A estrutura energética de um país diz muito sobre o seu nível de desenvolvimento económico, tecnológico e institucional. Na Suécia e na Noruega, e a Finlândia não anda muito longe, a eletricidade tem um peso semelhante ao dos combustíveis fósseis, representando metade do total da matriz energética primária, sendo produzida praticamente sem recurso a combustíveis fósseis, enquanto em Portugal os hidrocarbonetos têm um peso cerca de três vezes superior ao da eletricidade, reduzindo o peso da energia elétrica para 25% do mix energético. A percentagem de eletricidade na matriz energética primária permite perceber até que ponto uma economia está eletrificada e quão dependente está dos combustíveis fósseis. Uma maior eletrificação pode ser um interessante barómetro do nível técnico de um país.
Em 2024 e 2025, Portugal manteve uma forte dependência energética do exterior, sobretudo de importações de petróleo bruto e gás natural. As fontes renováveis, em particular a hídrica, a eólica e a solar, responderam por quase 85% da produção de eletricidade, enquanto o gás natural manteve um papel complementar (Ver Quadro 1). Entretanto, a bombagem hidroelétrica assume uma crescente importância, permitindo armazenar o excedente de eletricidade, sobretudo solar e eólica, ou importada a baixo preço de Espanha. Um exemplo é a utilização de eletricidade para elevar água da albufeira do Cávado para o Alto Rabagão, através da barragem de Frades, que atua como central reversível intermédia, equipada com geradores capazes de bombear e turbinar. A água armazenada a montante funciona como uma “bateria natural” e é libertada mais tarde para produzir eletricidade nas horas de maior procura.
Em 2025, Portugal pagou 0,039 € por cada kWh de energia de petróleo bruto, sendo esse apenas o custo da energia inicial, ao qual acrescem custos de refinação, distribuição e revenda e, mesmo depois disso, num veículo a combustão interna apenas cerca de 20 a 30% da energia do combustível atestado na bomba chega às rodas, perdendo-se o resto sobretudo em calor.
A economia portuguesa continua pouco eletrificada, apesar de estar acima da média global de 19,8%, mas ainda longe dos cerca de 50% de alguns países escandinavos. Portugal depende em cerca de três quartos dos combustíveis fósseis, sendo o petróleo responsável por metade do consumo energético primário. O petróleo e o gás continuam a predominar nos transportes, na indústria e no aquecimento. Um país só reduz a sua dependência dos hidrocarbonetos quando produz eletricidade com pouco ou nenhum recurso a combustíveis fósseis e quando uma parte crescente da economia funciona com eletricidade. A eletrificação da economia portuguesa, baseada em fontes não fósseis, permite reduzir a dependência externa e a exposição à volatilidade dos preços do petróleo e do gás natural. A produção interna de eletricidade permite energia mais estável e competitiva. Países com energia abundante e barata podem crescer mais rapidamente e atrair investimento. A economia é a arte de utilizar a energia para transformar matérias-primas em bens e serviços. Energia barata possibilita salários mais altos.
Se Portugal quisesse eletrificar grande parte da economia, substituindo combustíveis fósseis por eletricidade nos transportes, na indústria e no aquecimento, o consumo elétrico teria de aumentar significativamente. Os combustíveis fósseis são menos eficientes do que a eletricidade, porque parte da energia dos hidrocarbonetos, por exemplo em motores de combustão ou na produção de eletricidade, perde-se em calor, sendo comum considerar um rácio de eficiência de 40%. Assim, em teoria, para substituir o consumo de 157,8 TWh de petróleo e gás natural em Portugal em 2025, seria necessária uma produção adicional de 63,1 TWh de eletricidade. Como o gás natural já produziu 7,6 TWh, o acréscimo líquido seria de 55,5 TWh, ou seja, duplicar a atual produção elétrica. Como produzir essa eletricidade adicional?
A barragem de Girabolhos, projeto que nunca foi concretizado, teria cerca de 360 MW de potência instalada e uma produção anual à volta de 500 GWh, logo seriam necessárias mais de 100 barragens semelhantes para tornar Portugal 100% elétrico. O ideal seria alcançar metade desse acréscimo e aproximar Portugal dos países mais eletrificados, como a Suécia e a Noruega, onde a eletricidade representa metade do consumo de toda a energia. Seria também necessário reconfigurar e reforçar a atual rede elétrica, algo que já hoje é necessário com o esperado aumento do número de veículos elétricos para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.
Hídrica, solar e eólica seriam talvez insuficientes e, neste contexto, poder-se-ia equacionar a energia nuclear. Um reator nuclear pode produzir cerca de 12 TWh por ano, o que significa que um único reator poderia fornecer eletricidade equivalente a quase 25 barragens do tipo Girabolhos. Além disso, o nuclear fornece produção constante, com fatores de capacidade próximos de 90%, funcionando praticamente todo o ano. Mas uma central nuclear tradicional tem um investimento inicial elevado, é quase um monopólio natural e demora muitos anos a construir. Outra hipótese são os SMR, reatores nucleares modulares de pequena dimensão, com potências entre 50 MW e 300 MW e podem ser produzidos em série. Um SMR de 300 MW poderia produzir aproximadamente 2,4 TWh por ano, o equivalente a 5 barragens do tipo Girabolhos. Existem também projetos experimentais com tório como combustível nuclear.
No entanto, uma economia não deve depender apenas da eletricidade, ou seja, de uma única fonte de energia. Atualmente, existem duas grandes formas de energia, a eletricidade e os hidrocarbonetos (carbono fossilizado). Antes da revolução industrial, predominavam a biomassa, sobretudo madeira (lenha), isto é, “carbono recente”, bem como os moinhos de água e de vento e a força humana e animal. O apagão na Península Ibérica em 28 de abril de 2025 evidenciou a importância de manter alguma capacidade e reservas de combustíveis fósseis.
A atual procura de segurança energética diz também muito sobre a crescente incerteza global, com os países a fecharem-se cada vez mais sobre si próprios e a não confiarem na previsibilidade e consistência dos fornecimentos externos, sobretudo de combustíveis, sinónimo de maior protecionismo, o qual é contrário à prosperidade, mas para o qual a segurança energética empurra muitos países, nomeadamente os europeus. Um mundo cada vez mais fragmentado em blocos económicos ameaça a globalização. No entanto, tem sido precisamente o aumento do comércio internacional um dos principais pilares da prosperidade global, tal como evidenciado por David Ricardo na sua teoria das vantagens comparadas.

