(c) 2023 am|dev

(A) :: “Marcel e Monsieur Pagnol”: uma animação mais didática do que fantasista

“Marcel e Monsieur Pagnol”: uma animação mais didática do que fantasista

A nova longa-metragem animada de Sylvain Chomet, "Marcel e Monsieur Pagnol", é uma biografia do escritor, dramaturgo e cineasta Marcel Pagnol. Eurico de Barros dá-lhe três estrelas.

Eurico de Barros
text

O dramaturgo, escritor e realizador Marcel Pagnol (1895-1974), uma das glórias das artes e das letras francesas, é essencialmente conhecido em Portugal pelos filmes que assinou, quase todos extraídos de peças de teatro suas (Topaze, César, Schpountz, o Anjinho, ou A Filha do Padeiro), ambientadas no Sul de França onde nasceu, nomeadamente em Marselha; e pelos filmes que outros fizeram baseados nelas, caso do díptico Jean de Florette e Manon das Nascentes, de Claude Berri (1986), e de Marius e Fanny, de Daniel Auteuil (2013), ou nos seus livros autobiográficos, como A Glória de Meu Pai e O Castelo de Minha Mãe, de Yves Robert (1990), e O Meu Verão em Provença, de Christophe Barratier (2021).

A nova longa-metragem animada de Sylvain Chomet, Marcel e Monsieur Pagnol, foi encomendada ao autor de Belleville Rendez-Vous (2003) e O Mágico (2010) por Nicolas Pagnol, neto de Marcel Pagnol, para assinalar os 130 anos do seu nascimento, que se comemoraram o ano passado, e usa material do livro póstumo Confidences (1990). Se a fita serve para dar a conhecer melhor a vida e a obra de Pagnol àqueles que não sabem nada sobre ele, ou que apenas viram os filmes acima citados, irá ser, no entanto, uma relativa deceção para os apreciadores do cinema de Chomet.

[Veja o “trailer” de “Marcel e Monsieur Pagnol”:]

https://www.youtube.com/watch?v=mq0j6440m_0

Marcel e Monsieur Pagnol começa em 1955, quando Marcel Pagnol tem 55 anos, vive em Paris e é já um aclamado escritor e cineasta. Durante uma festa em sua casa, dois dos convidados, o célebre casal de jornalistas Pierre e Hélène Lazareff, fundadores do diário France-Soir e da revista Elle, convidam-no para fazer uma crónica mensal sobre as suas recordações de infância para esta publicação. Pagnol, que está muito desanimado pelo falhanço comercial e crítico das suas duas últimas peças de teatro e quer desistir de escrever, aceita, embora a memória já lhe comece a falhar e não saiba como começar. Aparece-lhe então Marcel, o menino que ele foi, e que o vai ajudar a recordar-se de tudo.

[Veja uma entrevista com Sylvain Chomet:]

https://www.youtube.com/watch?v=TqQpEEmxDa0

Tal como os filmes biográficos de imagem real, Marcel e Monsieur Pagnol recorre à seleção e supressão de factos da existência do biografado, à compressão temporal e à simplificação. Mesmo assim, Sylvain Chomet, que se serve aqui e ali de imagens de arquivo e excertos dos filmes do autor, conseguiu incluir muito do que foi mais importante na vida artística e pessoal de Marcel Pagnol (as melhores sequências passam-se nos anos 30 e 40, no teatro, em Paris, e nos estúdios que Pagnol construiu em Marselha para rodar os seus filmes como queria – recorde-se que foi ele que fez, em 1948, “o primeiro filme francês a cores realizado em França por franceses com um processo técnico francês, o Rouxcolor”, o atroz La Belle Meunière, que seria também o seu único a cores).

[Veja uma sequência do filme:]

https://www.youtube.com/watch?v=n-bScWEW1QA

Do ponto de vista visual e estilístico, e na fluência narrativa, Marcel e Monsieur Pagnol está à altura do que esperamos de Sylvain Chomet. Mas o filme carrega, inevitavelmente, uma mochila didática e explicativa, e o humor excêntrico, o charme fantasista e a poesia gentil que caracterizam Belleville Rendez-vous e o Mágico, e a comédia de imagem real Attila Marcel (2013), são aqui mais difusos e sacrificados às necessidades biográficas e ilustrativas do projeto. Marcel e Monsieur Pagnol é um Chomet menor. Embora um Chomet menor seja bem melhor do que 90 por cento das longas-metragens animadas que se estreiam por aí. Não tem Muito Bom, mas vale um Bom Menos.