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(A) :: Os Geese ao vivo em Colónia: esta banda nunca vai salvar ninguém (e ainda bem)

Os Geese ao vivo em Colónia: esta banda nunca vai salvar ninguém (e ainda bem)

Não são profetas, não são visionários ou iluminados. São apenas aquilo que o rock'n'roll deve ser: imprevisível, alucinante, infantil. Já o diziam em disco, mas em palco concretizam-no em absoluto.

João Bonifácio
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Outubro do ano passado foi quando olhei para a minha conta bancária e ponderei se estava na hora de me presentear pelo meu esforço de anos – o de ser um rapaz poupado – e concluí que sim. Cinco minutos depois, estava a comprar bilhetes para o concerto dos Geese em Colónia, já que aparentemente todos os outros concertos da digressão estavam esgotados. A título de contextualização convém dizer: esse foi o mesmo dia em que a digressão foi anunciada.

Pequeno problema: o processo de compra dos bilhetes para Colónia não passava pelas apps habituais – para se ter ideia, eu recebi os bilhetes em casa, à antiga. O que significou que durante meses recebi emails em alemão sobre o concerto em que, de acordo com o Google translate, alguma alteração tinha acontecido ao concerto, apesar de o dito se manter a 18 de março em Colónia. E isto levou-me a pensar que eu estava tolinho: andava a receber correspondência eletrónica a dizer que um concerto fora alterado, mas sempre que ia à página oficial dos Geese lá estava: Colónia, 18 de março.

Só já na Alemanha, melhor, só no dia a seguir ao concerto percebi o que aconteceu: desde que a digressão fora anunciada até ao começo do concerto, este foi mudado do Yard Club (capacidade: 200 pessoas) para o Kantine (1000 pessoas), depois para o E-Werk (2000 pessoas) e finalmente para o Palladium (4000 pessoas).

A minha ideia era ver os Geese como vi os Wednesday: num clube de rock, entre escassas centenas de fanáticos, num clube de rock, a um par de metros do palco. Mas quando olhei para o fundo da sala pensei: estão aqui 2 ou 3 mil pessoas na boa, isto não faz sentido nenhum, como é que estes gajos já estão a encher este tipo de sítios? Que insanidade… E à terceira ou quarta canção, Cameron Winter, o vocalista e líder e etc, que não parou de beber cerveja o concerto inteiro, admitiu: “I spent my day shitting myself thinking this is the biggest place we’ve ever played”. Nem ele esperava que isto acontecesse.

A má notícia é, portanto, que mais vale esquecer a possibilidade de ver os Geese numa sala de rock pequena entre fanáticos – a partir de agora, esta é a audiência mais pequena para a qual eles vão tocar. A boa notícia é que se ele estava “shitting himself”, não se notou – porque os Geese tocaram como só o poderiam fazer nos nossos melhores sonhos: tocaram como quiseram, fizeram o que quiseram, facilitaram zero, improvisaram mil e ainda ofereceram petitas de ouro só para os muito conhecedores, isto quando não faziam jams de vários minutos só porque sim, porque são assim tão bons, porque podem.

Há duas ou três coisas que têm de ser esclarecidas sobre os Geese e sobre Cameron Winter. A primeira tem a ver com o papel do próprio Cameron Winter como profeta, alguém que tem algo importante a dizer, um sofredor, um tipo que vive de crise existencial em crise existencial: não é nada disto, nem de longe, nem de perto. É um puto de 23 anos que se diverte a dizer tudo aquilo que lhe passa pela cabeça. Quando ele, na canção Getting Killed, grita “There’s a bomb in my car”, não está a fazer um comentário sobre o estado do mundo; quando em Au Pays Du Cocaine ele canta “You can change/ Baby, you can change and still choose me”, apesar de estar simultaneamente a imitar Dylan e Van Morrison, não está em grande sofrimento – está só a divertir-se a criar frases de efeito.

Cameron Winter é, antes de mais, um puto grande – não tem grande coisa a dizer à humanidade, mas tem um conhecimento desmesurado da história da música e é muito puto no melhor sentido de o ser: alguém que olha para tudo de forma lúdica, que olha para os objetos não de acordo com a função que lhes é atribuída mas como potenciais brinquedos. E é essa capacidade de brincar que torna os Geese extraordinários: com eles o rock volta a ser livre, inesperado, com o refrão no lugar da ponte e a intro a fazer de coda. Era notório em disco. É absolutamente óbvio em palco.

Winter é, no entanto, extraordinariamente sério com a história da música pop: durante 2122, eles alteram radicalmente a canção até que de repente me ocorre: eles estão a tocar Can – os Can que vêm de Colónia. E não foi a única referência à banda alemã. A dada altura, Winter desatou a cantar a letra de Halleluwah dos Can. E durante todo o concerto eles pareceram realmente os Can: vezes sem conta prolongaram um riff até à exaustão enquanto a outra guitarra ou as teclas entravam em delírios indomáveis, ao ponto de nem uma canção ter soado ao disco. Nada. Zero. Nicles. Nem uma – tudo levou com as alterações daquele exato momento e só ao assistir a isto me apercebi da máquina afinada que os Geese são. Mantenho que, antes de mais, eles gostam de brincar com a história do rock (daí mexerem tanto com os fãs do género), mas têm o talento necessário para fazerem o que querem dos seus instrumentos. Já vimos isto antes – foi com Stephen Malkmus e os Pavement. As pessoas também achavam que os Pavement tinham coisas muito importantes a dizer – não tinham; eram geeks do rock e a mais valia que apresentavam era a habilidade de criar canções que ecoavam o melhor da história do rock, ao mesmo tempo que tinham voz própria.

https://observador.pt/especiais/a-geracao-z-descobriu-o-indie-rock-e-os-geese-sao-os-seus-profetas/

Um dos pormenores mais curiosos do concerto foi ver que a primeira grande explosão de euforia descontrolada do público se deu com Here My Angels Come, que é o título que é dado a uma canção que os Geese andam a tocar ao vivo há cerca de um ano sem a terem gravado em nenhum disco – num local com 4 mil pessoas isto devia ser um ponto morto, não um ponto de ebulição; o que significa que ali dentro estavam fanáticos a sério; o que significa que os Geese estão à beira de explodir.

Esse trio de canções (Here My Angels Come”, 2122 e I See Myself, que se seguiram aos três primeiros temas) foram alvo de absoluta devoção, com o público todo a cantar cada letra aos berros – e nenhuma faz parte de Getting Killed. Foi a partir daí que os Geese resolveram tornar-se uma banda funk: atacaram 100 Horses como se fossem a banda de suporte de James Brown, parando, arrancando, repetindo um riff enquanto a outra guitarra inventava novos motivos, mudando a linha de baixo, sacando solos de bateria, e este modo prolongou-se mesmo durante Cobra, que é – digamos – das “canções-êxito-fofinhas” dos Geese (se é que o género é sequer possível).

Deixem-me esclarecer isto de uma vez por todas: não há qualquer semelhança entre os Geese e os Strokes. Os Strokes são uma banda banalíssima, uma versão aburguesada e com mais cuidados nos arranjos dos Ramones; os Geese são uma experiência em constante mutação. Cameron Winter é pelo menos uma dezena de cantores por tema; cada canção, ao vivo, torna-se três ou quatro canções diferentes, consoante eles querem carregar num riff, aplicar ritmos motorika, sacar solos, ou soar a um crooner demente.

Ainda não estou completamente convencido com Apollo, que é o nome de uma nova canção que eles tocaram até agora duas vezes, uma em Berlim (a mais bela das cidades, depois de Hamburgo) e a outra em Colónia, mas adoro aquele “motherfucker” que termina a coisa; e o final do concerto, com Trinidad, foi simplesmente alucinante.

A história do rock é também a história da constante procura pelo próximo profeta. Cameron Winter não é nada disso – mas desde Stephen Malkmus não há ninguém que saiba tanto da poda e que mais facilmente possa ocupar esse lugar, pelo simples facto de as canções dos Geese soarem como todas as canções rock deverem soar: imprevisíveis, como uma brincadeira criada naquele momento (mesmo que tenham demorado cinco anos a ser escritas).

E o mais bonito de tudo é que nenhuma de nós consegue imaginar a que é que os Geese vão soar a seguir (ainda que eu aposte no espírito dos Radiohead de Amnesiac).