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(A) :: Nas tarifas e, agora, na guerra do Irão. "Tweet" de Trump volta a levantar suspeitas de manipulação de mercado

Nas tarifas e, agora, na guerra do Irão. "Tweet" de Trump volta a levantar suspeitas de manipulação de mercado

Houve movimentações suspeitas nos mercados financeiros minutos antes do anúncio de Trump sobre o Irão. Já tinha acontecido o mesmo quando o Presidente dos EUA comunicou "pausa de 90 dias" nas tarifas.

Edgar Caetano
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Donald Trump levou, nas últimas semanas, pela segunda vez neste mandato, os mercados financeiros até perto do “abismo”. Na última primavera, o que tirava o sono aos investidores era o tema das tarifas do “Dia da Libertação”. Agora, é a guerra no Irão, que parece não ter fim à vista. A coincidência é que, tanto numa ocasião como na outra, houve um momento em que o Presidente dos EUA recorreu à sua rede social, a Truth Social, para, tempestivamente, anunciar um recuo. E em ambas as situações, houve, nos minutos anteriores, movimentações invulgares que alimentam as suspeitas de práticas (ilegais) de manipulação bolsista, com um potencial lucrativo gigantesco.

Eram 7h05 da manhã na costa leste dos EUA (menos quatro horas que em Portugal continental) quando Trump escreveu uma longa publicação na Truth Social, uma plataforma inspirada no Twitter (agora conhecido por X), onde dava conta de negociações “boas e produtivas” com o Irão. O tweet, que incluía vários erros ortográficos (por exemplo, a palavra which – inglês para os quais – aparecia escrita como witch – ou seja, bruxa), já foi, entretanto, corrigido. E foi, também, desmentido pelas autoridades iranianas, que afirmaram que aquela mensagem não era mais do que uma tática de guerra por parte dos EUA.

Independentemente da relevância que este desenvolvimento terá, ou não, para o fim da guerra a prazo, naquele momento, ler o Presidente dos EUA a falar em negociações “boas e produtivas” com o Irão fez os mercados acionistas mundiais darem um enorme “salto”. A bolsa dos EUA só abriria oficialmente dali a quase duas horas, mas estavam a ser negociados os chamados “contratos futuros”, instrumentos derivados que são transacionados entre os investidores quase 24 horas por dia – esses futuros estavam a descer cerca de 0,9%, fazendo adivinhar mais uma abertura negativa na bolsa, e imediatamente passaram a subir 2%, um swing de quase três pontos percentuais em poucos minutos.

Em sentido inverso, moveu-se o preço do petróleo, um dos ativos mais sensíveis à evolução na guerra no Médio Oriente. O preço do crude Brent, que serve de referência às importações portuguesas, estava a encarecer cerca de 1%, negociando acima dos 113 dólares por barril – e, subitamente, inverteu o rumo passando a afundar cerca de 11% para menos de 100 dólares por barril. Tanto no caso dos futuros de petróleo como dos derivados dos índices bolsistas, usando produtos complexos, estas variações podem, facilmente, render enormes fortunas – caso a aposta seja certeira. E é precisamente isso que há quem suspeite que aconteceu.

Cerca de cinco minutos antes da publicação de Donald Trump na Truth Social, a negociação dos contratos de futuros de índices bolsistas e de petróleo registou uma movimentação invulgar, sobretudo tendo em conta que os investidores asiáticos já tinham fechado o dia (dando uma forte queda às praças regionais), os norte-americanos ainda estariam a acordar e só na Europa as bolsas estavam, efetivamente, abertas.

Segundo a CNBC, pelas 6h50 da manhã nos EUA (cerca de meia hora antes do tweet de Trump), os futuros do índice S&P 500 tiveram um aumento súbito e notório no volume de contratos negociados. Não houve qualquer outro acontecimento ou notícia, que se saiba, que pudesse justificar tal movimento. O que se sabe é que se registou um padrão semelhante na negociação dos futuros de petróleo – não no Brent mas, sim, no petróleo WTI negociado primordialmente nos EUA.

Em ambos os casos, é possível fazer muito dinheiro investindo nestes instrumentos complexos, sobretudo quando se usa “alavancagem” – isto é, apostar nestes ativos com uma parte de capital próprio e outra parte, normalmente várias vezes maior, com créditos, uma estratégia que multiplica os ganhos (embora também possa multiplicar as perdas). E, nestes mercados, é tão fácil investir e esperar que o ativo ganhe valor como é apostar na queda de um dado ativo – é a diferença entre pressionar um botão vermelho e um botão verde, num comum ecrã de negociação.

“Alguém acabou de ficar muito mais rico”

De acordo com uma conhecida página sobre bolsas na rede social X, o Unusual Whales, alguém comprou cerca de 1,5 mil milhões de dólares em futuros do índice S&P 500 (esperando que subisse). E, sensivelmente ao mesmo tempo, alguém apostou na queda do preço do petróleo com uma aposta negativa de 192 milhões de dólares. É o tipo de aposta que, caso corresse mal, poderia dar perdas gigantes – o que é o mesmo que dizer que, seja quem for que fez aquele investimento, provavelmente teria boas razões para acreditar que o mercado ia mover-se no sentido desejado.

“As ordens [de compra no caso da bolsa e de venda no caso do petróleo] foram entre quatro e seis vezes maiores do que qualquer outro investimento que estava a ser feito naquele momento”, escreveu o Unusual Whales, que costuma investigar este tipo de dados bolsistas. Sem saber, naturalmente, a identidade de quem fez aqueles negócios, ou sequer se foi apenas um investidor ou vários, a página escreve que “o operador, aparentemente, terá conseguido realizar enormes lucros“.

https://twitter.com/unusual_whales/status/2036145087894438153

Contactada pela CNBC, a “polícia” da bolsa nova-iorquina – a Securities and Exchange Commission (SEC) – não fez qualquer comentário sobre o caso. Já um porta-voz da Casa Branca, citado por vários jornais norte-americanos, respondeu que “o único foco do presidente Trump e dos funcionários da administração é fazer o que é melhor para o povo americano”.

Kush Desai, o porta-voz, acrescentou que “a Casa Branca não tolera que nenhum funcionário do governo lucre ilegalmente com informações privilegiadas, e qualquer insinuação de que funcionários estejam envolvidos em tal atividade sem provas é jornalismo infundado e irresponsável“.

Ao Financial Times, um operador bolsista apelidou este padrão de frustrante, salientando que houve outros casos nos últimos meses, com menor magnitude. “A minha intuição, baseada no facto de trabalhar nos mercados nos últimos 25 anos, é que isto foi realmente anormal“, disse. “É segunda-feira de manhã, não há dados económicos importantes hoje… Alguém acabou de ficar muito mais rico“, acrescentou.

Uma tradição primaveril. Há um ano, alguém (também) antecipou anúncio de Trump

Esta não foi a primeira vez que uma declaração de Trump, através do Truth Social, numa fase de grande volatilidade nos mercados financeiros, fez as bolsas inverterem súbita e violentamente o rumo da negociação. Há praticamente um ano, a 9 de abril de 2025, as bolsas mundiais acumulavam vários dias consecutivos em queda, nessa ocasião, com receios de uma “guerra” não militar, mas comercial: em causa estavam as taxas alfandegárias “recíprocas” lançadas por Trump no seu famigerado “Dia da Libertação”.

Entre o momento em que as tarifas foram anunciadas e o tweet de Trump, os principais índices bolsistas perderam mais de 10% e as obrigações do Estado federal norte-americano também ficaram sob pressão. Ao cabo de alguns dias de grande nervosismo, o Presidente dos EUA começou por escrever, também na Truth Social, que era “um grande momento para comprar [ações e obrigações]”.

https://observador.pt/especiais/o-banqueiro-a-china-os-republicanos-ou-o-castelo-de-cartas-no-mercado-de-divida-quem-fez-trump-recuar-nas-tarifas/

Algumas horas depois, anunciou uma “pausa” de 90 dias em grande parte das tarifas, uma decisão que desencadeou uma forte recuperação bolsista. O índice S&P 500, que naquele dia estava novamente em “terreno negativo” deu um enorme “salto” e acabou por fechar com uma subida de 9,5%. Também aí, quem tivesse informação sobre o momento do anúncio, que acabou por ser um “fundo” na bolsa nova-iorquina ao qual ainda não se regressou, poderia ter feito uma fortuna.

A agência Reuters noticiou, na altura, que nos minutos anteriores ao anúncio de Trump apareceram operações em opções muito bem cronometradas a apostar numa recuperação brusca do mercado.

Antes da publicação, que foi feita às 13h18 locais (9 de abril de 2025), houve um volume anormal de operadores a comprar contratos derivados (opções sobre o ETF SPY) entre as 13h00 e as 13h10 – posições que passaram, em valor teórico, de cerca de 2,14 milhões para 21,44 milhões de dólares num caso e de 624 mil para cerca de 10 milhões noutro, depois da forte subida das bolsas.

Não foi possível determinar, porém, se aquelas “apostas bem cronometradas” foram feitas por um só operador ou por vários. Os democratas do Congresso pediram uma investigação sobre eventual manipulação de mercado, envolvendo conhecimento privilegiado dos anúncios de Trump, mas, até ao momento, não há notícia de que essa investigação, caso esteja a ser feita, tenha produzido qualquer resultado.