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Perante a tempestade, o novo canto dos Sereias quer levar-nos para longe das rochas

"A Odisseia de Carlos Bizarro" é o novo álbum de uma banda que continua a navegar entre o jazz e o punk como se fossem ambos filhos do mesmo ruído revoltoso. Falámos com eles.

António Moura dos Santos
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“Não é que eu seja louco, a minha cabeça é apenas diferente da vossa”, terá dito o lendário filósofo grego Diógenes de Sinope. A frase pode não ser verdadeira — os seus escritos perderam-se e existem apenas aforismos registados pelos seus contemporâneos —, mas encaixa bem no pensamento do homem que vivia nas ruas de Atenas por opção, rejeitando possessões materiais e noções convencionais de sociedade. Mais de 2400 anos depois, António Pedro Ribeiro segue na esteira do sábio em A Odisseia de Carlos Bizarro, o terceiro disco dos Sereias, ao vociferar “Estou louco? Nunca estive tão são! Nunca estive tão lúcido!”

“As pessoas especiais neste mundo que provocam, que agitam, continuam vivas, só morrem quando as deixamos morrer”, afirma o vocalista ao Observador quanto ao pensador grego, numa conversa por videochamada ao lado do teclista Nils Meisel e do guitarrista Kauê Gindri a partir do icónico Centro Cultural Stop, no Porto, onde tinham estado a ensaiar. A menção a Diógenes não é a despropósito, já que este é referido na descomunal A Floresta — tema de quase 15 minutos que abre o disco — e evocado pela socióloga Paula Guerra no press release deste lançamento quando descreve os Sereias enquanto banda que “canta a partir de um lugar que chega a ser perigoso: o da lucidez da existência de/num mundo que prefere o ruído”.

Essa postura irredutível e sem pudores tem marcado o coletivo portuense — completado por Arianna Casellas também nas vozes, Ra-Yacov nos sopros, Tommy Hughes no baixo e João Pires na bateria — desde a sua estreia em 2019, quando mostrou ao que ia com O País a Arder: um manifesto furibundo de agressão punk, delírios jazz e letras tão diretas quanto incendiárias, com um cunho assumidamente de esquerda, com declarações provocadoras como “quero um primeiro-ministro para comer ao pequeno-almoço” ou “sois as putas da TV, sois belas, mas vendeis-vos totalmente”.

[“Extrema-Direita Fascista”:]

https://youtu.be/Kfu_I2LqAzg?si=d2DUY9lbnLaYPn5T

Ninguém vai ao engano com o coletivo portuense e essa frontalidade não esmoreceu com o tempo: afinal de contas, o single de avanço deste álbum — lançado a 13 de março pela Lovers & Lollypops — chama-se Extrema-Direita Fascista, onde se grita que esta “avança e mostra os dentes” e que “tem de ser exterminada”.

Os Sereias descrevem o seu som como sendo “jazz-punk-pós-aquático”, uma descrição que é tão certeira para quem já conhece quanto inútil a quem nunca lhes ouviu sequer um acorde. No seu som propositadamente escanifobético cabe o ruído dos primeiros discos dos Sonic Youth, o noise opressivo dos Swans ou o post-punk poliédrico e neurótico dos This Heat, tudo isto embalado pelos lamúrios encantatórios de Arianna Casellas, pelas invetivas gritadas por António Pedro Ribeiro e por um não menos endiabrado saxofone free jazz a fazer lembrar as colaborações de Peter Brötzmann com os Black Bombaim.

Por cá, talvez a comparação mais imediata a fazer seja com os Mão Morta, não só pela sonoridade, como também pela partilha da mesma atitude punk situacionista; se o grupo bracarense afirmou antes da viragem do milénio que Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável, o que a banda do Porto tem preconizado desde então é que as coisas conseguiram piorar a um nível inominável. Por essas razões, não surpreende a presença de Adolfo Luxúria Canibal como artista convidado na vertiginosa Beber por Beber. “Sempre admirámos o trabalho dos Mão Morta, e já há muito que nos dizem que viemos um bocado na linha deles, embora essa não seja a nossa única referência. Mas é uma homenagem que também lhes fazemos”, afirma António.

https://observador.pt/especiais/adolfo-luxuria-canibal-gosto-demasiado-de-musica-para-viver-as-custas-dela/

A ligação aos autores de Mutantes s.21, porém, é mais profunda do que isso. O vocalista dos Sereias esteve no caldeirão de contracultura pós-punk que foi a cidade minhota nos anos 80, período em que travou contacto com o seu congénere dos Mão Morta. “Sou seu amigo e conheço-o há muitos anos”, conta. Foi também nesse período que nasceu a personagem que batiza este terceiro disco.

Da distopia à procura de um mundo novo

A Odisseia de Carlos Bizarro, explica António Pedro Ribeiro, tem este nome por girar à volta de um heterónimo que criou “entre os 19 e os 25 anos”, quando publicava poemas e artigos de opinião na imprensa. “Conta a história de um poeta louco que tinha delírios e que tenta fazer uma revolução que depois se concretiza e é celebrada com o Adolfo em Beber por Beber”, explica. Apesar de essa ser a antepenúltima canção, o  vocalista e poeta explica-nos que o disco acaba simbolicamente aí — os dois temas seguintes, Menina e Satã, são canções de amor dedicadas a uma mulher já no rescaldo da vitória.

Pode-se supor que este é o tipo de história linear a que nos habituámos em álbuns conceptuais, mas as canções acompanham essa “odisseia” apenas num sentido lato, não sendo propriamente temas que seguem uma narrativa, antes pinceladas das ânsias e quadros mentais do protagonista. Seguindo o ritmo marcial de Esquizofrenia, “Carlos Bizarro” lamenta “o dia a dia monótono, a escravatura do trabalho, a lavagem ao cérebro” que compõem as sociedades modernas. Já na descarga noise de Macacos, aponta-se o dedo a um tribalismo selvagem que a nossa evolução não deixou lá atrás: “somos macacos que se vigiam uns aos outros, vamos fazendo amantes amigos, quando os fazemos, mas os outros continuam a ser estranhos, mantemos a distância, não comunicamos, excepto no bar, às três da manhã”, ouvimos.

Como foi referido acima, o teor destas letras é indissociável da postura política dos Sereias, que segundo António, têm o intuito de “ir contra este sistema, contra esta sociedade, contra o fascismo e o capitalismo”. “Falando mais por mim que pela banda, entendo que as massas estão alienadas. Que, além do fascismo emergente de Trump, de Netanyahu, de Putin, de Milei e de outros — existe o capitalismo, presente há pelo menos 200 anos, e antes dele tínhamos o mercantilismo. Tudo se resume à moeda, à troca, à compra e venda, à exploração do homem pelo homem. As pessoas são tratadas como coitadas, estão numa competição diária pela sobrevivência e às vezes nem sequer se apercebem disso. É um darwinismo social”, comenta.

[ouça o álbum “A Odisseia de Carlos Bizarro” na íntegra através do Bandcamp:]

Apesar deste diagnóstico — e mesmo perante o que descrevem como uma “situação de caos, até com esta guerra que está a decorrer no Irão” —, os Sereias fazem questão de não render-se ao pessimismo. Isso está plasmado no tema Puta da Revolução, cujas letras parecem sintetizar esta filosofia: “Está tudo tranquilo, à beira do caos, à beira da revolta. O poeta ainda vive, o poeta já foi estrela”, dita António.

“Há uma coisa que é central nas ideias do [António] Pedro que é o rejeitar a impotência de poder mudar as coisas, contrariar a ideia de que aquilo que fazemos não faz diferença. E se for preciso ser revolucionário, é por aí que devemos seguir”, sugere Nils Meisel. “Há uma esperança de transformação do mundo através de uma revolução, que pode surgir até nos próprios Estados Unidos. As pessoas estão a revoltar-se e a ir para a rua contra o governo do Trump — quando houve os casos do ICE, por exemplo —, mas também tem havido protestos na Europa e na América Latina”, adiciona o vocalista.

O projeto político que os Sereias sugerem, em contrapartida, é aquele apresentado na espécie de manifesto que é A Floresta, que recorre às imagens do deus grego Dionísio, do amor proibido entre Jesus Cristo e Maria Madalena e às ninfas da Ilha dos Amores de Camões para idealizar um mundo hedonista, onde apenas existe o “reino da paz e do amor e da harmonia e do prazer”. “É uma espécie de uma utopia de um mundo novo, do nascimento do homem, com fraternidade, igualdade e liberdade”, explica António.

Se o anterior disco, o autointitulado de 2022, começava com o lema “recomecemos tudo de novo” em Imagem, esta canção “aponta para alguns caminhos”, adianta Kauê Gindri. “O queimar do dinheiro, o conhecimento indígena ancestral, a vida em comunidade — é um projeto para um recomeço”, afirma.

Há nas letras dos Sereias uma sinceridade e uma crueza que podem ser confundida com falta de sofisticação, algo que António Pedro Ribeiro faz questão de sublinhar ser o padrão estabelecido pelos fundadores do punk, como os Sex Pistols ou os The Clash. “ É claro que eu escrevo outro tipo de poemas também, mas normalmente não estão nas letras. Se são mais complexos, se calhar publico-os em livros”, adianta.

Ao mesmo tempo, o vocalista faz questão de frisar que talvez seja necessário regressar a um estilo de comunicação mais simples e direto no que à esquerda concerne. Tendo militado no PSR, no BE e no PCTP/MRPP — e chegando mesmo a apresentar uma candidatura entretanto gorada à Presidência da República — António Pinto Ribeiro considera-se hoje descrente na classe político-partidária, sublinhando que “se calhar, quem está enganado são os partidos de esquerda, que pararam no tempo”. “Precisavam de utilizar uma linguagem mais direta, em vez de estarem sempre a falar de números, de economia e mais não sei o quê. Por isso é que estão sempre a perder votos”, vaticina.

“Nestes tempos em que o discurso e a noção de verdade estão tão diluídos, é importante ser frontal. Isso acaba a acontecer no discurso das letras mas também na música que fazemos. A coisa às vezes é mal tocada, às vezes é caótica, mas vivemos num mar de coisas ultra‑processadas e feitas por IA, tudo perfeito e tudo limado. É importante também falar as coisas como elas são. É uma postura que acaba por ser a postura total da banda”, acrescenta Kauê.

Posto isto, deixamos uma provocação aos Sereias: se é verdade que a arte, mesmo sendo política, não tem a obrigação de provocar mudanças tangíveis, um dos objetivos da banda tem sido inspirar numa mudança no estado de coisas — e o que parece é que o mundo se afasta cada vez mais daquele idealizado pelo coletivo.

A este respeito, Nils concede existir “uma tendência que aponta para um estado apocalíptico que já estamos a viver”. No entanto, contrapõe que muito do público dos Sereias é jovem. “Alguns são teenagers, entre os 16 aos 20 e poucos anos, que assistem aos nossos concertos e que se identificam com o que estamos a fazer. Fazem bandas, dizem que são influenciados por nós — isso por si só já é uma conquista, nem que seja numa dimensão underground e localizada”, afirma.

António Pinto Ribeiro, por seu lado, é mais lapidar: “Bakunine dizia que era preciso destruir para construir. Nós estamos aqui para destruir, mas alguns melhores do que nós virão para construir, para criar o tal mundo novo”, defende.

Um som definido pela falta de limites

De volta a A Floresta, este tema não se pauta apenas por explicitar aquilo em que os Sereias acreditam nem por ser uma escolha pouco óbvia como canção de abertura. O que esta canção representa também é a exploração de outros meandros sónicos para o coletivo, pela forma como durante grande parte da sua duração se cinge a criar uma paisagem sonora inquietante. Enquanto António Pedro Ribeiro declama, vão-se somando elementos, como uma linha de baixo hipnótica, a voz de Arianna a ulular e a dar textura, os sopros a pairar como nevoeiro até que tudo desemboca quase no fim.

Seria de esperar que essa progressão controlada tivesse sido cuidadosamente planeada, mas Nils revela que “foi resultado de um improviso dentro do estúdio”. “Não a tínhamos já definida para isto e depois construímo-la num processo que saiu no momento”, garante. Esta constatação advém do facto de que, desde a sua génese, a banda tem encarado a edição de discos como espécie de mal necessário, visto que esta é uma música que ganha outras dimensões ao vivo. Nenhum concerto dos Sereias é igual, porque a banda acaba sempre por dar azo à costela jazz e improvisar; o que temos gravado é uma mera aproximação desses momentos.

[“A Floresta”]

https://youtu.be/sTYj047587k?si=B7vIJUIrtvHTPCRk

“Não falamos muito sobre os ensaios nem não discutimos muito por onde é que a música há de ir ou não. Muitas vezes tocamos e ninguém comunica quanto ao que estávamos a fazer. Claro que quando estamos a encontrar qualquer coisa, queremos repetir e segurar naquilo, mas em regra geral há muito improviso”, revela Nils. Kauê acrescenta que é uma questão de confiar na comunicação não verbal entre os elementos. “Quando passamos muito tempo a tocar juntos, criamos um método de ensaio e conseguimos estar muito atentos ao que os outros fazem. Às vezes ocorrem ideias que surgem de um e o outro repete numa outra vez e na próxima vez que surge, tu já sabes mais ou menos qual é. Portanto, há um acerto não verbal, mas é preciso haver intuição e conhecimento uns dos outros”, afirma.

A única matriz seguida, portanto, foi tentar “recuperar algo mais próximo do que é o nosso som ao vivo”, continua o guitarrista. Para conceber A Odisseia de Carlos Bizarro, foram necessárias “duas ou três sessões de uma ou duas horas” — um enorme contraste face ao disco anterior, em que a banda gravou mais de 20 horas e depois teve de fazer um trabalho de ourives à procura das canções.

No entanto, se A Floresta representa um novo patamar para os Sereias, pode levar também a equívocos quanto a A Odisseia de Carlos Bizarro, pois os restantes temas são bastante mais diretos e enxutos, com uma renovada energia punk. Se no seu primeiro disco a banda alinhou pela raiva incontida, em 2022 lapidou a sua sonoridade para algo ligeiramente mais polido, deixando fluir krautrock e psicadelismo nas suas canções. Agora, talvez porque o mundo pareça ainda mais caótico, fizeram uma espécie de evolução regressiva: o som voltou a ser mais primal, de punho fechado e maxilar cerrado.

“Reconheço que possa ter havido um certo regresso a esse caos inicial do primeiro álbum, no que toca à conceção; o segundo talvez fosse um bocadinho mais suave na musicalidade. Mas este é um álbum muito mais elaborado e estruturado, o que também deve-se muito à contribuição e à competência do Andrés Malta”, aponta António, referindo-se ao produtor venezuelano com que trabalharam para este disco.

Ao contrário do que se passou nos anteriores discos, que foram autoproduzidos, desta vez os Sereias delegaram essa função a Malta — que vive no Porto e já trabalhou com os The Gift, GNR, Emmy Curl e os britânicos James. “Optámos por isso porque é menos cansativo e também porque, se o fizéssemos por nós próprios, íamos fazê-lo numa sala do Stop, que não tem as melhores condições nem o melhor som e teríamos sempre de montar todo o material”, admite Kauê, secundado por Nils: “Tivemos de ir preparados, coisa que não aconteceu nos outros discos, que foi tudo gravado em ensaios, diretamente, embora em pistas separadas e depois produzido, mas em condições amadoras, caseiras. E, neste caso, decidimos ir mesmo para um estúdio a sério, com material a sério”.

Outra mudança fundamental passou pela entrada do próprio Kauê no processo de composição. Os Sereias não se consideram uma banda no sentido tradicional do termo, mas de um coletivo de músicos. No entanto, têm mantido uma certa coesão desde o lançamento de O País a Arder, com o guitarrista brasileiro a substituir Sérgio Rocha pouco depois do segundo disco.

“No início, o Kauê percebeu que ia um pouco tomar o lugar do Sérgio, cuja guitarra é extremamente improvisada, é noise, não toca propriamente notas, são blocos de sons e ele usa facas e outras coisas para tocar — e nunca tocava a mesma coisa. O Kauê encaixou por aí e acabou por descobrir o lugar dele como guitarrista, conseguiu descobrir a linguagem certa”, afirma Nils.

Da sua parte, Kauê — que já colaborava com Arianna num projeto folk a dois —, aponta a facilidade com que foi adaptar-se a um som com o qual já se identificava à partida, querendo ainda assim deixar o seu cunho. “A guitarra noise dos anos 90 é uma referência para mim, mas queria, talvez, ressaltar alguns pontos que, para mim, precisavam de sobressair: tensão, peso e algumas coisas mais rítmicas também — mas sobretudo a tensão”, diz.

Essa integração, certamente, não se deve apenas à partilha de valores com os restantes membros da banda, mas também com a preocupação dos Sereias em evitar estabelecer uma fórmula estanque na sua música. “O nosso som é justamente a não limitação, a não definição daquilo que ele é. Queremos sempre manter as coisas com espaço para continuar abertas”, assegura Nils.