Tinham passado menos de 48 horas de um encontro em Genebra — em que foram feitos “progressos significativos” e em que ficou agendada uma nova reunião para daí a poucos dias em Viena — quando os ataques dos Estados Unidos (e de Israel) se começaram a fazer ouvir na capital do Irão, no dia 28 de fevereiro. O deflagrar da guerra pôs um ponto final nas negociações que estavam a decorrer. Contudo, a via diplomática pode ter sido reaberta no passado fim de semana, no dia em que se cumpriram três semanas de conflito no Médio Oriente.
O anúncio de supostas negociações foi feito por Donald Trump, na segunda-feira de manhã.”Tenho o prazer de relatar que os Estados Unidos da América, e o país do Irão, tiveram, nos últimos dois dias, conversas muito boas e produtivas sobre uma solução completa e total das nossas hostilidades no Médio Oriente”, escreveu o Presidente norte-americano na Truth Social, numa mensagem escrita toda em maiúsculas.
A informação foi prontamente refutada pelo presidente do Parlamento iraniano, que, com a morte de grande parte da cúpula militar e política do regime, se tem assumido como uma das suas vozes de liderança. “Não foram realizadas quaisquer negociações com os EUA e as fake news são utilizadas para manipular os mercados financeiros e de petróleo e escapar do pântano em que os EUA e Israel estão presos”, argumentou Mohammad Bagher Ghalibaf na sua conta no X.

As contradições nas declarações dos dois líderes podem ser explicadas, segundo múltiplos relatos de responsáveis norte-americanos, israelitas, iranianos e do Médio Oriente à imprensa internacional, com o atual estado da relação diplomática entre os dois países: existem, tal como disse Trump, canais de diálogo abertos, através de mediadores, mas não existem, como notou Ghalibaf, quaisquer negociações formais a decorrer.
A existência de diplomacia indireta em tempos de guerra não é surpreendente, realçam os analistas, que apontam uma tendência histórica neste sentido — mas é improvável que seja bem-sucedida. “Estou cético, porque a confiança foi completamente destruída e as posições das partes em conflito estão mais distantes do que nunca”, ponderou David Khalfa, analista especializado no Médio Oriente, à AFP. Pelo contrário, a insistência na diplomacia pode estar a ser utilizada por Washington como uma forma de ganhar tempo antes de avançar para uma nova fase do conflito — à semelhança do que aconteceu na véspera do 28 de fevereiro.
Os contactos cruzados, os convites para Islamabad e os planos de paz por pontos. Como evoluíram os diálogos?
“Eu não quero um cessar-fogo”. Era com estas palavras que Donald Trump recusava, na passada sexta-feira, pôr fim à guerra na mesa das negociações, insistindo que Washington iria alcançar a “vitória”. Porém, nesse mesmo fim de semana, vários Estados do Médio Oriente confirmaram a existência de uma série de conversas cruzadas.
No domingo, realizaram-se telefonemas entre Donald Trump e o comandante das Forças Armadas do Paquistão e entre o primeiro-ministro paquistanês, Muhammad Shehbaz Sharif, e o Presidente do Irão, Masoud Pezeshkian. Ainda no domingo, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Egito falou ao telefone com os seus homólogos do Paquistão e do Qatar, do Irão e ainda com o enviado especial da Casa Branca, Steve Witkoff. No dia seguinte, os chefes da diplomacia da Turquia e do Paquistão falaram ao telefone.
O Qatar rapidamente se retirou desta rede de contactos cruzados, tendo o Ministério dos Negócios Estrangeiros anunciado que o foco de Doha é “defender o país” e não mediar negociações. Desde a primeira hora da guerra, Turquia e Egito disponibilizaram-se para assumir a mediação, mas, depois de horas de contactos, o Paquistão parece ter emergido como o mediador mais bem colocado, disponibilizando-se para receber na capital Islamabad delegações iranianas e norte-americanas.
Foi através do Paquistão que os Estados Unidos fizeram chegar ao Irão, na terça-feira, uma proposta para um plano de paz com 15 pontos, à imagem do plano desenhado no final do ano passado para pôr fim à ofensiva israelita na Faixa de Gaza, segundo detalhou o New York Times. A proposta choca de frente com as exigências iranianas e levou o porta-voz do comando militar iraniano a questionar se “o nível interno de conflito [nos EUA] chegou ao ponto em que estão a negociar com eles próprios”. Teerão apresentou uma contraproposta.
No entanto, este desenrolar das negociações inclui apenas os contactos que foram tornados públicos ou confirmados por múltiplas fontes de vários países e nunca negados. Nos bastidores, as negociações podem ter estado a decorrer de forma mais direta e há mais tempo: o New York Times avançou que Steve Witkoff terá falado ao telefone com o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Aragchi, ao longo dos últimos dias, enquanto o Axios relatou que Witkoff e Jared Kuschner, genro de Trump, terão estado em contacto com Mohammad Bagher Ghalibaf.
A “natureza fluida da diplomacia” permite diálogos — mas uma negociação bem-sucedida é improvável
Do cruzamento de telefonemas, públicos ou não, terá resultado um acordo: uma ronda diplomática no final desta semana em Islamabad, com a presença dos enviados Witkoff e Kuschner, mas também do vice-presidente JD Vance. A delegação norte-americana deveria chegar ao Paquistão, “dentro de um dia ou dois”, avançou agência noticiosa estatal turca na segunda-feira à noite, citando fontes do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Paquistão.
Questionada sobre esta viagem de Vance, a porta-voz da Casa Branca declarou, na segunda-feira que os “EUA não vão negociar através da imprensa”. “É uma situação fluída e a especulação sobre encontros não deve ser tomada como final até serem formalmente anunciados pela Casa Branca”, afirmou Karoline Leavitt. A posição do Presidente foi igualmente vaga ao falar, na segunda e na terça-feira, sobre o interlocutor com quem disse que Washington está em contacto. Trump esclareceu apenas que não é o atual Líder Supremo, Mojtaba Khamenei, mas que os Estados Unidos estão a falar “com as pessoas certas” e com alguém “muito respeitado”.

As muitas declarações confirmam a existência de contactos, mas os relatos de responsáveis com conhecimento dos mesmos ao Financial Times e ao New York Times ajudam a explicar por que motivo Ghalibaf os negou: os diálogos estão ainda numa fase muito embrionária, longe de poderem ser considerados negociações de paz formais. Um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano confirmou, aliás, que “chegaram mensagens através de países amigáveis que indicam o pedido da América para negociações para acabar com a guerra e que tiveram respostas apropriadas”.
A diferença subtil entre conversas e negociações é destacada por uma pessoa com conhecimento dos diálogos à CNN como uma parte natural de um processo mais extenso. “Diplomacia está a ser conduzida neste momento, há múltiplas propostas em jogo. A natureza da diplomacia é que é uma discussão fluída. Nenhuma das propostas discutidas chegou a uma fase de maturação ou de aceitação geral”, elaborou a mesma fonte. Ou seja, antes de JD Vance (ou Witkoff ou Kuschner) se sentar à mesa com um mediador paquistanês para discutir pontos específicos das propostas de paz — que, por sua vez, transmite as informações ao representante iraniano—, a diplomacia já começou há muito tempo nos bastidores, com mensagens trocadas entre diplomatas que “testam as águas”, neste caso junto dos mediadores. Este formato é de tal forma comum na diplomacia que os representantes que dialogam nos bastidores têm um título — são conhecidos como “sherpas”, o nome dos guias nativos dos Himalaias, especialistas no terreno e que guiam os montanhistas, ou neste caso, os líderes políticos.
Contudo, os especialistas mostram-se céticos que os atuais diálogos possam sequer chegar a uma destas fases mais avançadas e ainda menos que possam pôr fim à guerra. “Eu não acho que isto seja um sinal que a guerra está a chegar ao fim”, argumenta Sanam Vakil, analista do think tank Chatham House, ao Financial Times. “Não vejo vontade de qualquer um dos lados para [chegar a] um compromisso”, elaborou, considerando que “Trump não pode abandonar uma crise que se está a formar”, enquanto o Irão não dá sinais de “ceder”.
As condições apresentadas por ambos os lados para o fim da guerra ajudam a perceber o ceticismo dos especialistas. No plano de 15 pontos, os Estados Unidos exigem o fim do financiamento e apoio aos grupos satélite (Hamas, Hezbollah e Houthis, entre outros), a reabertura do Estreito de Ormuz como um corredor marítimo livre e a limitação do programa de mísseis exclusivamente para autodefesa. Já as exigências do Irão, detalhadas pela imprensa estatal, incluem o fim dos conflitos regionais, ou seja, dos ataques aos grupos armados seus aliados (como os ataques de Israel ao Hezbollah ou ao Hamas), a criação de um novo regime legal em Ormuz e as garantias de que os ataques não se irão repetir, somadas à retirada das bases norte-americanas da região.
A estas condições, claramente incompatíveis, somam-se exigências de ambas as partes que não são mencionadas pelo outro lado, mas que já foram recusadas no passado, como o fim do programa nuclear iraniano, exigido de forma detalhada pelos Estados Unidos, ou o pagamento de compensações pelos danos causados durante a guerra, proposto pelo Irão. A incompatibilidade levou o Irão a recusar a proposta norte-americana esta quarta-feira, dizendo que esta “não tem lógica”.
Negociar durante uma guerra: obter informações sobre o adversário ou ganhar tempo?
Na passagem entre o século XVIII e o século XIX, um oficial da Prússia, Carl von Clausewitz, escreveu o que é hoje considerado um trabalho basilar de estratégia militar. Nesse texto, inacabado, o militar defendia que a guerra é uma continuação da política por outros meios. Mais de dois séculos depois, a ideia de Von Clausewitz é parafraseada uma e outra vez por especialistas para analisar conflitos atuais.
Segundo esta leitura, é normal que países em guerra recorram a negociações quando estão envolvidos em confrontos militares, pois diplomacia e guerra são apenas duas armas no mesmo arsenal de política externa. Ainda assim, uma análise estatística de Eric Min, cientista político e professor na Universidade da Califórnia, publicada em 2019, revela que, depois da II Guerra Mundial, negociações em tempos de guerra se tornaram “mais frequentes, mas também mais performativas e não produtivas”.
Esta tendência pode ser explicada pelo estabelecimento de uma ordem mundial baseada em regras, em que a comunidade internacional, guiada pela Carta das Nações Unidas, pelas Convenções de Genebra e pelas normas que definem a ordem, pressionam as partes envolvidas a encetar negociações — tal como está a acontecer entre Estados Unidos e Irão. Por outro lado, a diplomacia também funciona como forma de obter informação sobre o adversário, a partir dos objetivos e prioridades que são traçados à mesa das negociações.

“A trajetória do conflito sugere que a diplomacia vai reemergir não como alternativa à coerção mas como uma eventual consequência, em que cada parte conclui que um acordo, formal ou tácito, oferece mais benefícios estratégicos do que os custos contínuos da guerra”, argumenta Zakiyeh Yazdanshenas, analista no think tank Centro de Estudos Estratégicos para o Médio Oriente, num artigo de análise na revista Foreign Policy. Neste momento, o Irão olha para o bloqueio do Estreito de Ormuz e para as perdas económicas que isso está a impor aos Estados Unidos como uma vitória e uma aposta mais benéfica do que uma cedência à mesa das negociações.
Contudo, neste caso particular, a insistência dos Estados Unidos na diplomacia também pode ser uma estratégia para ganhar tempo, tal como aconteceu antes da guerra, apontam os analistas. Esta leitura surge de relatos de responsáveis norte-americanos ao New York Times, que detalharam que Donald Trump está a ponderar uma invasão da ilha de Kharg para controlar as infraestruturas petrolíferas ou uma operação terrestre no Irão para obter o urânio enriquecido que pode ser utilizado em armas nucleares — a que somam ainda as informações que o Pentágono deverá enviar para o Médio Oriente dois mil paraquedistas de uma das equipas de elite das Forças Armadas norte-americanas, a 82.ª Divisão.