Vivemos num país curioso. Um país que se inflama com facilidade, que reage, que comenta, que julga. Um país que não hesita em levantar a voz perante a injustiça quando ela surge no ecrã, amplificada por um programa de televisão ou por uma sequência de stories. Somos rápidos a condenar, ágeis na indignação, quase instintivos na defesa de valores quando a narrativa é clara, quando há protagonistas definidos, quando o conflito nos é servido com emoção e proximidade. Mas, paradoxalmente, esse mesmo país revela uma apatia inquietante quando a injustiça não é encenada, quando é estrutural, quando é política, quando é nossa.
Importa dizer, com clareza, que esta reflexão não pretende desvalorizar os temas que muitas vezes, ainda que de forma indireta, são expostos nesses formatos televisivos. O que temos assistido levanta questões sérias, nomeadamente ao nível da violência psicológica e das dinâmicas de poder em relações afetivas. Esses momentos, amplificados mediaticamente, podem ter um impacto real e positivo, dando força a muitas jovens mulheres para reconhecerem situações de abuso e, em alguns casos, para encontrarem coragem para sair delas. Essa dimensão não deve ser ignorada nem diminuída. Eu importo-me com isso. Importo-me com o efeito que estas narrativas podem ter na vida concreta de quem as vê.
Mas não é isso que está em causa. O que está em causa é a forma como concentramos atenção, energia e indignação quase exclusivamente nesses episódios mediáticos, enquanto permanecemos estranhamente passivos perante problemas igualmente graves, mas menos visíveis, que se desenrolam no plano político e social do país.
A violência psicológica que tanto nos mobiliza na televisão não é menos real quando se manifesta nas condições de vida de milhares de jovens que não conseguem sair de casa dos pais, nos salários que não acompanham o custo de vida, na dificuldade em projetar um futuro. E, no entanto, perante esta realidade concreta, quotidiana e profundamente política, instala-se o silêncio. Não um silêncio de desconhecimento, mas um silêncio de desistência.
Há uma ideia perigosamente enraizada na sociedade portuguesa. A ideia de que a política é um território alheio, reservado a uma elite ou, na melhor das hipóteses, a jovens militantes que “gostam dessas coisas”. Como se a participação cívica fosse uma especialização e não uma responsabilidade comum. Como se opinar, questionar, propor e exigir fosse uma tarefa delegável. E assim, com uma leveza preocupante, entregamos o espaço público a quem tem tempo, interesse ou ambição para o ocupar, ao mesmo tempo que repetimos, quase como um mantra, que “são todos iguais”.
Este afastamento não é neutro. Tem consequências. Uma democracia onde a maioria observa em vez de participar é uma democracia fragilizada. Quando a indignação se limita ao entretenimento e não transborda para a esfera pública, o que está em causa não é apenas desinteresse. É uma forma de conformismo que se disfarça de cansaço.
Importa perguntar porquê. Porque é que conseguimos mobilizar emoção para um episódio televisivo, mas não para uma decisão política que afeta diretamente a nossa vida. Parte da resposta está na forma como a política nos é apresentada. Complexa, distante, muitas vezes inacessível. Falta-lhe tradução, falta-lhe mediação, falta-lhe impacto. E, nesse vazio, prospera a indiferença.
Outros países perceberam isto há muito. Na Dinamarca, a educação cívica não é um complemento decorativo do currículo. É um eixo central. Os jovens são incentivados desde cedo a debater, a argumentar, a participar em simulações parlamentares, a compreender o funcionamento das instituições. Não se trata apenas de ensinar conceitos, mas de criar hábitos de participação. Na Finlândia, os estudantes são envolvidos em processos reais de decisão dentro das escolas, aprendendo que a sua voz tem consequências. Na Alemanha, existem plataformas digitais públicas que tornam a atividade política mais transparente e acessível, permitindo aos cidadãos acompanhar propostas, votações e posicionamentos de forma clara.
Estas práticas partem de um princípio simples. A cidadania não nasce espontaneamente. Cultiva-se. E, se queremos uma sociedade mais participativa, não podemos continuar a tratar a política como um tema secundário, opcional ou aborrecido.
Em Portugal, talvez esteja na altura de fazer perguntas incómodas. Porque é que a educação política não é obrigatória e consistente ao longo do percurso escolar. Porque é que não existem formatos televisivos verdadeiramente apelativos que expliquem, com clareza e regularidade, o que está a ser decidido no país. Porque é que não utilizamos as ferramentas de comunicação de massas, as mesmas que transformam figuras mediáticas em fenómenos nacionais, para tornar a política mais próxima, mais compreensível, mais debatida.
Se for preciso recorrer a uma linguagem mais popular, que se recorra. Se for preciso adaptar formatos, simplificar discursos, aproximar protagonistas, que se faça. A política não tem de ser hermética para ser séria. Pelo contrário, quanto mais inacessível se torna, mais se afasta das pessoas que deveria representar.
A ideia de que todos devíamos ter uma opinião informada não é utópica. É exigente. Exige tempo, exige vontade, exige ferramentas. Mas, acima de tudo, exige uma mudança cultural. Exige que deixemos de encarar a política como um espetáculo distante e passemos a vê-la como aquilo que verdadeiramente é. O mecanismo através do qual se decide o nosso presente e se constrói o nosso futuro.
A indignação seletiva é confortável. Permite-nos sentir justos sem nos comprometermos. Mas é também inútil. Um país que se emociona com narrativas televisivas, mas que se mantém indiferente às suas próprias fragilidades estruturais, corre o risco de se tornar espectador da sua própria estagnação.
Talvez o problema não seja a falta de capacidade de indignação. Essa existe e manifesta-se com força. O problema é a direção dessa indignação. Enquanto continuar orientada para o acessório e não para o essencial, continuaremos a viver nesta contradição inquietante. Um país que sente muito, mas age pouco. Um país que fala alto, mas participa pouco. Um país que exige justiça nos outros, mas tolera a inércia em si próprio.
E essa, mais do que qualquer episódio televisivo, é a realidade que deveria mobilizar-nos.