A 15 de março, um jovem com autismo severo e não-verbal fugiu da escola e invadiu uma casa. O morador chamou a PSP por achar que se tratava de uma tentativa de assalto e o jovem acabou por ser algemado. Família critica agora a atuação das autoridades, acusando-as de ter agredido o menor. O caso já ganhou grande visibilidade na imprensa brasileira.
Murilo, com 15 anos, fugiu da escola onde estuda, em Marrazes, no distrito de Leiria. Segundo adianta a PSP ao Observador, o jovem aproveitou uma “falha no portão de acesso” do estabelecimento de ensino. O Observador questionou o agrupamento de escolas sobre esta fuga e o sistema de controlo dos alunos, mas não obteve resposta até ao momento da publicação desta notícia.
Depois de sair da escola, o menor — que não consegue falar ou expressar-se corretamente — tocou “à campainha de uma residência e, após abertura da porta, terá empurrado o proprietário, entrando no interior da habitação”. O morador julgava estar perante “uma situação de assalto”, pelo que “pediu auxílio, tendo um vizinho acorrido ao local”, detalha a PSP. Murilo “acabou por entrar também na residência” desta pessoa após um novo empurrão.
No comunicado enviado pela PSP, as autoridades dizem que as duas pessoas que foram abordadas por Murilo imobilizaram o jovem enquanto esperavam a chegada da PSP chegasse. No entanto, a mãe de Murilo, Dira Thomasi, diz que não foi isto que aconteceu.
“O que aconteceu a seguir é revoltante: os agentes abordaram o meu filho Murilo com violência, como se fosse um criminoso. O meu filho ficou com o rosto machucado. Ele precisava de cuidado, atenção e compreensão — e recebeu agressão“, escreveu Dira Thomasi na rede social Facebook. A acompanhar a publicação, surge uma imagem onde se vê a cara do menor marcada e com nódoas negras na região da testa, do olho esquerdo e das maçãs do rosto.
No entanto, a PSP diz apenas que “o jovem foi entregue [pelos dois moradores] aos polícias, tendo sido algemado e conduzido ao exterior para efeitos de identificação e adoção dos procedimentos legais, em virtude da sua não colaboração”.
“Face à natureza do alerta inicial, compareceram no local vários meios policiais, não tendo sido necessária intervenção relevante adicional”, vinca a PSP. De acordo com Dira Thomasi, no local estiveram seis agentes e foram eles que imobilizaram o menor. Murilo foi “colocado no chão com o rosto pressionado contra o chão, com as roupas rasgadas e imobilizado por mais de seis policias, enquanto gritava desesperadamente, sem entender o que estava acontecendo”, lê-se na publicação da mãe do menor.
Num outro vídeo que também expõe este caso e que foi divulgado pelo irmão de Murilo, Lorran Dorneles, são apresentadas algumas imagens que mostram os agentes a rodear o menor e fazê-lo baixar-se até ao chão, mas o alegado momento em que o jovem é colocado com o rosto no chão não surge nos vídeos. “O meu irmão foi tratado como um criminoso, um bandido”, garante, ainda assim, o irmão de Murilo.
Segundo relata a PSP, ainda no local em que a polícia encontrou Murilo, “um cidadão identificou-se como professor do jovem”. Nesse momento, informou as forças de segurança que Murilo “é portador de perturbação do espetro do autismo e não comunica verbalmente”. A informação levou a que a PSP retirasse “de imediato as algemas ao jovem”, sendo depois levado até à escola.
Os agentes que estiveram no local “desconheciam a idade e a condição clínica do jovem”, garantem as autoridades. E explicam que a atuação da PSP foi “determinada exclusivamente pelo contexto de um alegado crime em curso e pela necessidade de garantir a segurança dos envolvidos. Só posteriormente foi possível enquadrar a situação à luz da informação entretanto recolhida”.
Já na escola, a PSP diz ter-se encontrado com a mãe do menor, Dira Thomasi, a quem diz ter “prestados todos os esclarecimentos, nomeadamente quanto às circunstâncias da intervenção policial e às escoriações ligeiras observadas. Por iniciativa da escola, o jovem foi posteriormente encaminhado para o Centro Hospitalar de Leiria, com acompanhamento dos Bombeiros Voluntários de Leiria”.