as bases para que mais tarde a Ordem Franciscana constituísse os montes pios, ou seja, as primeiras instituições bancárias. Ao fundir os princípios aristotélicos com a fé cristã, Tomás de Aquino trouxe para o pensamento da Baixa Idade Média o equilíbrio entre a fé e a razão. Desta forma lançaria as bases para aquilo que viria a ser o Iluminismo dos séculos XVII e XVIII. Aquino foi absolutamente determinante para a criação das ferramentas teológicas e filosóficas para a escolástica tardia de Salamanca.

Embora o Tribunal do Santo Ofício fosse uma instituição iminentemente religiosa, na realidade ele consistia numa ferramenta política usada pelos Estados, com vista à sua centralização. Desta forma a Igreja Católica forneceu aos Estados os conceitos teológicos, para a máquina opressora que foi absolutamente determinante para a construção dos Estados-nação. O método revelou-se tão eficaz, que o mesmo seria feito pelas Igrejas resultantes da Reforma. Nesta época, a construção do Estado emanava em grande parte da religião, sem princípios religiosos muito bem definidos, a centralidade do estado ver-se-ia comprometida. O espírito das cruzadas foi crucial para a expansão e para a defesa da Europa. Sem ele, os reinos europeus teriam sucumbido às suas diferenças e aos inimigos externos à cristandade, inviabilizando os avanços civilizacionais dos séculos seguintes.

No séculos XVI e XVII, em plena época dos descobrimentos, emergiu na Península Ibérica uma das escolas mais importantes para o pensamento político e económico da história da humanidade. Inspirados pelo pensamento Tomista, os clérigos da Escola de Salamanca forneceram à civilização ocidental, os princípios morais do novo mundo e da nova economia que emergia.  Foi em Salamanca que foram enunciadas as primeiras teorias do pensamento económico. Princípios como a teoria do valor, teoria quantitativa da moeda e inflação, lucro como princípio legítimo e o câmbio de moeda, etc., foram criações dos clérigos dominicanos e jesuítas de Salamanca.

Inspirados na ideia de que somos todos filhos de Deus, foi em Salamanca que surgiram os primeiros conceitos de Lei Natural. Francisco de Vitória enunciou que “O Homem é por natureza livre e que não está sujeito a ninguém, senão apenas ao criador”. Foi a partir daqui que surgiu o que hoje chamamos Direitos Humanos. Francisco Suarez afirmou que o poder político emerge do povo e não de Deus. Nasce aqui a ideia de democracia que hoje transcorre no mundo ocidental.

A Universidade de Coimbra teria aqui um papel muito importante ao sintetizar e divulgar as ideias salmantinas nos “Conimbricenses”. Personagens como o Padre António Vieira e Bartolomé de las Casas, usaram as ideias de Salamanca para defenderem os direitos naturais dos índios americanos. O proselitismo cristão seria determinante para a disseminação destas ideias por todo o mundo, tornando-as princípios universais.

Através do ensino monástico e mais tarde com a organização das universidades, desde o início da Idade Média até ao Iluminismo, foi a Igreja Católica a principal produtora e guardiã de conhecimento. Sem a Igreja, é muito provável que as obras dos filósofos gregos e o Direito Romano se tivessem perdido

A Reforma de Martinho Lutero (um monge agostiniano) e o princípio da livre interpretação dos textos bíblicos, consistiu num contributo decisivo para a afirmação da liberdade individual. Foi com base neste princípio que foi desenvolvida a análise crítica dos textos sagrados, possibilitando o desenvolvimento da ciência moderna.

No século XVII, o Iluminismo tratou de secularizar os princípios filosóficos dos séculos anteriores e de pôr o acento tónico na razão. Ideias que estavam a marinar deste do tempo de Jesus Cristo como a separação entre a Igreja e o Estado, ou os princípios da Escola de Salamanca, tiveram no Iluminismo o seu arcabouço. Isto levou ao surgimento da ciência moderna, ao aperfeiçoamento das teorias económicas que viriam a dar origem ao capitalismo moderno e acima de tudo, ao lançamento das bases para o estado de direito democrático que hoje conhecemos. Descartes, Kant, Lavoisier, John Loke, Adam Smith, entre outros, deram um enorme contributo para a construção do mundo moderno.

Depois do Iluminismo a Igreja tornou-se numa instituição relativamente lateral no que concerne à produção de novos princípios filosóficos. A secularização das instituições de ensino e as reformas liberais, trouxeram novas ideias que inclusive declararam a “Morte de Deus”.

O progressismo marxista levou a cabo um ataque sem precedentes as instituições religiosas. A razão era simples, para se fundar um outro tipo de sociedade, era necessário acabar com as bases fundacionais do que se queria destruir.

A exacerbação do Racionalismo, o consequente Niilismo e as transformações sociais inerentes à Revolução Industrial, levaram no fim do sec. XIX à criação da Doutrina Social da Igreja. Foi este o último grande contributo da Igreja Católica para a edificação de uma sociedade mais próspera e justa, mas agora, dentro dos princípios liberais do Iluminismo.

John Stuart Mill, demonstrou que a tirania é o estado natural da humanidade e que a única forma de combater o mal, é através da construção de uma forte convicção moral. O cristianismo é sem dúvida nenhuma, a base das nossas convicções morais e por inerência, o pilar fundamental da nossa civilização.

Nota: Este texto é dedicado ao meu professor de história e amigo, Padre Fernando Artur Marques Mergulhão Cardoso.