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(A) :: EUA envia plano de paz de 15 pontos a Teerão. Documento exige que Irão desista das armas nucleares, mas promete fim das sanções

EUA envia plano de paz de 15 pontos a Teerão. Documento exige que Irão desista das armas nucleares, mas promete fim das sanções

A revelação deste plano surge após Trump ter reafirmado que há negociações em curso com a liderança iraniana. Teerão tem refutado estas notícias, mas oficiais do regime confirmaram haver conversas.

António Moura dos Santos
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A guerra entre Irão e Estados Unidos ficou marcada, esta terça-feira, por várias novidades a nível diplomático, a maior das quais o envio de um plano de paz ao estilo daquele que Washington concertou para a Faixa de Gaza. A revelação surgiu depois de Donald Trump ter afirmado publicamente que vários membros da sua administração estão envolvidos em negociações de paz com Teerão.

A formulação de um plano de paz por parte dos EUA foi, de um lado, noticiada pelo The New York Times, que citou duas fontes envolvidas no processo, confirmando que se trata de um documento com 15 pontos que procura pôr fim ao conflito antes que este assuma consequências políticas e económicas maiores.

De acordo com o NYT, o plano foi entregue a Teerão através do Paquistão — que esteve em destaque pelo papel que procurou assumir de mediador entre as partes em conflito —, mas não se sabe quem é que na cúpula do poder iraniano recebeu o documento nem que reação colheu.

O canal israelita Channel 12, todavia, foi mais longe, avançando numa reportagem televisiva — entretanto citada pelo Times of Israel — que o plano foi desenhado pelo enviado especial de Donald Trump para o Médio Oriente, Steve Witkoff, e pelo genro do Presidente, Jared Kushner, num estilo muito semelhante ao anterior negociado para interromper o conflito na Faixa de Gaza.

A mesma emissora revelou ter obtido a formulação de 14 dos 15 pontos do plano — partilhados por uma fonte ocidental não identificada —, tratando-se de 11 exigências e três cedências a Teerão.

Exigências:

  • O Irão deve desmantelar as suas capacidades nucleares atuais;
  • O Irão deve comprometer-se a nunca prosseguir com o desenvolvimento de armas nucleares;
  • Não haverá enriquecimento de urânio em território iraniano.
  • O Irão deve entregar o seu stock de cerca de 450 quilos de urânio enriquecido a 60 por cento à Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) num futuro próximo, segundo uma data a acordar.
  • As instalações nucleares de Natanz, Isfahan e Fordo devem ser desmanteladas.
  • A AIEA, o organismo de vigilância nuclear das Nações Unidas, deve receber acesso total, transparência e supervisão dentro do Irão.
  • O Irão deve abandonar o seu “paradigma” de ter aliados regionais por procuração [como o Hezbollah, o Hamas ou os Houthi];
  • O Irão deve cessar o financiamento, a direção e o armamento destes representantes regionais;
  • O estreito de Ormuz deve permanecer aberto e funcionar como um corredor marítimo livre;
  • O programa de mísseis do Irão deve ser limitado tanto em alcance como em quantidade, com limiares específicos a determinar numa fase posterior;
  • Qualquer uso futuro de mísseis ficará restrito à autodefesa.

Cedências:

  • O Irão receberá o levantamento total das sanções impostas pela comunidade internacional;
  • Os Estados Unidos ajudarão o Irão a desenvolver o seu programa nuclear civil, incluindo a produção de eletricidade na central nuclear de Bushehr;
  • O chamado mecanismo de “reversão automática” (snapback), que permite a reimposição imediata de sanções caso o Irão não cumpra o acordo, será eliminado.

Trump reafirma que negociações estão em curso, Israel coloca-se de fora, Irão diz “nim”

A semana começou com Donald Trump e vários elementos da sua administração a afirmar que tinham iniciado contactos para negociar um potencial plano de paz, com o Presidente dos EUA a dizer mesmo que estavam em curso “boas negociações”. Já Teerão rejeitou tais avanços pela voz de Mohammad Baqer Qalibaf, o presidente do Parlamento iraniano, uma das poucas figuras de poder iranianas que mantém alguma autoridade política desde que o regime foi fragmentado pela morte de vários altos dirigentes políticos e militares.

Esta segunda-feira terminou, aliás, com notícias de que estavam a ser planeadas negociações diretas em Islamabad, a capital do Paquistão. Esta terça-feira arrancou seguindo a mesma bitola, com o país a assumir estar a liderar uma iniciativa de mediação entre Irão, Estados Unidos e Israel e o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, a afirmar a sua disponibilidade para apoiar “os esforços em curso” para dialogar e “pôr fim à guerra no Médio Oriente”.

Já durante a tarde, mais alguns detalhes foram sendo revelados por algumas fontes paquistanesas, que disseram ao The Guardian que o vice-presidente norte-americano, JD Vance, estava a ser apontado como provável chefe das negociações do lado norte-americano e que o Irão rejeitava quaisquer reuniões se a comitiva de Washington fosse representada por Witkoff e/ou Kushner.

Já do lado iraniano, o nome cogitado foi mesmo o de Ghalibaf, não obstante a sua recusa manifestada esta segunda-feira. No entanto, a aparente inflexibilidade de Teerão para negociar foi quebrada por uma notícia da CNN internacional, que apurou junto de uma fonte não identificada do regime iraniano que “houve uma aproximação entre os Estados Unidos e o Irão, iniciada por Washington, nos últimos dias, mas nada que tenha atingido o nível de negociações formais”.

Se antes não havia qualquer vontade de sentar-se à mesa para conversar, agora o Irão fez saber estar disposto a receber propostas “sustentáveis” para pôr fim ao conflito, ainda a fonte tenha frisado que Teerão “não está a pedir um encontro nem conversações diretas com os Estados Unidos”. Não obstante, o regime disse-se disposto “a ouvir se surgir um plano para um acordo sustentável que preserve os interesses nacionais da República Islâmica do Irão”.

Talvez mais importante é que esta fonte disse desde logo que o Irão “está pronto para fornecer todas as garantias necessárias de que nunca desenvolverá armas nucleares”, exigindo ainda assim ter o “direito ao uso pacífico da tecnologia nuclear”.

Fora esta voz isolada, não houve mais confirmações nem rejeições por parte do Irão — talvez porque, como Donald Trump faria questão de sublinhar na tarde desta terça, numa conferência de imprensa na Casa Branca: “Os líderes desapareceram todos. Ninguém sabe com quem falar. Mas, na verdade, estamos a falar com as pessoas certas e elas querem tanto chegar a um acordo que nem imaginam o quanto”.

Esta frase críptica foi acompanhada por outra igualmente enigmática, de que tinha recebido um presente “muito significativo” como demonstração de boa-fé por parte do Irão — sem dizer quem lho deu ou do que se trata, dizendo que os EUA estão a “lidar com as pessoas certas” pois são “as únicas que poderiam dá-lo”. Do pouco mais que revelou, esse “prémio”, como também classificou, apenas estará relacionado com “petróleo e gás natural” e com a potencial reabertura do estreito de Ormuz, um dos temas mais sensíveis e críticos não só para os EUA mas também para toda a economia mundial.

Se com estas declarações, Trump criou mais confusão que certezas, com outras quis ser absolutamente claro: os EUA estão “neste momento em negociações” com o Irão. “Temos várias pessoas a trabalhar nisso”, afirmou, adiantando que o Secretário de Estado Marco Rubio e o Vice-Presidente JD Vance estão envolvidos nas negociações, a par de Witkoff e Kushner — que o Irão, como já foi noticiado, disse não querer que tomem parte nestas reuniões.

“Posso garantir-vos que eles gostariam de chegar a um acordo”, continuou Trump. “Por que não quereriam? A marinha deles desapareceu, a força aérea deles desapareceu, as comunicações deles estão destruídas — esse é o maior problema”, atirou.

Já quando foi confrontado com uma pergunta quanto ao motivo de ter mudado de posição quanto à vontade de negociar um cessar-fogo, Trump disse que tal deveu-se aos iranianos terem começado a “falar com sensatez”, prometendo que “nunca terão uma arma nuclear”.

“Se bem se lembram, tudo começou com o facto de eles não poderem possuir armas nucleares. Eu não quero adiantar nada, mas eles concordaram que nunca terão armas nucleares”, afirmou.

Depois desta comunicação, começou a ser noticiado pelas agências internacionais que está em cima da mesa a hipótese da primeira reunião ocorrer já esta quinta-feira em Islamabade. No entanto, além do Irão ter-se mantido esquivo ao longo do dia, há outra incógnita presente: Israel.

Desde o início do conflito, Telavive tem defendido a continuidade dos combates e sido, do lado “ocidental”, o parceiro menos interessado em sentar-se para negociar, considerando estar a lutar para pôr fim às suas ameaças existenciais, como o Hezbollah e o próprio regime iraniano. Aliás, na reportagem do Channel 12, é referido que “o cenário de um acordo rápido e ambíguo está a tirar o sono aos líderes políticos e de segurança de Israel”, por poder favorecer o Irão e encerrar o conflito antes de estarem definidos termos claros e precisos.

Esta terça-feira, ainda que pressionado pelos EUA, o estado israelita manteve a mesma postura. Da parte das Forças de Defesa de Israel, o seu porta-voz, Effie Defrin, afirmou que os planos de Telavive no Irão e no Líbano permanecem inalterados, independentemente das negociações que possam estar em curso.

“No que diz respeito a este ou aquele acordo, estamos atualmente a operar de acordo com um plano inalterado”, afirmou.“Estamos a agir, e continuaremos a agir para agravar os danos e eliminar ameaças existenciais”, acrescentou.

Mais longe foi o embaixador israelita na ONU, Danny Danon, que garantiu esta tarde que Israel não vai participar em nenhuma das negociações. “Neste momento, Israel e os EUA continuam a atacar alvos militares no Irão e continuarão a fazê-lo“, disse aos jornalistas.