Atenção: manusear com todo o cuidado. Na categoria do têxtil é um dos objetos de maior valor histórico da Coleção Real – e um dos que exige maior cuidado na conservação. Falamos do delicado fato de batizado, encomendado em 1841 pela então princesa Victoria para a sua primeira criança. Depois desse momento fundador, 62 outros bebés reais vestiram a mesma peça – incluindo a então princesa Isabel, em maio de 1926, apenas cinco semanas depois de ter nascido.
O elemento destaca-se entre aproximadamente 200 itens do arquivo de moda da antiga Rainha Isabel II, que será exibido a partir de 10 de abril, e até ao próximo mês de outubro, na maior exposição de suas roupas já promovido, traçando o seu estilo ao longo de dez décadas. A sua exibição na Galeria do Rei adquire especial relevo: fica no mesmo local da capela privada no Palácio de Buckingham onde a futura rainha foi batizada, antes de ser destruída no Blitz, em 13 de setembro de 1940, um dos nove ataques alemães sofridos pelo Palácio de Buckingham durante a Segunda Guerra Mundial.
Originalmente, o rei George VI pretendia que a capela fosse reconstruída, mas as restrições de construção no pós-guerra ditaram o arquivamento do plano. Um novo esquema, concebido pelo duque de Edimburgo, para converter a capela numa galeria de arte aberta ao público – deixando ao mesmo tempo uma pequena parte da capela privada original em uso – evoluiu sob a direção de Lord Plunket no final dos anos 1950 e a Galeria da Rainha original foi aberta ao público em 25 de julho de 1962.

Confecionado há quase dois séculos, o traje de batismo revela o trabalho apurado de Janet Sutherland, filha de um mineiro escocês e modista de eleição da rainha Victoria, que para este trabalho convocou a seda de Spitalfields e a renda de Honiton oriunda de Devon, seguindo os desígnios de sua majestade, investida em promover e mostrar ao mundo o melhor do saber fazer britânico. Esta foi uma marca que imprimiu a todo o seu reinado, desde logo no fundador vestido de noiva, branco, uma inovação à época que haveria de prevalecer mundo fora em matéria de gosto, até hoje.
“O fato tem sido carinhosamente cuidado ao longo das gerações – encontramos até mesmo uma nota na sua caixa com instruções para que seja lavado em água natural da fonte após o uso, o que ajuda a explicar a sua condição notável, apesar de tal uso frequente. No entanto, após 185 anos e 62 batizados, precisava de conservação. Foi uma honra e um privilégio trabalhar numa roupa tão histórica. ’, disse a conservadora têxtil Cecilia Oliver, citada pela Royal Collection.
Coube a Oliver supervisionar 100 horas de cuidadoso tratamento de conservação, com trabalhos que incluíram reparos meticulosos de buracos e reforços subtis de partes delicadas do tecido. O vestido também foi gentilmente lavado por secção e afirma-se hoje como um dos projetos de conservação mais significativos da exposição Queen Elizabeth II: Her Life in Style.
Os visitantes também verão uma nota manuscrita pela antiga monarca, um elenco de nomes de bebés ilustres que tiveram a honra de usar o fato em causa – uma tradição iniciada pela sua avó, a rainha Mary, depois de a peça ter vindo para os seus cuidados das mãos da rainha Victoria. A nota revela a importância do manto para a família real como herança e símbolo de continuidade, e será acompanhada na exposição pelo gorro, xaile de seda, faixa, arcos e fitas bordados com emblemas nacionais que também eram tradicionalmente usados em cerimónias de batismo. Todas as referências davam forma ao conceito moderno de batizado, demarcando-se dos antigos painéis que até ao consulado de Victoria haviam servido para embrulhar os bebés em semelhantes ritos e cerimónias formais. Usados desde os tempos medievais até ao século XVIII, eram frequentemente tecidos ornamentados destinados a mostrar riqueza e o elaborado trabalho dos artesãos. Podiam adquirir tons fortes como o vermelho escuro e a imagem de romãs, símbolo de fecundidade popular no design inglês desde que a primeira mulher de Henrique VIII, Catarina de Aragão, os introduziu como seu distintivo pessoal.
O acervo do museu Victoria and Albert inclui alguns registos de acessórios de 1650-1700 associados ao momento do batismo, como um conjunto de rendas destinadas a um bebé. “O enrolamento de bebés — envolvendo-os firmemente em tiras de pano — era outrora o costume predominante em muitas partes do mundo, inclusive neste país. O costume data dos tempos antigos, e é de origem protetora”, destaca a instituição. O método permitia aquecer a criança e mantê-la segura, já que imobilizada. Posteriormente, o traje usado para batizados começou a assemelhar-se mais a versões em miniatura de roupas de adultos, mas só a partir de 1841 foi consagrado como vestido único, padronizado e nascido para passar de geração em geração.
Como se acrescenta dois séculos a uma peça? Com saquetas de chá
Pelo menos cinco reis, quatro rainhas, e uma imperatriz foram batizados com o vestido original. A primeira filha da “Avó da Europa” foi Victoria, princesa real nascida em 21 de novembro de 1840, no Palácio de Buckingham. Conhecida como “Vicky”, mais tarde tornou-se imperatriz e rainha da Prússia depois de casar com Frederico III da Alemanha. Foi batizada em 10 de fevereiro de 1941, quando os pais assinalavam o primeiro aniversário de casamento (de resto, este fato de batismo em muito replicou a fórmula do traje nupcial materno). À época, a rainha no trono introduziu ainda uma nova pia batismal para a ocasião. A água veio do rio Jordão e, à semelhança do que faria com os seguintes oito herdeiros, mais quatro raparigas e quatro rapazes, com 17 anos a separar a mais velha da mais jovem, Victoria anotou no seu diário as memórias de cada batizado. No primeiro, notou que a bebé foi segurada pelo arcebispo “de forma desconfortável” mas “esteve sempre acordada e sem chorar”. Com o nascimento do primeiro rapaz, Albert Edward, o batizado a 25 de janeiro de 1842 foi um momento altamente político. Victoria destacou “as bandas a tocar e as tropas a marchar em todas as direções”, como se fosse o seu dia de casamento. Já Louise, em 1848, estava “branca e inchada”. Com Beatrice, em 1857, a rainha riu-se com o facto da sua mãe, a duquesa de Kent, se ter enganado no nome da neta, chamando-a de “Beatrice Maria” em vez de “Beatrice Mary”.

À margem das farpelas, as gravuras desta período imortalizaram uma invenção quase, ou mais popular, que o vestido: uma enorme tigela de poncha em prata projetada por Thomas Stothard, que servia para arrefecer o vinho servido aos convidados na Galeria Waterloo, um dos pontos altos do batizado do príncipe Alfred, em 1844.
Depois dos filhos, os netos, e até bisnetos da rainha Victoria, como lorde Louis Mountbatten, juntaram-se à tradição real. Também eles foram envergando o fato de batizado nas primeiras semanas de vida, incluindo a princesa Margaret de Connaught, futura princesa da coroa sueca, mulher do rei Gustaf VI Adolf.
Em 1875, por ocasião da cerimónia da princesa Marie de Edimburgo, que se tornaria a última rainha consorte da Roménia (1914–1927) ao casar-se com o Rei Fernando I, Victoria deixava claro que duvidava já da resistência da peça. O fato levava apenas 34 anos de vida. “A bebé vestiu o velho fato de batismo, que se está a desfazer todo!“. Mal sabia a monarca o que ainda estava por vir em termos de longevidade e valor histórico.

Há praticamente um século, esses atributos ganhariam especial relevância — se bem que por essa altura talvez também fosse improvável adivinhar quão extenso viria a ser o reinado da futura rainha. Em 29 de maio de 1926, a princesa Isabel de York (a futura rainha Isabel II) era batizada na capela privada do Palácio de Buckingham, pouco mais de um mês depois de ter vindo ao mundo no número 17 de Bruton Street, em Mayfair, Londres, a casa dos seus avós maternos.
Fotografias oficiais do dia ilustram essa formatura simbólica. No centro da imagem que ilustra este artigo, a mãe da recém-nascida, Isabel, duquesa de York (mais tarde a Rainha Mãe), sentada, segurando a pequena princesa, vestida com o tradicional vestido de cetim e renda Honiton, peça anteriormente usada pelo seu pai e pelo seu tio. Da esquerda para a direita estão representadas Lady Elphinstone (a tia e madrinha do bebé); Arthur, duque de Connaught (padrinho); Mary e o Rei George V (avós paternos e padrinhos); o pai da criança, duque de York; a condessa e conde de Strathmore (avós maternos; o conde também foi padrinho); e Maria, viscondessa Lascelles (tia e madrinha). A cerimónia foi conduzida por Cosmo Gordon Lang, Arcebispo de York. O famoso retrato do grupo familiar após a cerimónia foi feito por Vandyk.

Em termos de ordem de grandeza, o momento mais emblemático que se seguiu foi protagonizado por Carlos. No dia 15 de dezembro de 1948, era batizado o então príncipe de Edimburgo, com quatro semanas e três dias de vida, à época segundo na linha de sucessão, reinando ainda George VI. A cerimónia foi conduzida pelo arcebispo da Cantuária, Geoffrey Fisher, que oficializara a união entre os pais do bebé, em novembro de 1947. Os príncipes Ana, André e Eduardo seguiriam os batizados seguintes — e o figurino da praxe.
Tal como aconteceu com o seu pai, o batismo do príncipe William ocorreu na sala de música do Palácio de Buckingham, no interior da casa da família e marcou o começo da década de 80. Foi batizado em 4 de agosto de 1982, data que coincidiu com o aniversário da bisavó, a Rainha Mãe. Como habitual, foi usada a pia batismal introduzida no período vitoriano. Consta que ao contrário da habitual água do rio Jordão, foi usada água da torneira do palácio, como adiantaria anos mais tarde a princesa de gales, Diana, ao biógrafo real Andrew Morton, assumindo que boa parte dos preparativos do evento escaparam por completo ao seu controlo.

Nem só de figuras proeminentes, ou pelo menos na linha de sucessão mais imediata, vive a história e legado do fato, cujo privilégio de uso se estendeu a vários ramos do clã. Em 1961, um ano antes de ser usado por André, David Albert Charles Armstrong-Jones, segundo Earl de Snowdon, mais conhecido profissionalmente como David Linley, era batizado com a mesma pomba ao nível do vestuário. Em 1964, Sir Angus Ogilvy e a princesa Alexandra de Kent, batizavam James, o seu primeiro filho, de novo contando com esta veste histórica (aliás, em 1937, fora a vez da princesa Alexandra, prima direita de Isabel II, ter passado pelo mesmo ritual). Já em 1966, segundo dá conta o próprio registo manuscrito cultivado por Isabel II, seria a vez da irmã de James, Marina Ogilvy, a mais nova e única filha do casal — nesse mesmo ano, de acordo com o registo da rainha, o fato teve que ser arranjado, por motivo que se desconhece.
Os anos 70 trouxeram para esta lista outros nomes e bebés, como Nicholas Windsor , filho dos duques de Kent, o príncipe Edward e Katharine. O mesmo aconteceu em 19 de fevereiro de 1978 com Lady Davina Windsor, filha dos duques de Gloucester.

A princesa Beatrice estaria em destaque em 1988. Uns dias antes do Natal de 1990, a família reuniu-se na igreja de Maria Madalena em Sandringham para o batizado da sua irmã, a princesa Eugenie, o primeiro momento público do género. Ao fim de 185 anos, tornou-se evidente o sobre esforço do fato. Com uma nova geração no horizonte, Isabel II entendeu que era tempo de lhe dar o devido descanso. O traje foi retirado de circulação em 2004 a fim de ser conservado — mas a rainha tinha um plano B na manga. Encomendou uma réplica do modelo original de 1841 à sua fiel escudeira em matéria de design e costura, Angela Kelly, que haveria de assinar tantas das criações com que vimos a anterior soberana. Em vez de criar uma versão moderna, Kelly moveu todos os esforços, e mezinhas, para garantir que o substituto recriava na perfeição a ideia da rainha Victoria. Para tal, usou uma forma antiquada de tingimento para o projeto secreto: saquetas de chá.
“Para ter a certeza de que parecia autêntico tingimo-lo com chá Yorkshire (o mais forte, como todos sabemos),” revelou Angela no livro The Other Side of the Coin: The Queen, The Dresser and the Wardrobe. “Colocámos cada peça de renda numa pequena tigela, cheia de água fresca e um saco de chá, e deixamos por cerca de cinco minutos, verificando regularmente até que a cor fosse perfeita.” Ficava assim garantido o tom amarelado trazido pelo efeito do tempo, aqui conseguido num ápice. O projeto levou nove meses a ser concluído e contou com o apoio da costureira Barbara Buckfield. Menos protecionista que a mentora do traje, Kelly chegou a viajar para Itália para encontrar a renda certa. E confessou que Isabel II fez questão de acompanhar o processo a par e passo.

A nova peça como se fosse velha foi usada pela primeira vez no batizado do neto mais novo de Isabel II, James, Visconde Severn, filho do príncipe Eduardo e de Sophie, e permanece em uso até à atualidade. A sua irmã, lady Louise Winsor, foi a última a usar a antiga versão, em 2004.
A réplica foi usada em batizados reais nos últimos anos, incluindo os do príncipe George, da princesa Charlotte, do príncipe Louis e do príncipe Archie. A princesa Lilibet, filha mais nova de Harry e Meghan, foi batizada na Califórnia e tudo indica que não terá usado o vestido. O batizado mais recente, com recurso a esta mesma réplica, remonta a 2025: foi o de Athena Mapelli Mozzi, filha da princesa Beatrice, filha de André e Sarah Ferguson. A família alargada continua a beneficiar da utilização desta peça, como aconteceu com Maud (2013) e Isabella (2016), filhas de lord Frederick Windsor e Lady Sophie Winkleman.
Historicamente, os batizados reais são cerimónias discretas e de carácter privado, sendo depois divulgadas imagens oficiais que cristalizam o momento e saciam a curiosidade do grande público. Por regra, têm como cenário alguma da residências reais, mas também podem assumir um carácter menos formal. Em abril de 2011, a poucos dias do casamento de William e Catherine Middleton, um fotógrafo amador apanhou a rainha Isabel II a sair da igreja de Avening, em Gloucester, cenário do batizado da bisneta Savannah, filha de Peter Phillips e de Autumn.