(c) 2023 am|dev

(A) :: O processo da Língua: e se nunca tivéssemos sido Portugueses?

O processo da Língua: e se nunca tivéssemos sido Portugueses?

Uma investigação-ensaio sobre identidade, fronteiras e a estranha possibilidade de falarmos uma língua que nunca nos pertenceu.

Nuno Nabais Freire
text

Há algo profundamente inquietante na ideia de identidade.

Crescemos a acreditar que somos algo definido: um país, uma língua, uma história. Dizem-nos que falamos Português, que sempre falámos Português, que esta língua é nossa como o território que habitamos.

Mas e se tudo isso for apenas… uma decisão antiga que continuamos a cumprir?

Não uma verdade, mas uma sentença.

Para compreender o problema, temos de regressar a um tempo anterior a Portugal. Antes da bandeira, antes da fronteira, antes da palavra “nós”.

No noroeste da Península Ibérica existia uma realidade que hoje quase esquecemos: a Gallaecia. Um espaço sem a divisão que hoje nos parece natural, onde as populações do que é hoje o Norte de Portugal e a Galiza partilhavam não apenas costumes, mas uma mesma língua.

Não semelhante. Não próxima.

A mesma.

Essa língua, que os linguistas designam como galego-português, não conhecia reinos. Não respondia a fronteiras. Era falada de Braga a Santiago de Compostela como uma continuidade orgânica, quase geológica, como um rio que não sabe onde começa nem onde termina.

E, no entanto, algo aconteceu.

Quando D. Afonso Henriques empurrou a fronteira para sul, não levou apenas território. Levou uma forma de falar, uma estrutura de mundo. O que hoje chamamos Português não nasceu no Sul; foi transportado para ele.

O Sul não criou a língua. Recebeu-a.

E depois, em 1296, D. Dinis fez algo decisivo: oficializou a língua vulgar da corte. Não inventou uma língua nomeou-a. Fixou-a. Deu-lhe um corpo político.

Deu-lhe um nome.

Chamou-lhe Português.

É aqui que precisamos de desfazer um equívoco histórico: o de que o Português e o Galego são ramos distintos que brotaram separadamente do Latim. Na verdade, o Latim é a ‘avó’, não a ‘mãe’ direta. Antes da separação, o Latim evoluiu para uma língua viva e plena no Noroeste, o galego-português. O que aconteceu depois não foi uma evolução natural a partir da raiz romana, mas uma cisão política de um corpo que já estava formado

Do outro lado da fronteira, o mesmo processo ocorria com o Castelhano. A diferença não foi linguística. Foi política.

A língua não mudou. O que mudou foi o poder que a reclamava.

Talvez seja aqui que começa o verdadeiro problema.

Não no que falamos, mas no que acreditamos ser.

Porque, tecnicamente, o que hoje chamamos Português e Galego são duas evoluções políticas de uma mesma matriz linguística. Duas trajetórias divergentes de um mesmo sistema.

Uma teve Estado, corte, expansão, império.

A outra ficou.

E ficar, na história, raramente é uma vantagem.

Alexandre Herculano escreveu, no século XIX, algo que ainda hoje ressoa como uma espécie de heresia silenciosa:

“A Galiza deu-nos população e língua, e o português não é senão o dialecto galego civilizado e aperfeiçoado.”

Não é uma frase confortável. Não foi feita para ser.

Mas talvez o desconforto seja precisamente o ponto.

Há um detalhe que raramente mencionamos.

O rei Afonso X, o Sábio, uma das figuras centrais da cultura medieval ibérica, escreveu as suas “Cantigas de Santa Maria” em galego-português  não em castelhano.

Porquê?

Porque, na época, essa língua era considerada mais adequada à poesia, à música, ao sagrado. O castelhano era a língua da lei. O galego-português era a língua da alma.

Hoje, a situação inverteu-se. E quase ninguém questiona porquê.

Mas há perguntas mais incómodas.

Em 1385, em Batalha de Aljubarrota, Portugal garantiu a sua independência face a Castela. Foi um momento fundador, celebrado e com razão.

Mas toda a vitória tem um preço.

Ao afirmarmos a nossa separação política, consolidámos também uma separação linguística. A Galiza ficou do outro lado. A mesma língua começou a ser tratada como duas.

Talvez não tenhamos apenas conquistado independência.

Talvez tenhamos aceite uma divisão.

Hoje, alguns movimentos na Galiza defendem algo que, à primeira vista, parece radical: escrever galego com ortografia portuguesa. Usar “nh” em vez de “ñ”. Reaproximar-se.

Não por nostalgia, mas por estratégia.

Percebem que essa aproximação os liga a um espaço global, Brasil, Angola, Moçambique, que ultrapassa largamente o seu território.

A questão, então, impõe-se:

Portugal deveria olhar para isto com indiferença? Ou com reconhecimento?

Talvez estejamos a olhar para a língua da forma errada.

Talvez não seja uma propriedade.

Talvez seja uma herança partilhada que foi, em determinado momento, dividida por necessidade histórica.

Talvez não sejamos uma língua que nasceu.

Talvez sejamos uma língua que foi separada.

E se assim for, o que significa ser português?

Ser o resultado de uma evolução natural?

Ou ser o efeito prolongado de uma decisão política tomada há mais de sete séculos?

Antes de Lisboa, antes de Coimbra, antes do império, houve vozes anónimas.

Gente que nunca escreveu, nunca legislou, nunca definiu nada.

Mas falou.

Falou nas encostas, nas aldeias, nos caminhos por onde a língua desceu do Norte e enraizou se, deixando de ser origem para passar a ser hábito

A língua não nasceu nos centros de poder.

Passou por eles.

E talvez seja essa a verdade mais difícil de aceitar:

que aquilo que julgamos ser uma origem pode não passar de uma narrativa consolidada.

Que aquilo que defendemos como identidade pode ter sido, um dia, apenas uma escolha.

E se a nossa língua não for uma origem, mas um processo?

E se continuarmos, ainda hoje, a cumprir uma decisão que nunca tomámos?

Talvez não sejamos portugueses da forma que pensamos.

Talvez sejamos apenas o resultado de uma fronteira que decidiu, por nós, o que havíamos de ser.

Nota do autor: O orgulho de ser português permanece intacto. Este ensaio não o nega, interroga-o. Não para o enfraquecer, mas para o libertar das simplificações que escondem a profundidade das nossas origens