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(A) :: "O objetivo não é chegar à Lua, mas sim ficar por lá". NASA anuncia investimento de €28 mil milhões e planos para construção de base lunar

"O objetivo não é chegar à Lua, mas sim ficar por lá". NASA anuncia investimento de €28 mil milhões e planos para construção de base lunar

Primeira missão tripulada até à Lua em mais de 50 anos deverá ser lançada na próxima semana, mas a NASA garante que os esforços para ter uma base lunar construída nos próximos 10 anos começam hoje.

Martim Andrade
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Na próxima semana, a humanidade vai voltar à Lua. No dia 1 de abril, a NASA vai tentar lançar quatro astronautas na missão Artemis II, que irá dar uma volta ao satélite natural da Terra e regressar aos EUA no espaço de dez dias. A aterragem lunar será só em 2028, mas a agência espacial norte-americana já tem os seus planos bem definidos para o final deste programa, que marca um intervalo de mais de 50 anos sem missões espaciais tripuladas até à Lua — com a promessa de “ficar por lá” permanentemente.

“Este é o início de uma jornada transformadora para a NASA”. Foi assim que o administrador da agência, Jared Isaacman, abriu a conferência de imprensa desta quinta-feira. Sublinhou ainda a “ameaça” dos “rivais” que, à semelhança dos norte-americanos, querem ver os seus astronautas a pisar a Lua antes de 2030. Não mencionou a agência espacial chinesa por nome, mas deixou claro que a intensificação da agenda espacial norte-americana se deve aos avanços que têm sido feitos em território chinês sobre esta mesma matéria.

Os planos dos EUA para a Lua implicam um investimento de 30 mil milhões de dólares (28 mil milhões de euros) até 2036, que serão distribuídos ao longo de três fases. Para cada uma, estão previstos cerca de 10 mil milhões de dólares (8,6 milhões de euros). Isaacman anunciou, sem concretizar grandes detalhes, os planos da NASA para uma base lunar cuja construção deverá arrancar já na segunda metade de 2028, parte da última missão do programa Artemis.

Até 2032, “será um investimento de 20 mil milhões de dólares (17 mil milhões de euros)”, garantiu. “Vamos ter aterragens tripuladas a cada seis meses”, acrescentou o administrador da NASA, sublinhando que, em colaboração com entidades privadas e outras agências espaciais internacionais, “a América nunca mais vai voltar a desistir da Lua”.

A construção da base lunar terá início na Artemis V, prevista para o final de 2028, e meses depois da primeira aterragem humana na superfície da Lua desde a Apollo 17, em 1972. E será a partir daí que os lançamentos serão cada vez mais frequentes e os esforços de construção progressivamente intensificados.

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Certo é que a primeira fase do plano da NASA começa “hoje”: o objetivo é estabelecer uma forma “fiável” de chegar à Lua. De acordo com Carlos Garcia-Galan, o diretor do programa da base lunar, a agência quer fazer mais de duas dezenas de lançamentos até 2028, para dar início à atividade de “certas infraestruturas” como satélites de comunicação, enquanto se define uma rota e uma metodologia para assegurar uma maior frequência das viagens até ao satélite. Nestes três anos, a NASA inclui a primeira aterragem e missão tripulada no polo sul da Lua, onde se irá estabelecer a base.

Nestes 25 lançamentos, 21 vão configurar alunagens, mas apenas dois vão levar humanos a caminhar na superfície lunar. “Vamos ter drones na Lua”, afirma o responsável, referindo que serão cruciais, em conjunto com outros veículos lunares, para aceder a localizações de acesso mais complicado. Para referência, Garcia-Galan indica que uma das crateras com interesse de exploração tem o dobro da profundidade do Grand Canyon.

A segunda fase deverá arrancar em 2029, na sequência do término do programa Artemis. Será a partir deste ano que se vão começar a montar as primeiras peças do puzzle que será a base lunar, a primeira infraestrutura permanente na Lua. Também será nesta fase que a NASA irá tentar aumentar a periodicidade dos lançamentos tripulados: duas vezes por ano. Serão, ao todo, 27 lançamentos e 24 aterragens até 2032, também com um investimento previsto de 10 mil milhões de dólares.

Será entre 2029 e 2032 que o “rover pressurizado” da JAXA (Agência Espacial Japonesa) entrará em ação, segundo o responsável da NASA. O plano é ter uma “habitação sobre rodas” e o projeto desenhado pela equipa do Japão será o escolhido para desempenhar essa tarefa. “Terá um prazo de vida de cerca de 10 anos e vai andar a uma velocidade de 3,5 km/h. Mas acreditem que não quereriam andar mais rápido do que isso”, afirmou Carlos Garcia-Galan. A segunda fase também será marcada pelos primeiros testes de energia nuclear no Espaço.

Finalmente, no decorrer da terceira fase, a NASA quer conseguir alcançar uma presença “semi-permanente” de astronautas na Lua. “O objetivo será ter missões de longa duração, mas também explorações de longa distância”, esclarece o responsável pelo programa de construção da base lunar que, na próxima década, deverá ter “entregas regulares de mantimentos vindos da Terra”. Para tal, deverá ser edificado um “módulo habitacional”, que Jared Isaacman admitiu estar a ser preparado pela Agência Espacial Italiana. Serão mais de 10 mil milhões de euros até 2036, em quase 30 lançamentos (28 aterragens).

A NASA reconhece que o plano é ambicioso e que “até pode parecer ficção científica”, mas Carlos Garcia-Galan garante que vão conseguir “torná-lo realidade”. “Para conseguirmos executar esta visão, vamos ter de alcançar o quase impossível”, admite o responsável. O longo caminho até à presença humana semi-permanente na Lua deverá arrancar na próxima semana, dependendo das condições de lançamento da Artemis II. Os três astronautas da NASA e o especialista da agência canadiana que vão seguir a bordo desta missão podem seguir para a Lua já na próxima quarta-feira, dia 1 de abril. Mas se as condições não estiverem reunidas, a janela de lançamento prolonga-se até ao sexto dia do mesmo mês.