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Irão: o seguro político de Erdogan

O silêncio europeu surge como a primeira manifestação de uma nova realidade geopolítica onde a Turquia se tornou demasiado importante para ser criticada.

Manuel Castello Branco
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A 9 de março começou o julgamento de Ekrem Imamoglu, presidente da Câmara de Istambul e uma das figuras mais sonantes do partido da oposição turca, o CHP. Imamoglu foi detido há sensivelmente um ano sob alegadas suspeitas de corrupção, espionagem e apoio a grupos terroristas, em particular o Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK). Somando todas as acusações, enfrenta mais de 2000 anos de prisão. A detenção e julgamento foram amplamente interpretados como mais uma demonstração das tendências autoritárias de Recep Tayyip Erdogan, numa clara tentativa de impedir Imamoglu de concorrer às eleições presidenciais de 2028. As sondagens mostram que Imamoglu é uma das poucas figuras que conseguiria fazer frente e vencer Erdogan numa eleição direta. E o presidente turco, que jura pela independência do judiciário, nomeou recentemente o procurador que supervisiona a investigação como seu Ministro da Justiça.

Perante este cenário, seria expectável uma condenação forte da União Europeia. A UE tem sido conhecida pelos seus constantes comunicados em defesa do Estado de Direito, e ainda no ano passado foi extremamente rápida na sua condenação da detenção inicial de Imamoglu. Mas agora, com o julgamento a decorrer e as acusações a acumular-se de forma cada vez mais inverosímil, o silêncio é ensurdecedor. O contraste é notável e levanta uma questão óbvia: o que mudou de há um ano para cá?

A resposta parece encontrar-se não em Ancara, mas em Teerão. A guerra no Irão tornou Erdogan indispensável para o Ocidente precisamente quando este mais precisava de ser confrontado. Enquanto as análises desta guerra se concentram em Netanyahu, Trump e Putin, Erdogan parece emergir como um vencedor silencioso. E o silêncio europeu surge como a primeira manifestação de uma nova realidade geopolítica onde a Turquia se tornou demasiado importante para ser criticada, onde a necessidade estratégica supera princípios.

O paradoxo é que a liderança turca esteve inicialmente envolvida nos esforços para impedir o deflagrar da guerra. Perante uma economia debilitada e elevada inflação, mais instabilidade no Médio Oriente não era certamente o cenário desejado por Ancara. A volatilidade no mercado da energia ameaçava agravar ainda mais a já problemática inflação turca. E havia o receio fundado de uma nova onda de refugiados à porta da Turquia, que partilha uma longa fronteira terrestre com o Irão. Uma onda migratória que, caso se materialize, será com toda a probabilidade ainda mais disruptiva do que a que resultou das guerras do Golfo ou da guerra civil na Síria. Erdogan tinha razões económicas e sociais concretas para temer esta guerra.

Uma vez iniciado o conflito, a Turquia soube rapidamente reposicionar-se. A estratégia passou por manter neutralidade cuidadosa, condenando tanto os ataques iniciais americanos e israelitas como a resposta iraniana. Esta posição coloca a Turquia como mediador natural em eventuais negociações para pôr fim ao conflito. Erdogan cultivou uma boa relação com Trump ao longo dos anos e mantém ligações históricas com o regime iraniano. É uma das poucas figuras que consegue falar crediblemente com ambos os lados. Esta posição de ponte confere-lhe capital político interno e externo precisamente quando enfrenta desafios económicos domésticos e uma oposição que ameaça o seu controlo sobre o Estado. A guerra que parecia ameaçar a estabilidade económica turca transformou-se numa oportunidade para Erdogan se apresentar como estadista indispensável.

E essa perceção de indispensabilidade abre portas noutros campos. Os Estados do Golfo, alvos diretos da retaliação iraniana por albergarem bases e ativos americanos, viram as suas garantias de segurança tradicionais fragilizarem-se dramaticamente. A proximidade com Washington, que durante décadas funcionou como escudo protetor, tornou-se uma vulnerabilidade. Numa palavra, o conflito no Irão poderá criar nas monarquias do Golfo mais urgência em diversificar fontes de armamento e parcerias de defesa. E, aqui, a Turquia está perfeitamente posicionada para beneficiar dessa diversificação, oferecendo tecnologia militar avançada sem o risco geopolítico que vem agora associado aos sistemas americanos. Cada contrato de defesa assinado com os Estados do Golfo no futuro representa para Ancara receitas importantes, mas representa sobretudo a consolidação da sua influência numa região onde historicamente teve dificuldades em penetrar.

A influência de Erdogan sobre a administração Trump também se tornou cada vez mais evidente e valiosa. A relação próxima que desenvolveu com Trump parece ter desempenhado um papel fundamental no acordo alcançado entre as autoridades americanas e o Halkbank, um banco turco acusado de contornar sanções ao Irão. Da mesma forma, a influência turca terá tido um papel decisivo no abandono de planos americanos de armar forças insurgentes curdas no Irão, uma preocupação de longa data para Ancara. Estes são sinais concretos de como Erdogan tem conseguido alavancar a sua posição estratégica fortalecida para extrair concessões de Washington em questões que há muito o preocupam. A guerra criou margem de negociação que simplesmente não existia antes.

É na Europa, contudo, que a transformação da posição turca se torna mais visível e mais problemática do ponto de vista dos valores democráticos. O conflito no Irão veio reforçar dramaticamente a indispensabilidade estratégica da Turquia para os interesses europeus em duas dimensões fundamentais.

A primeira é migratória. A Turquia funciona como barreira a um eventual fluxo de refugiados proveniente de um escalar do conflito na região. A União Europeia pagou já mais de 10 mil milhões de euros à Turquia desde 2016 para impedir a passagem de refugiados do Médio Oriente para a Europa. No caso de um êxodo massivo do Irão, a estratégia europeia passará naturalmente por um reforço desta colaboração. E Erdogan sabe que a Europa pagará o preço necessário para manter essa barreira funcional, independentemente do que isso signifique em termos de concessões políticas sobre questões como a de Imamoglu.

A segunda dimensão é a militar. À medida que crescem as dúvidas sobre o comprometimento americano que sustenta a NATO, os europeus procuram cada vez mais ansiosamente maior cooperação de defesa com Ancara. A Turquia possui o segundo maior exército da NATO (depois dos Estados Unidos), assim como uma forte indústria de armas e aeroespacial. Os rivais históricos da Turquia, Grécia e Chipre, veem esta aproximação com profunda desconfiança, mas o resto da Europa vê um aliado militar poderoso que poderá muito bem precisar de mobilizar no futuro. Com os Estados Unidos cada vez mais distantes dos seus aliados europeus e com o foco militar americano cada vez mais deslocado da Europa para o Médio Oriente e Sudeste Asiático, a indispensabilidade da Turquia transcende a questão migratória e entra no domínio da segurança militar coletiva. O destino da Europa e da Turquia está cada vez mais entrelaçado, precisamente quando Erdogan consolida tendências autoritárias internas.

Não porque represente um abandono genuíno dos compromissos democráticos europeus, mas porque mostra a sua capitulação perante a necessidade estratégica. A Europa precisa de Erdogan para conter refugiados e para reforçar a defesa coletiva num momento de incerteza sobre a NATO. E essa necessidade traduz-se em silêncio quando deveria haver condenação. É um cálculo racional, ainda que cínico: os princípios de pouco servem sem segurança militar e estabilidade político-social.

Há ainda uma dimensão regional menos discutida mas igualmente importante para compreender porque é que Erdogan beneficia desta guerra. Apesar de um colapso total do Estado iraniano ser desastroso para a Turquia, um Irão significativamente enfraquecido mas ainda funcional pode representar o cenário ideal para Ancara. O Irão tem sido um rival feroz por influência na região através da sua rede de proxies. A intervenção americana e israelita, combinada com a atuação militar de Israel desde 2023, e o subsequente desmantelamento desta rede, criou vácuos de poder que a Turquia está bem posicionada para preencher.

O exemplo mais claro desta dinâmica é encontrado na Síria. A queda do regime de Bashar al-Assad no final de 2024 permitiu a ascensão de Ahmed al-Shaara, financiado e armado pelo Estado turco. Esta transformação fez de Ancara um dos atores externos mais importantes na Síria pós-Assad. E permitiu a Erdogan pressionar o PKK, que antes de al-Shaara tinha na Síria de Assad um refúgio seguro e base de coordenação de operações. O governo de al-Shaara tem trabalhado ativamente para dissolver e expulsar membros do PKK, um desenvolvimento que contribuiu para o enfraquecimento significativo deste grupo que há décadas desafia o Estado turco.

Um maior enfraquecimento do Irão abrirá igualmente espaço no Cáucaso, onde a influência iraniana tem historicamente funcionado como barreira às ambições regionais turcas. Cada recuo iraniano é potencialmente um avanço turco.

Neste ponto, vale a pena notar que um Irão democrático e alinhado com o Ocidente, resultado ideal segundo a retórica oficial americana e europeia, seria provavelmente pior para os interesses turcos do que um Irão enfraquecido mas ainda hostil ao Ocidente. Um regime iraniano pró-ocidente transformaria o Irão numa potência regional capaz de desempenhar muitas das funções estratégicas para as quais o Ocidente depende hoje da Turquia. A indispensabilidade de Erdogan assenta, paradoxalmente, na persistência de um Irão que o Ocidente não consegue controlar mas precisa de conter. É um equilíbrio delicado onde o enfraquecimento serve melhor os interesses turcos do que qualquer transformação democrática profunda.

A ironia histórica é difícil de ignorar. Donald Trump, que se apresenta como defensor da força ocidental e crítico ocasional de regimes autoritários quando lhe convém politicamente, está através das suas ações a tornar Erdogan cada vez mais indispensável para o Ocidente. São más notícias para Ekrem Imamoglu, que enfrenta um julgamento manifestamente político sem qualquer pressão internacional significativa sobre o regime que o persegue. São más notícias para o estado da democracia na Turquia, onde a oposição vê os seus espaços de atuação estreitarem sem consequências externas. Mas pode ter sido o balão de oxigénio que Erdogan precisava num momento onde as pressões internas e económicas começavam a acumular-se de forma perigosa para o seu regime.

Enquanto todos olham para Trump, Netanyahu e Putin como os protagonistas desta guerra e debatem quem ganha e quem perde neste confronto, Erdogan consolida ganhos estratégicos que podem revelar-se mais duradouros do que os de qualquer um desses três. Porque os ganhos de Erdogan dependem apenas de continuar indispensável. E a guerra no Irão garantiu-lhe precisamente isso.