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José Maria Ricciardi. A vida do Espírito Santo que não perdoou a Ricardo Salgado

A revolução obrigou-o ir estudar para a Bélgica, sambou na sua juventude no Rio de Janeiro e regressou a Lisboa para ser banqueiro. A batalha com Ricardo Salgado marcou os últimos 15 anos da sua vida.

Luís Rosa
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Bruno Roseiro
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José Maria do Espírito Santo Silva Ricciardi era o seu nome completo; era descendente de famílias aristocráticas, como os Holtreman Roquette, e de banqueiros, como os Espírito Santo; mas os amigos tratavam-no por “Zé Maria” e a família (e os amigos íntimos) por “Ia”. Morreu aos 71 anos, vítima de doença prolongada contra a qual lutou com o mesmo sentido de combatividade que aplicou para tentar limpar o nome da família Espírito Santo, manchado pela falência das principais empresas do grupo e pela resolução do Banco Espírito Santo que já tinha custado mais de 8 mil milhões de euros em fundos públicos até 2024.

A relação com o primo Ricardo Salgado, 11 anos mais velho, acabou por marcar a sua história. Não só devido à proximidade familiar — as mães de ambos, duas Espírito Santo, eram irmãs —, como também devido à rivalidade que se instalou entre Salgado e Ricciardi. Uma rivalidade inevitável, tendo em conta as diferenças profundas de personalidade entre os dois, e que que chegou ao ponto de Salgado tentar ‘jogar’ o pai António Ricciardi contra o filho José Maria para se manter na liderança da família Espírito Santo. E uma rivalidade que, após a derrocada do grupo, levou a um corte igualmente inevitável de relações que atingiu não só os dois, como uma boa parte da família. José Maria Ricciardi nunca perdoou o mal que entendia que Ricardo Salgado fez à família.

https://youtu.be/cE-BNLTgXG0?si=NFgqnVXeJY6hCP8J

Se José Manuel Espírito Santo, que morreu em 2023, foi o primeiro Espírito Santo a pedir desculpa aos clientes, José Maria Ricciardi foi o único Espírito Santo a quem nunca foi retirada a idoneidade para exercer funções no sector financeiro.

Saiu de casa aos sete anos e foi viver com a família de Ricardo Salgado

Era filho do comandante António Luís Roquete Ricciardi, que morreu em 2022 com 102 anos, e de Vera Maria Cohen Espírito Santo Silva — logo, era descendente por via paterna da família Holtreman Roquette e dos Espírito Santo por via materna. Nasceu a 27 de outubro de 1954 e foi o quinto de sete irmãos.

José Maria Ricciardi era sobrinho-neto de José Alfredo Holtreman Roquette, fundador e primeiro sócio do Sporting Clube de Portugal, que ficou mais conhecido por José de Alvalade, por via do título que herdou de 1.º Visconde de Alvalade. O estádio do Sporting chama-se precisamente “José de Alvalade” devido a este ascendente de Ricciardi — algo que enchia de orgulho o sportinguista José Maria.

Os choques com a sua mãe, devido a personalidades muito semelhantes, foram regulares desde criança. Chegou ao ponto de José Maria sentir necessidade de sair de casa. "Fui morar para casa da minha tia, mãe do Ricardo Salgado. Sou quase irmão deles, mais do que primo: vivi lá alguns anos. Ela foi a minha segunda mãe. Entre os 7 e os 12 anos. Depois voltei", contou mais tarde Ricciardi.

Quando José Maria Ricciardi nasceu, os Espírito Santo viviam no auge do seu poder. Ricardo Espírito Santo Silva, avô de Ricciardi, liderava um influente banco chamado Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa (BESCL) — uma instituição financeira que tinha nascido da fusão do Banco Espírito Santo com o Banco Comercial de Lisboa, onde pontificava, entre outros acionistas, a família Queirós Pereira. O BESCL era visto como um dos bancos do Estado Novo, por via da amizade próxima entre Ricardo Espírito Santo Silva e António de Oliveira Salazar, o presidente de Conselho que liderava a ditadura desde 1932.

José Maria nasceu numa família que fazia parte da elite do país naquela época e que vivia entre Lisboa e Cascais. “Vivíamos no Inverno em Lisboa e no Verão em Cascais. A casa em Cascais, que a minha mãe e o meu pai construíram quando nasci, era ao lado da casa do meu avô [Ricardo Espírito Santo Silva]. Lembro-me das mudanças que se faziam em Maio ou Junho (é espantoso como as distâncias se encurtaram): era como ir hoje para África!”, contou José Maria Ricciardi em 2009 numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro.

Logo nos primeiros anos de vida, quando estava a aprender a falar, José Maria Ricciardi foi novamente ‘batizado’ pela família. Como acontece com todas as crianças na fase inicial de aprendizagem da fala, há palavras que são mais difíceis de aprender. No caso de José Maria, era a palavra “ia”. Tantas vezes falhou, que ficou o petit nom na família: o “Ia”.

Os pais eram muito diferentes. O comandante António Ricciardi era austero e disciplinado, “vivia preocupado em que não houvesse excessos, que tivéssemos consciência de que a vida não se fazia daquelas facilidades”. Já a mãe, Vera Espírito Santo, era mais extrovertida, “exagerando e abusando de tudo o que podia para nos fazer uma vida [mais fácil]”.

https://observador.pt/especiais/jose-maria-ricciardi-nao-fiquei-surpreendido-que-ricardo-salgado-tivesse-roubado-a-sua-propria-familia/

Certo é que os choques com a sua mãe, devido a personalidades muito semelhantes, foram regulares desde criança. Chegou ao ponto de José Maria sentir necessidade de sair de casa. “Fui morar para casa da minha tia, mãe do Ricardo Salgado. Sou quase irmão deles, mais do que primo: vivi lá alguns anos. Ela foi a minha segunda mãe. Entre os 7 e os 12 anos. Depois voltei”, contou mais tarde Ricciardi.

“A minha mãe, apesar de gostar de mim, fez sempre algumas diferenças entre mim e os meus irmãos”, algo que sempre lhe deixou grande mágoa, mas que não o impediu de apoiar a sua mãe de forma muito próxima durante os últimos anos de vida.

O exílio no Rio de Janeiro e o samba às 6h da manhã no Carnaval

A vida dos Espírito Santo mudou radicalmente com o 25 de Abril de 1974. Até então tinham conseguido fazer a transição da Monarquia para a República — e da I República para o Estado Novo. Mas começam a perceber que terão dificuldades em fazer uma nova transição de regime devido às ligações com o Estado Novo.

José Maria Ricciardi sempre foi uma pessoa extrovertida — uma característica da infância que lhe ficou para o resto da sua vida. Não só adorava debater e discutir os assuntos principais da agenda política e económica do país e do mundo — e fazia-o sempre com grande convicção —, como vibrava com o seu Sporting. Gritava "golo" como todos e praguejava quando fosse necessário. "Oh pá, você nem parece um banqueiro!”, disse-lhe um adepto durante uma final da Taça de Portugal.

A sensação passa a certeza a 11 de Março de 1975, com a nacionalização da banca e dos principais setores económicos do país. O seu pai e primos são presos em Caxias, as contas bancárias pessoais são todas congeladas e o banco é tomado por militares. José Maria Ricciardi tem 20 anos e está no segundo ano do curso de Economia na Universidade Católica em Lisboa.

Após ter sido libertado, o comandante António Ricciardi consegue reunir apoios financeiros e envia o filho para a Bélgica, onde José Maria virá a terminar os estudos na prestigiada Faculdade de Ciências Económicas, Políticas e Sociais, da Universidade Católica de Louvain. Com uma tese dedicada à banca, Ricciardi começa a pensar em seguir os passos da família Espírito Santo e tentar uma carreira no setor financeiro. Com uma grande diferença: desta vez não havia um banco da família.

Os diferentes ramos da família Espírito Santo dividem-se no exílio pela Europa e pelos Estados Unidos para recolherem fundos para reconstruírem o seu império, mas será no Brasil que os diferentes ramos da família Espírito Santo se vão reunir enquanto família e também vão investir no setor financeiro e na agricultura.

José Maria Ricciardi sempre foi uma pessoa extrovertida — uma característica da infância que lhe ficou para o resto da vida. Não só adorava debater e discutir os assuntos principais da agenda política e económica do país e do mundo — e fazia-o sempre com grande convicção —, como vibrava com o seu Sporting. Gritava “golo” como todos e praguejava quando fosse necessário. Detestava ir para a tribuna de honra do Estádio de Alvalade. “Não consigo ver golos, não me posso manifestar ou chamar nomes ao árbitro. O futebol tem essa característica: igualiza o comportamento das pessoas”, contava o próprio José Maria Ricciardi. “Oh pá, você nem parece um banqueiro!”, disse-lhe um adepto durante uma final da Taça de Portugal que o Sporting ganhou ao Porto.

Ricciardi contava aos amigos com grande pormenor o dia em que entrou no Sambódromo, "entre as cinco e as seis da manhã, de domingo para segunda": "Via-se os recortes dos diferentes morros. Eram 60, 70, 80 mil pessoas a assistir nas bancadas. A bateria [do samba], composta por umas 700 pessoas, entrou, começou a tocar, tremeu o chão… Com o dia a nascer". Pormenor: as cores da Escola da Portela eram azul e branco e o símbolo era uma águia... "É a única coisa com uma águia de que gosto", recordou, em alusão à rivalidade com o Benfica.

Se era alegre e extrovertido aos cinquenta ou sessenta anos, imagine-se aos vinte e tal, com um diploma debaixo do braço e no Rio de Janeiro. José Maria Ricciardi foi dividir um apartamento com um irmão na zona sul do Rio de Janeiro, com vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas — “um dos sítios mais bonitos no Rio de Janeiro”, recordava com nostalgia. Dizia com o orgulho que o caracterizava que “andava de autocarro”, que convivia com todas as pessoas que lhe pareciam interessantes, que namorou muito e que sambava com o povo durante o Carnaval. “Desfilei na Escola de Samba da Portela e ganhei (em 1977 ou 78)! Foi o último ano em que a Portela ganhou. [As cores da] Portela são azul e branco e o símbolo é uma águia… É a única coisa com uma águia de que gosto”, recordou, em alusão à rivalidade com o Benfica.

Ricciardi contava aos amigos com grande pormenor o dia em que entrou no Sambódromo, “entre as cinco e as seis da manhã, de domingo para segunda”: “Via-se os recortes dos diferentes morros. Eram 60, 70, 80 mil pessoas a assistir nas bancadas. A bateria [do samba], composta por umas 700 pessoas, entrou, começou a tocar, tremeu o chão… Com o dia a nascer”, recordou na conversa que teve com Anabela Mota Ribeiro.

É no Brasil que também irá iniciar a sua carreira na banca. Começa pelo Banco Inter-Atlântico e, já no início da década de 80, é financial controller na sede do Grupo Espírito Santo, na Europa. Em 1983 passa a diretor-adjunto do Bank Espírito Santo International e, em 1987, torna-se diretor do Banco Internacional de Crédito (BIC), já em Portugal.

O BIC foi fundado em 1986 pelo Grupo Espírito Santo em associação com o Crédit Agricole, os sócios históricos dos Espírito Santo que viriam a ser igualmente acionistas do BES, com a reprivatização que ocorreu em 1991. Mas Ricciardi continuou no BIC, onde chegou a diretor-geral adjunto da Direcção Geral de Empresas e, mais tarde, a responsável da Direção de Mercado de Capitais.

O casamento tardio, o Benfica e a bruxa má

Bon vivant, José Maria Ricciardi permaneceu solteiro até conhecer o amor da sua vida — já depois de fazer trinta anos. A paixão por Teresa Calheiros e Menezes colocou-lhe um grande desafio, tendo em conta que era católico praticante. Teresa era casada com Luís Pinto Basto (que Ricciardi conhecia) e já tinha três filhos desse casamento. O sonho de se casar pela Igreja Católica nunca seria concretizado. Teresa era uma mulher com carreira profissional sólida, doutorada em Química e professora catedrática na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

“Foi um drama para mim. A minha mãe ficou chateadíssima. Muita gente da família achou que eu não estava bom da cabeça. Socialmente, foi duro. As pessoas achavam que me estava a querer divertir e a destruir um casamento… Tinha uma grande paixão por ela; tanto tinha que casei”, recordou.

A faceta de lutador de José Maria Ricciardi veio, novamente, ao de cima. E casou-se mesmo com Teresa, com quem teve uma filha, que ficou com o nome da mãe, e que era o centro da atenção da vida de Ricciardi. Fiel às suas raízes cristãs, José Maria acolheu de braços abertos os três afilhados. “Gosto deles como se fossem meus filhos. São os irmãos da minha filha”, dizia com naturalidade.

O amor pela filha Teresa só não permitia uma coisa: que ela fosse do Benfica. Foi o primeiro nome de um clube que Teresa Ricciardi proferiu, o que deixou o pai em estado de alerta. “Ó Teresinha, você está a ver a Bruxa Má? É o Benfica!”, disse-lhe José Maria. Remédio santo: Teresa foi fiel ao Sporting, como o pai.

O amor e a candidatura à liderança do Sporting

As ligações ao Sporting chegam desde a fundação do clube. José Maria Ricciardi era sobrinho-neto de José Alvalade, fundador, sócios número 1 e o grande motor para a criação do Sporting Clube de Portugal como é hoje conhecido. Apesar de ter passado três anos por Harvard a estudar Medicina, José Alvalade destacou-se sobretudo pela veia de empreendedor e pela forma como, através da ajuda financeira do avô, o Visconde de Alvalade, conseguiu lançar os alicerces de um projeto que ainda hoje mantém o mote que deixou: “Queremos que o Sporting seja um grande clube, tão grande como os maiores da Europa”. Foi também o seu tio-avô que defendeu como artigo 1 dos Estatutos que o clube fosse “uma associação  composta de indivíduos de ambos os sexos de boa sociedade e conduta irrepreensível”. Por tudo isso, ficou como referência de Ricciardi.

Apesar da vida profissional sempre ocupada, e dos períodos em que viveu no estrangeiro, foi tentando acompanhar o quotidiano do Sporting. Nunca foi jogador de futebol por não ter esse jeito, foi arranjando jeito para seguir o futebol do seu clube – e não só, vivendo de uma forma particularmente apaixonada o período de João Rocha, outra das suas referências nos leões, na presidência, quando nomes como Joaquim Agostinho, Carlos Lopes e muitos outros simbolizavam o ecletismo do ADN deixado por José Alvalade.

Muitos sabiam a importância que teve em momentos críticos em que o Sporting vivia situações mais complicadas no plano financeiro. Foi isso que fez, por exemplo, com que o então presidente do BES Investimento se encontrasse duas vezes com Luís Figo em 2013 para tentar convencer o antigo Bola de Ouro a avançar para a liderança do clube. Foi isso que fez com que, apesar de ter sido sempre um crítico acérrimo de Bruno de Carvalho, marcasse presença em algumas reuniões do Sporting com a banca por altura da reestruturação financeira.

Toda a família era sportinguista, toda a família acompanhava o clube, toda a família viveu tardes e noites que não se esquecem. No caso de Ricciardi, os 7-1 ao Benfica em dezembro de 1986 era o melhor jogo, entre a memória de ouvir o relato da final da Taça dos Vencedores das Taças de 1964 com o MTK Budapeste e o dia em que não aguentou e celebrou aos saltos na primeira fila da Tribuna do Estádio Nacional ao lado de Cavaco Silva o golo de Liedson frente ao Belenenses, nos últimos minutos da final da Taça de Portugal de 2007.

Só mais tarde, na década de 90, e por influência do primo, José Roquette, passou a integrar órgãos sociais do Sporting. Esteve quase 20 anos no Conselho Fiscal e Disciplinar do clube, primeiro como vogal e depois como vice-presidente, além de ter integrado vários elencos do Conselho Leonino, entretanto extinto, primeiro por inerência e depois por nomeação. Cruzou todo o período a partir de 1995 com José Roquette, António Dias da Cunha, Filipe Soares Franco e José Eduardo Bettencourt, tendo ainda entrado por uma última vez nas listas dos órgãos sociais eleitos em 2011, com Luís Godinho Lopes. Apesar dos convites, nunca quis subir em relação ao papel que desempenhava no Conselho Fiscal mas tinha outros “papéis” tão ou mais relevantes.

No interior do clube, às vezes em episódios que nunca se tornaram públicos, muitos sabiam a importância que teve em momentos críticos em que o Sporting vivia situações mais complicadas no plano financeiro. Foi isso que fez, por exemplo, com que o então presidente do BES Investimento se encontrasse duas vezes com Luís Figo em 2013 para tentar convencer o antigo Bola de Ouro a avançar para a liderança do clube. Foi isso que fez com que, apesar de ter sido sempre um crítico acérrimo de Bruno de Carvalho, marcasse presença em algumas reuniões do Sporting com a banca por altura da reestruturação financeira. Foi isso que fez com que, sem vislumbrar mais soluções para a crise institucional aberta em junho de 2018 com a destituição do então presidente em Assembleia Geral, surgisse como candidato surpresa num sufrágio com mais candidatos.

Com uma apresentação com pompa e circunstância no Centro Cultural de Belém, em listas que contavam com nomes como Miguel Frasquilho, João Proença, Marco Caneira, José Eduardo, Zeferino Boal, Bruno Mascarenhas ou Jorge Gurita, José Maria Ricciardi foi tentando enfatizar a urgência crítica do momento em termos financeiros, depois de um final de época com a invasão de Alcochete, oito rescisões de contrato, a AG Destitutiva e a entrada de uma Comissão de Gestão, e a necessidade de experiência para segurar o Sporting numa fase de risco, distanciando-se de quem lhe chamava “croquete”: “Não dou para essa missa. Os últimos dois presidentes campeões, o meu primo José Roquette e António Dias da Cunha, eram croquetes. O meu tio avô e fundador José Alvalade também era croquete. Se não fosse um croquete, se calhar não havia Sporting”.

Numa campanha dura onde Ricciardi sobressaía nas redes sociais, o banqueiro acabou em terceiro numa corrida a seis, atrás de Frederico Varandas e João Benedito, com 14,55% dos votos. Ainda teve intervenções pontuais sobre o clube no início do primeiro mandato do atual presidente, quando as coisas não corriam da melhor forma, mas foi depois ficando mais desligado do mediatismo que ganhara sobretudo nessa fase de candidato e passando apenas a mero sócio e adepto que integrava há largos anos o Grupo Stromp.

A batalha com Ricardo Salgado

No mundo financeiro, José Maria Ricciardi chegou a administrador em 1992, quando é nomeado para o Conselho de Administração da Espírito Santo Sociedade Investimentos — que dará origem ao Banco Espírito Santo Investimentos (BESI), instituição que Ricciardi virá a liderar entre 2003 e 2016.

O BESI acabou por representar o auge da sua carreira profissional. Empenhou-se em fazer crescer organicamente o banco, beneficiando também da grande influência que o GES foi alcançando na economia nacional, o que permitiu ao BESI estar presente na maior parte das operações financeiras da economia nacional.

Fazendo parte do clã Ricciardi, um dos cinco da família Espírito Santo que era liderado pelo seu pai, José Maria passou a fazer parte igualmente do Conselho de Administração do BES, para onde entrou em 1999.

Naquele dia 7 de novembro de 2013, Ricardo Salgado submete uma espécie de moção de confiança aos cinco clãs da família Espírito Santo sobre sua liderança (até aí incontestada). E porquê? Porque José Maria Ricciardi tinha confrontado Ricardo Salgado com o buraco nas contas da Espírito Santo International (ESI) e com as conclusões de uma auditoria especial realizada pelo Banco de Portugal.

Os últimos 15 anos da sua vida ficam marcados pela batalha com o primo Ricardo Salgado. Como contou numa entrevista ao Observador em 2023, o primeiro choque deu-se com uma investigação judicial. Chamado ao Ministério Público para ser constituído arguido no processo de alegado abuso de informação privilegiada relacionado com a privatização da REN e da EDP que ocorreram no período da troika, Ricciardi foi confrontado pelos procuradores com uma informação que não imaginava. “Vim a descobrir que, enquanto eu ia informando o dr. Ricardo Salgado sobre o intervalo de preços que nós recomendávamos ao nosso cliente [a empresa China Three Gorges, que tinha de apresentar propostas do preço por ação para ganhar a privatização], o dr. Salgado estava a comprar maciçamente, em conjunto com outras pessoas, ações da EDP. Foi aí que tive o primeiro grande choque”, contou.

Posteriormente, já em 2013, José Maria Ricciardi entra em rutura com Ricardo Salgado durante as famosas reuniões do Conselho Superior Espírito Santo, que reunia os cinco clãs da família. Estávamos a 7 de novembro de 2013. O Grupo Espírito Santo já estava efetivamente falido mas essa era uma informação com a qual ninguém sonhava naquela sala da sede histórica do GES, ao pé do Jardim da Estrela, em Lisboa — e muito menos o país. Mas Ricardo Salgado já estava sob grande pressão pública. Já tinha sido noticiado que tinha retificado as suas declarações fiscais devido a vários milhões de euros que tinha recebido do empreiteiro José Guilherme e havia investigações ao chamado caso dos submarinos que envolvia o GES. E o escrutínio público a Salgado não dava sinais de abrandar, até porque o apoio político de José Sócrates já não existia.

Naquele dia 7 de novembro de 2013, Ricardo Salgado submete uma espécie de moção de confiança aos cinco clãs da família Espírito Santo sobre a sua liderança (até aí incontestada). E porquê? Porque José Maria Ricciardi tinha confrontado Ricardo Salgado com o buraco nas contas da Espírito Santo International (ESI) e com as conclusões de uma auditoria especial (denominada de ETRIC I) realizada pelo Banco de Portugal.

https://observador.pt/especiais/antonio-ricciardi-morreu-em-2022-mas-sera-a-primeira-testemunha-do-julgamento-do-ges-o-que-disse-o-comandante-em-2015/#title-4

A dimensão do buraco nas contas da ESI ainda não era aquela que se saberia mais tarde, nem a falsificação da contabilidade da ESI era ainda conhecida (Ricciardi dirá sempre que só soube da falsificação em dezembro de 2013), mas aquele era o primeiro desafio direto e frontal que alguém ousava fazer ao todo-poderoso Ricardo Salgado. Daí a moção de confiança. Ricciardi recusou dar a confiança ao primo. E Salgado ameaçou que iria expulsá-lo da administração do BES e da liderança do BES Investimento — o que concretizou dias depois.

António Ricciardi contou num depoimento que fez no Ministério Público em 2015 que, quando soube disso, convocou uma reunião do Conselho Superior para duas horas antes da reunião do BES e forçou os dois primos desavindos — um deles seu filho — a fecharem-se numa sala para se entenderem. Isso aconteceu. Um acordo de paz foi assinado, mas uma fuga de informação para o Jornal de Negócios, que apresentava José Maria Ricciardi como um golpista que tinha tentado destituir Salgado — e que nem sequer tinha tido o apoio do seu próprio pai — estragou tudo. E obrigou António Ricciardi a emitir um comunicado público a clarificar que estava ao lado do seu filho José Maria.

Certo é que Ricardo Salgado nunca viria a ser substituído por ninguém da família. Pelo contrário, as descobertas das auditorias do Banco de Portugal e da falsificação da contabilidade do ESI viriam tornar evidente que o GES estava falido. Pior do que tudo: nunca mais as relações entre o clã Ricciardi e Ricardo Salgado foram as mesmas.

A dimensão do buraco nas contas da ESI ainda não era aquele que se saberia mais tarde, nem a falsificação da contabilidade da ESI era ainda conhecida (Ricciardi dirá sempre que só soube da falsificação em dezembro de 2013), mas aquele era o primeiro desafio direto e frontal que alguém ousava fazer ao todo-poderoso Ricardo Salgado.

José Maria Ricciardi tentou ter o apoio do Banco de Portugal liderado por Carlos Costa para suceder ao seu primo — o que nunca conseguiu. O que não o impediu de denunciar ao supervisor as irregularidades na gestão de Ricardo Salgado. José Maria Ricciardi foi o único membro da família Espírito Santo a quem o Banco de Portugal nunca retirou a idoneidade. Mesmo depois de todos os Espírito Santo terem sido afastados da administração do BES, o que veio a acontecer entre junho e julho de 2014, Ricciardi permaneceu à frente do BESI até final de 2016.

Já após a resolução do BES e a transformação do ‘banco bom’ em Novo Banco (com o BESI integrado na nova estrutura), José Maria Ricciardi vai liderar o processo de venda do BESI a um novo acionista, empenhado-se fortemente em apresentar o ‘seu’ banco a novos investidores. Foi na praça financeira de Xangai que encontrou o Grupo Haitong Bank que comprará o BESI por 379 milhões de euros em dezembro de 2014.

E em 2018, ainda regressou ao setor financeiro numa parceria com Jorge Tomé para abrirem a boutique Optimal Investments.

Já perdoou a Ricardo Salgado? “Não pensei nisso a fundo. Mas ódios e coisas do género, zero”

Um dos sonhos de José Maria Ricciardi, que não chegou a ser concretizado, foi reerguer o nome dos Espírito Santo como marca credível e de respeito no mundo financeiro. Ricciardi considerava que Ricardo Salgado tinha sujado o nome da família e que lhe competia a ele limpá-lo.

“Estou a tentar realizar esse projeto, é um sonho que tenho. Não é fácil. Queria começar com um banco pequeno para que, depois da minha morte, pudesse continuar a ser desenvolvido pelos colaboradores e alguns membros da família. Tudo para recuperar a credibilidade que tínhamos e que se iniciou em 1869. Essa credibilidade foi perdida e destruída em 15 anos e provocou enormes perdas e prejuízos ao Estado português, aos contribuintes e também aos trabalhadores do banco. Era este o meu sonho: construir uma instituição que fosse suficientemente forte para começar a compensar as famílias e os contribuintes desta perda”, recordou na sua última entrevista ao Observador, em setembro de 2023.

Nessa mesma entrevista, José Maria Ricciardi revelou que, no auge da sua contestação a Ricardo Salgado, ainda em 2014, recebeu um convite do seu primo para um jantar familiar que contaria apenas com a presença do casal Salgado e do casal Ricciardi. José Maria estranhou logo a “simpatia muito fora de vulgar, que não era compatível com o que já se passara anteriormente”, mas o pior viria depois. “No fim do jantar, ele levou-me para o escritório e tentou… não sei que termo devo utilizar… Para não dizer de outra forma, perguntou-me o que é que eu queria. E ficou muito espantado porque a minha resposta foi que eu queria que me aumentassem mais o capital do BES Investimento porque era o futuro do GES e não era possível o futuro ser o banco comercial [o BES, a banca de retalho] da forma que estava. Ele ficou perplexo”, contou.

Ricciardi não tinha dúvidas de que, tal como se veio a provar num processo que transitou em julgado no passado mês de fevereiro, Ricardo Salgado tinha desviado pelo menos 10 milhões de euros do GES. “Entre 2013 e 2014, apercebi-me de algumas coisas. Mas nunca nada disto, não é? Não me parecia possível que uma pessoa roubasse a sua própria família. Mas depois, com o tempo que foi passando, deixei de ter qualquer espécie de dúvida sobre isso”, afirmou.

E já teria perdoado a Ricardo Salgado? “Não pensei nisso, para ser sincero, muito a fundo. Mas ódios e coisas do género, zero”, disse.