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"O medo é um dos maiores inimigos das pessoas com dor"

Não há dois doentes iguais. E a dor de um é totalmente diferente da dor de outro. Alexandre Lopes, fisioterapeuta há mais de trinta anos, defende que tratar é equilibrar ciência e individualidade.

Sofia Teixeira
text
Igor Martins
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Este artigo faz parte da série “O que eu aprendi com a dor dos outros”, um conjunto de reportagens escritas por um jornalista a partir de entrevistas com profissionais de saúde que acompanham doentes com dor crónica.

Sou fisioterapeuta há 32 anos — tempo suficiente para saber que o corpo humano é vulnerável, mas também profundamente resiliente.

Divido-me entre vários mundos. Trabalho na Unidade Local de Saúde de Santo António, no Porto, em vários serviços de internamento, como os cuidados intensivos e as enfermarias de medicina ou de cirurgia. Tenho, também, experiência em clínica privada, incluindo com intervenção em casos de elevada complexidade de uma seguradora. Há duas áreas que me interessam particularmente: a dor, essa experiência tão íntima e subjetiva, e as lesões da medula, capazes de mudar uma vida em poucos segundos.

No hospital, a maioria das situações que atendo são agudas. Pessoas que tiveram um AVC ou vítimas de acidentes de viação e que ficaram com múltiplos traumatismos. Nos casos mais severos, o internamento pode durar dois ou três meses. Muitas vezes a fisioterapia começa ali mesmo, no leito, quando a pessoa ainda não se pode levantar. É um trabalho quase invisível: pequenos movimentos, estímulos mínimos, conquistas microscópicas que, somadas, fazem a diferença. Temos também um ginásio de reabilitação, onde cada passo dado é uma vitória.

Também sou professor na Escola Superior de Saúde, do Instituto Politécnico do Porto (IPP), onde dou aulas de Fisioterapia e Fisiologia Clínica, e faço investigação no Centro de Investigação em Reabilitação do IPP. Juntamente com um colega criei uma meia desportiva — a Prevent Sprain Technology – PST — que ajuda a prevenir entorses, atualmente patenteada na Europa e nos Estados Unidos.

Além da licenciatura em Fisioterapia, fiz um mestrado em Desenvolvimento Motor, sou especialista em Reabilitação pelo IPP e, neste momento, estou a fazer um doutoramento em Ciências Biomédicas no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto. O meu objetivo é desenvolver um instrumento que permita ouvir, de forma estruturada, a experiência das pessoas com lesão medular durante o processo de fisioterapia.

Gosto de viver com um pé na prática clínica, outro na prática académica. Interessa-me aproximar estes dois mundos e comunicar com a comunidade. Gosto de ir às escolas falar com crianças e de escrever livros infantis. Um deles, As Vitórias do Francisco, conta a história de um menino que usa cadeira de rodas. Não é a história de uma criança real, mas antes a reunião de muitas histórias de antigos pacientes numa só. Alerta para uma série de desafios sentidos pelas pessoas com lesões na medula, nomeadamente, as barreiras arquitetónicas.

Quem se desloca de cadeira de rodas, além de todos os desafios pessoais que já enfrenta tem ainda de lidar com esta grande dor: a de sentir que o mundo não está preparado para o receber. Ir a uma consulta, à escola ou a um espetáculo pode tornar-se uma operação logística complexa por falta de rampas, passeios rebaixados e elevadores. O mundo continua a não reconhecer que aquilo que para uns é só um degrau, para outros é uma muralha intransponível.

“O medo é um dos maiores inimigos das pessoas com dor”

Na adolescência, era atleta. Cheguei a ser federado em natação e, depois, em voleibol. Ainda pensei em ser professor de Educação Física, mas depois achei que já era desporto a mais. Na altura em que fiz os testes psicotécnicos, a psicóloga da escola perguntou-me se já tinha pensado em ser fisioterapeuta. Eu nem sabia o que isso era: há trinta e muitos anos não se ouvia falar em fisioterapia, como hoje.

Depois da licenciatura, nos primeiros anos como jovem fisioterapeuta, trabalhei na área neuro-musculo-esquelética e em desporto de alto rendimento, cheguei a ser fisioterapeuta da Seleção Nacional de Voleibol. No hospital fui colocado na área da neurologia, pelo que fui fazendo formação em Neuroreabilitação.

"Sentir dor é muito difícil, por isso há quem pense que o ideal seria viver sem dor alguma. Não é assim: ausência total de dor também pode ser um problema muito sério, significa não ter um sistema de alarme que nos ajuda na sobrevivência."

Em fisioterapia, a dor costuma ser dividida em três grandes tipos: a dor nociceptiva, cuja origem está nos tecidos; a dor neuropática, que surge no próprio nervo; e a dor nociplástica, que ocorre quando há uma alteração do processamento da dor pelo sistema nervoso central, como a fibromialgia.

A dor tem muitos caminhos e a fisioterapia usa muitas ferramentas para a tratar, como a estimulação elétrica transcutânea (TENS), a terapia manual, a terapia de espelho  e o exercício terapêutico. Mas o diálogo e a conversa também são ferramentas de trabalho.

As palavras importam e devemos ter muita atenção àquelas que escolhemos. Usar expressões como “o seu joelho está desfeito” ou “a sua coluna é muito frágil” tem um impacto enorme na pessoa e pode induzir mais dor. E o que nós queremos é o oposto. Então, temos de usar as nossas palavras para ajudar a pessoa a sentir-se mais capaz e aumentar a sua confiança.

O medo é um dos maiores inimigos das pessoas com dor. Nós, fisioterapeutas, chamamos cinesiofobia a este receio que a pessoa desenvolve de se mexer. Quem tem dores de costas fica com medo de se baixar, alguém com dor no joelho evita caminhar. Isto é natural, mas tem de ser contrariado porque a imobilidade agrava a dor e diminui a funcionalidade. É fundamental ajudar a pessoa a recuperar o controlo sobre as atividades dolorosas, a manter ou retomar a atividade laboral e social, a ter atividade física de forma segura: o exercício causa a libertação de endorfinas que vão reduzir a dor.

Sentir dor é muito difícil, por isso há quem pense que o ideal seria viver sem dor alguma. Não é assim: ausência total de dor também pode ser um problema muito sério, significa não ter um sistema de alarme que nos ajuda na sobrevivência.

Nas lesões medulares mais graves, em que não há qualquer transmissão de sinais nervosos — cerca de 20% dos casos —, além da perda de movimento e de sensibilidade ao toque, deixa de existir a capacidade de sentir dor. E a vida pode tornar-se perigosa nestas situações: uma apendicite pode evoluir sem ser notada, uma infeção pode passar despercebida, uma queimadura grave pode acontecer com muita facilidade.

“Devemos deixar-nos tocar pelas pessoas”

Não acho que se ganhe uma pele mais dura ou que se vista uma armadura com a experiência profissional. Mas aprendemos a lidar melhor com as situações difíceis. Lembro-me que, no início, era mais sensível. Tudo me chocava mais.

Hoje, com mais de trinta anos de experiência, sinto-me muito mais tranquilo a falar e a trabalhar com os pacientes. Uma das coisas que aprendi é que não podemos ter medo da dor dos outros. Se nós nos assustamos, o que fará quem vive com dor? Como poderá suportá-la sozinho? Mas não ter medo da dor dos outros não significa indiferença. Pelo contrário: acredito que devemos deixarmo-nos tocar pelas pessoas e pelo seu sofrimento. Podemos ter muitos conhecimentos teóricos e saber muitas técnicas, mas, se vestimos uma carapaça, as coisas não vão correr bem.

Apesar de nos deixarmos tocar por todas as pessoas, há situações que mexem mais connosco. Lembro-me muitas vezes de um caso que me comoveu, de uma jovem de 20 anos, politraumatizada após ter sido atropelada e projetada. Quando chegou às minhas mãos, estava num estado gravíssimo, um dos mais graves que já vi. Mas o que mais me perturbou foi o silêncio. Não havia gritos nem queixumes. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, mas sem ruído. Sentia uma dor tão severa, tão avassaladora, tão pessoal, tão profunda, que ultrapassava qualquer possibilidade de expressão. Impressionou-me e tocou-me muito. Doeu-me também.

"Quem se desloca de cadeira de rodas, além de todos os desafios pessoais que já enfrenta tem ainda de lidar com esta grande dor: a de sentir que o mundo não está preparado para o receber. Ir a uma consulta, à escola ou a um espetáculo pode tornar-se uma operação logística complexa por falta de rampas, passeios rebaixados e elevadores."

Consegui ajudá-la a melhorar e isso também foi marcante. É muito significativo quando conseguimos ajudar alguém que está com muita dor a sentir-se melhor. Mas também é significativo e marcante quando sentimos que não estamos a conseguir, quando sentimos que a nossa resposta não está a ser suficiente. Devemos usar esse incómodo para nos questionarmos: por que não conseguimos? A avaliação foi bem-feita? A intervenção foi a adequada? O que é preciso mudar?

Este questionamento não pode ser apenas uma reflexão individual, tem de ser feito em equipa. A intervenção em dor implica várias valências: médico, fisioterapeuta, enfermeiro e, eventualmente, psicólogo. E a equipa tem de estar alinhada na estratégia. Então, claro que me incomoda se a pessoa não melhora, mas tenho, em primeiro lugar, de perceber se o que é necessário mudar é da minha competência ou se é da competência dos outros.

Os profissionais de saúde, muitas vezes, trabalham de forma isolada, muito sozinhos. Não há aí uma culpa individual, é o sistema que os leva a trabalhar assim. Em parte, por falta de tempo, cada um passa o dia a fazer as suas coisas e as pessoas acabam por construir muros muito altos em torno de si próprios e daquilo que fazem. O ideal seria que toda a gente baixasse um bocadinho esses muros, não para interferir nas competências dos outros, mas para cada um conseguir perceber o que o outro está a fazer, como se podem ajudar mutuamente e, assim, ajudar melhor o doente.

“Há sempre mais para saber”

É curioso: quando fazemos o nosso currículo, pomos lá os nossos pergaminhos todos: a formação, a experiência profissional, os artigos publicados, os prémios científicos, mas há toda uma biografia invisível — quem nós somos, como pessoas — que nunca está lá. No entanto, isso é muito definidor do profissional que somos.

Penso, por exemplo, que uma das principais características de um bom fisioterapeuta é alguma humildade. Ter noção de tudo o que ainda não sabe e sentir disponibilidade para aprender mais. Quem se foca só nas competências que tem e julga que já sabe tudo, fica sem margem para aprender coisas novas. E elas surgem quase todos os dias. Então, eu até posso ter noção de que já sei umas coisas, mas não me posso deitar “à sombra da bananeira”. Não posso perder a noção de que há sempre mais para saber. É fundamental continuar a estudar e a fazer formação.

Considerando esse currículo-sombra, diria que, normalmente, sou corajoso e empático. Também me considero muito estudioso e sou conhecido por ser muito organizado e fazer muitas coisas diferentes ao mesmo tempo. Além disso, sou uma pessoa de proximidade: dou valor a estar presente, a ouvir as pessoas.

Acho que a vida tem muito para oferecer e devemos tentar alimentar os sentidos o melhor que conseguimos, com boa companhia, boa comida, boa arte, boas experiências. Tenho muitos interesses. Gosto de música, de pintura, de escrever. As artes valorizam-nos como pessoas. Toco guitarra baixo, pinto a aguarela e já escrevi alguns livros. Também pratico desporto, sobretudo kickboxing — sou cinturão preto — e gosto de fazer surf, apesar de não ter tanto jeito. Gosto de estar com a minha família. Tudo isso também me ajuda a conseguir ter algum equilíbrio, a ganhar energia e a ser melhor profissional. Exerço há 32 anos e, entre as aulas, a investigação e o hospital, trabalho aproximadamente dez horas por dia. Mas não me sinto cansado. Talvez porque gosto muito de tudo o que faço, mas também porque tenho vida para além do trabalho.

“A dor raramente é apenas uma dor”

A dor é uma experiência profundamente pessoal. Sabemos quanto nos dói a nós; mas é quase impossível medir, com exatidão, quanto e como dói ao outro. Saber que é um 7 numa escala de 1 a 10 explica muito pouco sobre o que aquela pessoa está realmente a viver. Um sete pode ser suportável para uns e devastador para outros. Ao longo dos anos, aprendi que, antes de qualquer escala ou protocolo, o essencial é ouvir.

Quando estou pela primeira vez com um paciente, começo por conversar um pouco. De preferência, sobre temas que não sejam a doença, o acidente ou a dor. Procuro perceber primeiro quem é aquela pessoa — o que faz, do que gosta, o que a preocupa — e só depois passo à razão pela qual está ali: quais são as suas queixas, os seus objetivos, as suas expectativas.

"As palavras importam e devemos ter muita atenção àquelas que escolhemos. Usar expressões como 'o seu joelho está desfeito' ou 'a sua coluna é muito frágil' tem um impacto enorme na pessoa e pode induzir mais dor. E o que nós queremos é o oposto. Então, temos de usar as nossas palavras para ajudar a pessoa a sentir-se mais capaz e aumentar a sua confiança."

Para ouvir é preciso tempo. Alguém muito idoso ou que ficou com uma incapacidade pode ter dificuldade em expressar-se. Às vezes dizemos: “Bom dia, Dona Maria”, e depois temos de esperar vinte segundos até ouvir “Bom dia, terapeuta Alexandre”. Um silêncio tão longo parece uma eternidade, mas é o tempo que a pessoa precisa para comunicar.

O diagnóstico em fisioterapia tem muito presente o conceito de movimento e função: o que é que a pessoa deixou de conseguir fazer? A dor raramente é apenas uma dor, quase sempre traz consigo outros problemas associados, como perda de força, de mobilidade, incapacidade nas tarefas diárias e restrições na participação na vida pessoal, social e profissional.

Tenho dado também cada vez mais importância à participação da família. As pessoas não vivem isoladas. É muitas vezes a família que apoia quem tem dor, que ajuda nos exercícios, que adapta a casa, que lida com as frustrações. Por isso, procuro explicar-lhes o que estou a fazer e abrir espaço para perguntas.

Quando estou perante um caso novo, para me organizar quanto à intervenção, faço sempre uma espécie de triângulo na minha cabeça. Num vértice está a condição clínica; noutro, a evidência científica disponível; e, no outro, a pessoa. Este terceiro vértice é que individualiza o plano de tratamento e o torna adequado para cada um.

Se o grande desafio do paciente é subir os três degraus à porta de casa e eu não os incluir no plano de intervenção, não estou a fazer um trabalho ajustado. O mesmo acontece se proponho exercícios que a pessoa não gosta de fazer — e que, por isso, não fará.

Compreender as necessidades e preferências de cada um não é só uma questão de respeito e simpatia, é uma estratégia clínica: usamos uma abordagem centrada na pessoa porque sabemos que é a que funciona melhor.