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O vício do imediato

Estamos a ficar viciados no imediato e, como qualquer vício, o resultado torna-se rapidamente em dependência e no fim acabamos por perder tudo.

Bruno Bobone
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A nossa vida hoje parece que vale por aquele minuto que estamos a viver.

A pressão da velocidade da tecnologia faz-nos sentir obrigados a tudo fazer no minuto em que estamos.

As redes sociais entram no nosso momento de vida com uma pressão que nos obriga a ler e a reagir naquele preciso momento.

As notícias só interessam durante o tempo em que estão a ser sensação, depois disso ninguém mais volta a ter tempo para voltar a preocupar-se com a terrível situação que foi tão importante naquele segundo.

Estamos a ficar viciados no imediato e, como qualquer vício, o resultado torna-se rapidamente em dependência e no fim acabamos por perder tudo.

Os vícios são sempre resultado de uma dependência que se cria sobre a nossa vontade e que condiciona a nossa decisão e isso, que acontece em relação ao vício do jogo, da bebida, da droga, do jogo, da pornografia, mas também de muitas outras realidades, que nos tornam dependentes e nos retiram um dos maiores valores da humanidade que é a liberdade.

Não me refiro à liberdade política do regime em que cada país vive, mas a uma liberdade mais profunda e que é a liberdade individual, aquela que até quando uma pessoa está presa pode continuar a ter a sua própria liberdade. A liberdade de poder pensar e a liberdade de garantir que ninguém pode cortar esse pensamento.

Pois é exactamente essa liberdade que está a desaparecer neste tempo em que as pessoas não têm já tempo para pensar, porque quando alguma ideia surge já foi ultrapassada pelo estímulo social imediatamente posterior.

Quando estamos a ser confrontados com uma notícia e nos propomos avaliar o significado desse acontecimento, somos invadidos por um número infindável de comentários que não foram pensados porque não tiveram tempo e que não nos deixam pensar porque invadiram o nosso cérebro e já estamos condicionados para uma resposta imediata e sem pensar de seguida.

Na maioria das vezes, dizemos para nós mesmos que mais tarde faremos essa avaliação, mas isso já foi passado e nunca voltamos a ter tempo para pensar nesse tema, pois as redes sociais já nos encheram de outros temas que também não serão matéria para pensarmos.

Tudo isto é verdadeiramente cansativo e muito pouco humano.

Por isso assistimos a um aumento constante das doenças nervosas, das depressões, das circunstâncias em que nos sentimos perdidos e abandonados pois não tivemos o tempo para estruturar o nosso pensamento e é exactamente esse pensamento estruturado que poderá dar consistência e resistência à nossa maneira de viver.

Este vício social está cada vez mais a afectar o nosso desenvolvimento, está a condicionar tudo o que influi nas nossas vidas, desde a política, o trabalho, o lazer, mas sobretudo o caminho que pretendemos para sermos felizes.

Temos que ser capazes de dizer basta.

Temos que voltar a acreditar que o que importa é a verdade e não a rapidez, que aquilo que nos vai levar para a frente não é a pessoa que melhor parece mas aquela que melhor pensa.

Temos que escolher para nos liderar, não aquele que melhor promete, dizendo-nos que nada nos vai custar, mas sim aquele que nos conta a verdade sobre os sacrifícios que teremos de passar para chegar onde pretendemos.

Temos que deixar de dar crédito a quem nos aparece por qualquer meio a dar uma opinião como se da verdade se tratasse, e procurar a sabedoria junto daqueles que estudam os assuntos, que pensam sobre os temas e que nos dão a credibilidade do saber estruturado.

Temos que perder o vício de querer estar sempre em tudo e deixar de acreditar que há quem saiba sempre de tudo.

Temos que ter tempo para pensar e para continuar a viver a liberdade de cada um.