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(A) :: Do "poder suave" às ameaças diretas. Há 24 anos, a jornalista Vicky Ward quase expôs Epstein pela primeira vez, mas cedeu a ameaças

Do "poder suave" às ameaças diretas. Há 24 anos, a jornalista Vicky Ward quase expôs Epstein pela primeira vez, mas cedeu a ameaças

Jornalista estava a escrever um perfil sobre o multimilionário "misterioso", quando começou a ser pressionada por Epstein. Ia revelar as primeiras alegações de abuso sexual, mas foi silenciada.

Marina Ferreira
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Passaram 24 anos desde a primeira vez que a jornalista ouviu falar do nome Jeffrey Epstein, em 2002, e alguns menos desde que se encontrou ao vivo e a cores com a personalidade que já na altura despertava a curiosidade de vários meios de comunicação social. Agora, com 56 anos, a britânica Vicky Ward admite que ainda na primeira década de 2000 podia ter exposto o multimilionário e evitado que continuasse a operar a sua rede de abuso sexual, mas revela que foi silenciada.

Quando foi contratada para escrever o perfil de um homem que era um “completo mistério” e cujas origens da enorme fortuna eram desconhecidas, Ward era editora colaboradora da Vanity Fair, em Nova Iorque. A jornalista relata agora ao The Telegraph que, quando começou a explorar detalhes sobre a mansão de Epstein no Upper East Side e sobre os seus negócios na área financeira, acabou por deparar-se também com as primeiras alegações de abuso contra o criminoso sexual que morreu na prisão em 2019.

Mal soube da investigação jornalística em curso, Epstein partiu para o ataque, primeiro para conter danos e depois para impedir a publicação das alegações contra si. Começou por abordar Ward por intermédio de pessoas da sua confiança. Primeiro, o diretor executivo do Bear Stearns, um banco de investimento onde Epstein tinha trabalhado, que convidou Ward para um encontro durante o qual elogiou extensamente o antigo colega.

Nessa altura, a jornalista não teve de se esforçar minimamente para chegar à fala com inúmeros amigos e associados influentes de Epstein para lhe traçar o perfil. Chegavam até ela sem parar e descreviam o “poder suave” que o financeiro tinha nessa altura em relação a figuras como o então Príncipe André e muitos mais.

Depois chegou a vez de ser Epstein a falar em causa própria. A jornalista foi convidada para um chá informal na casa do multimilionário no Upper East Side ainda em 2002. Descreveu esta semana ao The Telegraph a decoração excêntrica do local, que incluía um caniche empalhado em cima de um piano e a abordagem, nessa altura neutra, de Epstein, que a convidou para jogar xadrez e pediu a uma assistente que lhe dissesse que a tinha achado bonita.

Epstein começou a ameaçar diretamente Ward (grávida de gémeos) após saber que ia revelar história das irmãs Farmer

O encontro com Epstein foi estranho, mas não ameaçador, embora a pressão já existisse, contou a jornalista. Mas Vicky Ward continuou a investigação, encontrando discrepâncias entre os ganhos financeiros de Epstein e a sua atividade profissional, mas sobretudo dando de caras com as primeiras alegações concretas de abuso sexual e aliciamento de menores para prostituição.

Soube da história de Maria Farmer, uma artista que trabalhou brevemente para Epstein, e a sua irmã, Annie, de 16 anos, que partilharam a história do abuso da menor com a jornalista. Foi depois de se encontrar pela primeira vez com estas vítimas que Epstein começou a telefonar à jornalista regularmente para lhe fazer perguntas sobre o artigo e sobre com quem tinha falado.

As perguntas transformaram-se rapidamente em ameaças. Chegou a dizer a Ward, que nessa altura estava grávida de gémeos, que iria mandar amaldiçoar os seus filhos. Depois disse-lhe que sabia onde estava marcado o parto dela, referindo que conhecia todos os médicos norte-americanos. Ameaçou ainda fazer com que o marido de Ward fosse despedido.

Já com a gravidez em estado avançado, a jornalista foi aconselhada a ficar em repouso total pelo médico, devido ao stress a que ficou sujeita com tudo o que a reportagem implicou. A peça jornalística foi para a gráfica em janeiro de 2003, mas Ward foi informada que o perfil não iria incluir o caso das irmãs Farmer.

Nessa altura, as irmãs estavam “completamente aterrorizadas”, de acordo com a jornalista, mas tinham aceitado falar publicamente e contar a sua história, mesmo com Epstein a acusar Maria de roubo e a negar as alegações de abusos sexuais quando lhe foi apresentado o direito ao contraditório por parte da Vanity Fair.

Agora, Vicky Ward considera que se tivesse insistido na publicação da história, mesmo depois de esta lhe ser negada no local onde trabalhava, poderia ter tido um papel relevante para que os abusos que Epstein posteriores a 2003 pudessem ter sido de alguma forma evitados.

Annie Farmer foi uma das vítimas que, em 2020, testemunhou no julgamento de Ghislaine Maxwell. “Um dos impactos mais dolorosos do abuso de Maxwell e Epstein foi a perda de confiança em mim mesma”, revelou na sala de audiências, referindo que não falou sobre os abusos durante anos devido ao enorme trauma a que foi sujeita.