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Banco de Portugal admite que economia pode crescer menos de 1,5% em 2026 e inflação superar os 4%

Banco de Portugal cortou previsão de crescimento de 2,3% para 1,8% mas esse é o "cenário-base". Santos Pereira admite, questionado pelo Observador, que crescimento pode ser menor (e inflação pior).

Edgar Caetano
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O Banco de Portugal estimou, nesta quarta-feira, que a economia portuguesa poderá crescer apenas 1,8% em 2026, menos do que os 2,3% previstos há apenas três meses – consequência da guerra no Irão e das intempéries de janeiro e fevereiro. Porém, tal como o “cenário-base” previsto (na semana passada) pelo BCE, essa é uma previsão que já se terá tornado obsoleta, dado que a guerra continua sem fim à vista. Num cenário adverso, a economia poderá crescer menos de 1,5% e a inflação poderá superar os 4%, admite-se tendo por base as declarações de Álvaro Santos Pereira.

Questionado pelo Observador na conferência de imprensa de apresentação do Boletim Económico de março, um documento trimestral publicado pelo Banco de Portugal, o governador explicou que, ao contrário do Banco Central Europeu (BCE), o supervisor financeiro português optou por não incluir no relatório um conjunto de estimativas para o crescimento e para a inflação caso o conflito no Médio Oriente se prolongue por muito mais tempo.

O BCE tinha-o feito. Na quinta-feira, Christine Lagarde apresentou um “cenário-base” em que a economia da zona euro crescia 0,9% em 2026 (e 1,3% em 2027) e em que a inflação subia para os 2,6% neste ano mas baixava para 2% no próximo ano. Porém, já depois do final da conferência de imprensa em Frankfurt, o BCE divulgou, de forma quantificada, que havia outros dois cenários menos animadores.

Além do cenário-base, o BCE simulou um “cenário adverso” e um “cenário severo“: no primeiro, a taxa de inflação pode atingir os 3,5% este ano (e não baixar, tão rapidamente, no próximo ano) e no segundo, o pior de todos, ela poderia atingir os 4,4% – ao mesmo tempo que a economia da zona euro crescia apenas 0,5% e podia passar por uma recessão técnica no verão.

https://observador.pt/especiais/em-junho-ou-ate-mais-cedo-em-abril-bce-admite-voltar-as-subidas-de-juros-por-causa-da-guerra-no-irao/

Por outro lado, também instantes após a conferência de imprensa terminar, fontes de dentro do BCE disseram a agências noticiosas internacionais como a Bloomberg e a Reuters que, na realidade, aquele cenário-base já era visto como “desatualizado”, porque se baseava em informação disponível até 11 de março – a “data de corte” que foi usada pelos economistas do BCE para dar aos responsáveis a informação (trabalhada) o mais atualizada possível.

Também o Banco de Portugal fez um esforço por usar uma “data de corte” mais recente nos dados que foram trabalhados. Mas, mesmo assim, só foram usados dados até 13 de março, confirmou Álvaro Santos Pereira, questionado pelo Observador. Isso significa que as previsões divulgadas pelo supervisor português também já estarão parcialmente desatualizadas.

Por isso, em resposta durante a conferência de imprensa, Santos Pereira confirmou que “o cenário-base do Banco de Portugal está bastante alinhado com o cenário-base do BCE” – ou seja, aquele que é, dentro do próprio Conselho da autoridade monetária, considerado desatualizado.

“Nós não fizemos os cenários adverso e severo mas, obviamente, aquilo que estamos a falar, nos cenários adversos ou severo, teria magnitudes parecidas“, afirmou o governador do Banco de Portugal.

"Depende muito dos países europeus, que têm diferenças que têm um impacto, mas posso dizer que seriam cenários que, embora de forma não linear, [os cenários adversos] seriam parecidos ou proporcionais."
Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal

Em concreto, acrescentou Álvaro Santos Pereira, o cenário mais gravoso previsto pelo BCE prevê que a economia poderá crescer menos 0,4 pontos percentuais e a inflação pode ser 1,8 pontos percentuais mais elevada.

Ou seja, com uma previsão de um crescimento de 1,8% em Portugal em 2026, aplicando-se uma quebra “de magnitude parecida” o produto interno bruto (PIB) nacional poderia crescer apenas 1,4%.

E a inflação, que no cenário-base dos economistas do Banco de Portugal deverá acelerar para 2,8%, subiria para mais de 4% — ou poderia, mesmo, superar os 4,5%, se se acrescentassem os 1,8 pontos percentuais.

https://observador.pt/2026/03/25/guerra-e-intemperies-levam-banco-de-portugal-a-cortar-previsao-de-crescimento-e-prever-uma-inflacao-mais-elevada/

Esta é uma extrapolação que não pode ser feita de forma totalmente direta, porque cada país tem características diferentes capazes de influenciar o grau de desaceleração económica (e a aceleração do ritmo de subida dos preços). Álvaro Santos Pereira explicou que “depende muito dos países europeus”, por exemplo “uns estão mais dependentes do gás natural ou têm outras fontes de energia”.

“Esse tipo de coisas tem um impacto nas diferenças entre países, mas posso dizer que seriam cenários que, embora de forma não linear, seriam parecidos ou proporcionais“, respondeu Álvaro Santos Pereira.

Nas novas previsões, o supervisor financeiro calcula que, mesmo no cenário-base, a economia portuguesa estagnou no primeiro trimestre (uma variação de 0,0% no PIB em relação ao trimestre anterior). É uma desacelaração quando comparada com o crescimento de 0,9%, também em cadeia, obtido no quarto trimestre de 2025.

Nos trimestres seguintes, projeta-se crescimentos em cadeia de 0,4%, embora o Banco de Portugal admita ser difícil fazer estimativas porque ainda existe uma “grande incerteza” em torno da recuperação das tempestades que atingiram, sobretudo, a zona centro do país. Há, diz o supervisor, “informação ainda limitada sobre a dimensão dos prejuízos e o impacto das medidas de apoio anunciadas pelo Governo”.

Subida de juros? Álvaro Santos Pereira diz que “temos de manter a cabeça fria”

Uma das hipóteses que podem levar a um crescimento menor é a perspetiva de que o BCE, confrontado com o risco de uma nova espiral inflacionista, possa ter de subir novamente as taxas de juro. Nos últimos dias, os mercados financeiros passaram a admitir que a autoridade monetária da zona euro possa ter de subir os juros três vezes até ao final do ano, e não apenas duas, levando a taxa para 2,75%.

Nesta quarta-feira, a presidente Christine Lagarde disse que o BCE poderá subir os juros mesmo que o novo aumento da inflação não seja muito duradouro, caso o conflito no Médio Oriente continue a pressionar os preços em alta. A ideia central é que, se a inflação voltar a ficar acima da meta de 2%, o BCE pode sentir necessidade de reagir, mesmo que seja de forma “comedida”, também para não passar a imagem de inação.

Segundo a Reuters, Lagarde afirmou que, depois de ter mantido as taxas inalteradas na semana passada, o BCE irá reavaliar o cenário reunião a reunião. A francesa disse que o banco não quer ficar “paralisado pela hesitação”, ao mesmo tempo que o economista-chefe do BCE, o irlandês Philip Lane, apontou os preços cobrados pelas empresas e a evolução dos salários como sinais-chave para perceber se a pressão inflacionista irá, ou não, espalhar-se pela economia.

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Na conferência de imprensa desta quarta-feira, questionado acerca das declarações de Lagarde, Álvaro Santos Pereira defendeu que é preciso “manter a cabeça fria” e ter presente que a situação na zona euro hoje é “muito diferente” da que existia em 2022, no início da invasão russa da Ucrânia. Isto sem prejuízo, acautelou, de o BCE dever estar “pronto a reagir a qualquer eventualidade“.

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, recordou o governador do Banco de Portugal, “a inflação já rondava os 5%, estávamos a sair da pandemia, havia constrangimentos na oferta e cadeias de valor, havia procura económica significativa graças aos estímulos públicos”. Em contraste, agora temos inflação de 2%, salientou Álvaro Santos Pereira.

IVA Zero? Governos devem evitar optar pelas “soluções fáceis”

Por outro lado, o governador lembrou, questionado pelo Observador sobre se o Governo deveria relançar o “IVA Zero”, que as autoridades políticas devem evitar “soluções [demasiado] abrangentes” e ter presentes “as lições aprendidas” no recente surto inflacionista e não optar pela via das “soluções fáceis” que acabam por ajudar todos, incluindo quem não precisa, potencialmente contribuindo para gerar desequilíbrios económicos mais à frente.

“O BCE, assim como outras autoridades monetárias, têm falado na importância de os pacotes de apoio, se possível, respeitarem os preços (para levar as pessoas a poupar mais energia) e serem ‘targeted’ [localizadas] e temporárias”, afirmou Santos Pereira, sustentando que “é importante que se proteja, principalmente, os mais vulneráveis e deixar os preços funcionar o mais possível”.

“Em 2022, muito poucos governos fizeram isto, apesar dos conselhos dos bancos centrais, porque é mais fácil“, criticou o governador do Banco de Portugal.

https://observador.pt/2026/03/25/chegar-a-administrador-do-banco-de-portugal-e-o-topo-alvaro-santos-pereira-defende-saida-apos-mandato/