Pelo menos 500 pessoas morreram em prisões em El Salvador enquanto estavam sob custódia de agentes do Estado após a declaração do regime de exceção para combater a criminalidade, que completa quatro anos esta semana, denunciou esta quarta-feira uma organização não governamental (ONG).
Noventa por cento dos mortos não se enquadram no perfil de membros de gangues e o número real pode ultrapassar os 2.000, segundo a organização Socorro Jurídico Humanitário (SJH).
Esta situação foi denunciada a vários organismos internacionais, levando o Governo salvadorenho a negar repetidamente, inclusive perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), as acusações de tortura e mortes nas prisões do país.
Miguel Ángel Vega declarou à agência de notícias EFE — numa entrevista realizada em sua casa, na zona rural de Sisiguayo, na cidade de Jiquilisco, a cerca de 150 quilómetros de San Salvador — que o seu filho mais novo, José Alfredo Vega González, de 28 anos, foi detido em 17 de maio de 2022 e morreu num hospital em 04 de abril de 2025.
A causa da morte foi sépsis, uma condição grave que ocorre quando o sistema imunitário reage de forma exagerada a uma infeção. José Alfredo estava preso no Centro Penitenciário de Izalco (leste), onde, segundo a defensoria Pública, verifica-se a maioria das mortes de reclusos. O jovem foi preso durante o período mais duro do regime salvadorenho, quando eram registadas diariamente centenas de detenções.
O seu filho mais velho, Vidal Adalberto Vega González, de 34 anos, também foi detido e permanece na Quinta Penitenciária de Quezaltepeque (leste).
O regime de exceção foi implementado pelo atual Presidente de El Salvador, Naiyb Bukele, que mantém uma política dura de combate ao crime organizado. Este regime possibilitou vários milhares de detenções, sendo muito criticado pelas organizações de direitos humanos internacionais.
Diversas ONG já receberam milhares denúncias de violações de direitos humanos no país, em particular detenções arbitrárias e tortura, além de mortes nas prisões.
A Amnistia Internacional (AI) alertou também em agosto passado para o risco de violação de direitos humanos com a reforma constitucional que permite a reeleição do Presidente do país por tempo indeterminado. A organização reforçou que a aprovação da reforma constitucional pela Assembleia Legislativa de El Salvador modifica elementos substantivos do sistema político e eleitoral.
Com a aprovação no Congresso salvadorenho, a reforma abre caminho direto a um terceiro mandato de Bukele, do partido de direita Nuevas Ideas (NI), que ocupa o cargo desde 2019.