Não parece, mas é. Não parece porque um ajuntamento de carrinhos de bebé e jovens borbulhentos a quem só falta a auréola para compor o ar sacerdotal não seria propriamente a equipa olímpica – de um banda política conhecida por albergar os mais rematados facínoras – escolhida para a luta nas ruas. Nem o nome – marcha – lhe dá um ar militar, nem o conjunto forma grande pelotão. Umas aspirantes a Madres Teresas levantam, com os braços atrofiados, uns cartazes levezinhos e bem-dispostos, encontram-se famílias mais preocupadas com biberons do que com inimigos, e até o vídeo que circulou, de uma manifestante a ajudar um “terrorista” a levantar-se, mostra uma inépcia bélica que faria qualquer general levar as mãos à cabeça.
Acontece, no entanto, que a esquerda precisa de fazer destes manifestantes demónios. A reacção natural seria pedir um bocadinho de dignidade na vitória. Já ganharam, já puseram até os conservadores embalados a lamentar a reversão do Roe vs Wade, porque é que não deixam estas pobres almas em paz? Não deixam, porque a esquerda precisa de os atacar. Precisa que a gasolina lhes incendeie de facto os ânimos, para poder dizer (sem que interesse sequer que as reacções sejam pacatíssimas) que são vítimas do ambiente que eles próprios criaram: se o discurso “fascista” não causa uma calamidade à esquerda, que cause à direita, que pode ser culpada na mesma; precisa que estas manifestações sejam vistas como ameaças, que as “conquistas” e os “direitos” por que, a tanto custo, lutou, estejam permanentemente em ameaça, sob pena de ter de se confrontar com a sua própria inutilidade. Que propósito pode ter uma vida política dedicada a liberalizar causas, quando elas já foram liberalizadas? O activista que já teve êxito fecha a porta e acende um charuto, como um comerciante bem-sucedido, que vendeu toda a mercadoria? Dedica-se a uma causa nova, com grande esforço da imaginação, condenada a empenhar-se numa ideia estapafúrdia, visto que as outras já estão resolvidas, e a começar o trabalho árduo novamente do zero, ele que já vergou um governo?
Acreditar que o seu império exige sempre um sobrolho curvado, porque há alguém que cobiça as casas todas que conquistou no monopólio, é muito mais fácil e vantajoso: mantém-se, ao mesmo tempo, o estatuto e a utilidade, evitando o humilhante destino de um trofeuzito atirado para a prateleira, junto do Companheiro Vasco, e de outros esquecidos que, volta e meia, lembram que “Abril ainda não se cumpriu”, para acreditarem que ainda têm um papel a desempenhar.
Desenhar uns bigodes de Hitler nas criancinhas da marcha é então, para a esquerda, uma questão de sobrevivência, sim; mas é-o também de uma maneira mais profunda. Ou seja, se fosse só uma questão de precisar de um adversário, a lógica podia inverter-se, e aplicar-se aos dois lados, como em qualquer competição. O Sporting precisa do Benfica, o Benfica do Sporting, e ambos precisam de um rival ameaçador para engrandecerem as suas vitórias. Se fosse só isto, a bandolete com os corninhos do diabo sairia das cabeças das crianças para a cabeça dos ciganos quando fosse o Chega a precisar de uns adversários e, fora uns piolhos mais viajados, não viria grande mal ao mundo.
O caso da Marcha pela Vida em particular é mais importante porque chocalha de maneiras muito concretas todo o edifício político do nosso tempo. Não há vitória eleitorais, consensos democráticos, unanimidade entre os Estados, que permita transformar isto: a questão da vida – e a questão do aborto é, por circunstâncias talvez fortuitas, a que melhor corporizou o problema – é a questão fundamental do nosso tempo, e aquela que tem um potencial mais transformador na sociedade.
Isto porque os limites da compreensão da democracia que a esquerda legou ao mundo são expostos como em nenhum outro assunto pela questão da vida. Percebe-se. Para quem pensa num feto como uma vida, o aborto é o crime mais escandaloso que se pode encontrar. Não é preciso partilhar a opinião, basta partir do ponto de vista, para perceber que é impossível a uma consciência sã conviver com uma coisa tão violentamente maléfica. Não estou a discutir a verdade desta visão; mas é fácil perceber que se alguém acredita nisto, uma sociedade que permite o aborto é uma sociedade que atenta contra o mais básico dos básicos dos princípios morais. Ou seja, o que está em causa é a hipótese de uma decisão de uma maioria violentar de uma forma tão agressiva a consciência de uma minoria, que pode deixar de ser vista como legítima. A esquerda percebeu isto a respeito das minorias rácicas e sexuais – que há situações em que a consequência concreta num grupo ou num indivíduo põe em causa a própria legitimidade da maioria – mas precisa de uma direita que continue a ser o garante do respeito democrático, sob pena de não poder jogar mais o jogo. Por agora, pode navegar a contradição e defender as minorias dentro do regime das maiorias, como se não soubesse que não pode haver democracia nos termos em que pretende; mas se houver à direita valores mais altos do que a própria democracia – como os da Vida – a esquerda tem de discutir os assuntos onde se sente menos confortável: no campo da verdade daquilo que se diz, e não de quem é afectado por aquilo que se diz.
E mais; a questão da vida é das poucas que não imobilizam a direita naquele cepticismo doente que a amarra há séculos em todas as decisões; desde que o mundo percebeu que é difícil afirmar alguma coisa com um grau de certeza muito absoluto, qualquer pessoa com um mínimo de decência tem dificuldade em exigir, da política, também uma acção definitiva. O raciocínio é sempre “eu acho isto, mas não consigo afirmá-lo com toda a certeza (como nada se consegue), pelo que tenho de deixar a porta aberta para não condenar inocentes com as minhas opiniões que podem não estar certas”. E, assim, temos um mundo à direita cheio de gente com convicções que não consegue defender para o espaço público, porque não se consegue libertar do grau de incerteza que há em todo o discurso. Na questão da vida, porém, o caso é tão extremo que qualquer pessoa é capaz de sobrepor o problema moral ao problema linguístico. Se acreditarmos que há de facto uma vida, a evidência do horror moral é mais forte do que o problema linguístico, libertando quem a contempla de uma prisão discursiva com duzentos anos.
O problema com as questões da vida é que destrói a ilusão de que há um chão comum humanitário a partir do qual é possível dialogar. Nem sempre é verdade, e esta é uma divisão que expõe a conquista primordial da esquerda, a partir da qual fez todo o seu caminho ao longo dos últimos séculos.
É por isso que pouco importa que os partidos de esquerda mostrem que aprenderam boas maneiras e repudiem, com grande isenção, os ataques à marcha. Aqueles estranhíssimos rapazes, com um ar mais amalucado do que ideológico, perceberam uma coisa fundamental: este é o ponto decisivo, ao qual a direita, mesmo que moribunda, poderá sempre ir buscar forças e legitimidade moral. E por isso, por mais pequenas que pareçam as caminhadas, por mais pacífico que pareçam os marchantes, serão sempre o inimigo maior da esquerda.