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Uma víbora turquesa que deteta o calor, lagartixas e caracóis: estudo revela novas espécies em grutas do Camboja

Expedição financiada pela UE estudou 64 cavernas durante quase dois anos no Camboja. Resultado: 26 espécies novas, incluindo uma serpente em tons azul-verde — e ecossistemas cada vez mais ameaçados.

Manuel Conceição Carvalho
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Ainda não tem nome mas já é a estrela de 26 espécies descobertas em 64 grutas no Camboja. Os investigadores deixaram-se impressionar pelas cores desta víbora, com manchas castanhas translúcidas ao longo do corpo turquesa luminoso e uns vibrantes olhos amarelos. Pertence ao género trimeresurus e é nova para a ciência, como se pode ler no estudo Biodiversidade do Carst divulgado esta segunda-feira.

Com uma cabeça triangular, típica deste tipo de serpentes, a víbora descoberta nas formações de calcário (Carst) de Phnom Prampi, na província de Battambang, é altamente perigosa, dizem os especialistas no artigo científico. “Tal como outras víboras de fossetas” que têm ‘sensores’ de calor na cabeça, a serpente de cores inéditas utiliza “uns orifícios atrás das narinas para detetar e localizar presas de sangue quente na escuridão”, lê-se ainda no texto.

A víbora de cores surpreendentes não é a única que aguarda pelo seu batismo na ciência, estando ainda em fase de descrição taxonómica formal (processo científico que deverá resultar “num primeiro rascunho de classificação até ao final deste ano”). A trimeresurus tem diversas variantes, todas com um ‘apelido’: a erythrochloris, a albolabris e a cardamomensis, por exemplo. Resta saber que nome terá esta víbora em tons de azul-verde. Na mesma situação estão três novos tipos de geckos (lagartixasem linguagem comum) dos géneros cyrtodactylus, gehyra e dixonius, igualmente encontrados nestas grutas no noroeste cambojano. 

Não são apenas quatro as espécies inéditas para a ciência registadas por esta expedição da Fauna & Flora em colaboração com o Ministério do Ambiente do Camboja e especialistas da Universidade de La Sierra, nos Estados Unidos, que durante quase dois anos (de novembro de 2023 a julho de 2025) estudou os ecossistemas frágeis das grutas calcárias de Battambang. Foram descobertas outras sete “espécies até então desconhecidas pela ciência”, mas que já têm nome atribuído: “Três espécies de lagartixas (cyrtodactylus kampingpoiensis, hemiphyllodactylus khpoh e dixonius noctivagus), duas espécies de microcaracóis (clostophis udayaditinus e chamalycaeus aduncus) e duas espécies de milípedes [parecidos com uma centopeia, mas com muito mais patas e que se alimentam sobretudo de matéria em decomposição]: orthomorpha efefai e orthomorpha battambangiensis)”, refere o estudo. Estas sete espécies foram formalmente descritas e publicadas em literatura científica sujeita a revisão por pares”, acrescenta a equipa.

Foram ainda encontradas pelo menos “sete espécies desconhecidas” de caracóis que “apresentam características morfológicas específicas que sugerem a sua identificação como novas para a ciência”. Além destas, os investigadores registaram três novas espécies de milípedes para a comunidade científica: duas novas variantes de plusioglyphiulus e uma de uutrichodesmus, recolhida na gruta La ang Satani, em Phnom Sampeu. E ainda 5 novas espécies de colêmbolos, parentes próximos (mais pequenos) do inseto.

Os cinco milhões de morcegos com valor económico e a serpente-voadora

Enquanto os cientistas apressam o passo para batizar e descrever as novas espécies descobertas nestas grutas de calcário, a vida nestes ecossistemas continua a ditar o ritmo das comunidades humanas ao redor. Prova disso é o que acontece ao anoitecer em Battambang: de cavernas como a de Phnom Sampeu, emergem nos céus mais de cinco milhões de morcegos. Este fenómeno, que é hoje uma das maiores atrações turísticas da região, não é apenas visualmente interessante. É também útil a nível ambiental, porque estas colónias fornecem toneladas de guano (fertilizante natural), que sustentam a agricultura da região, configurando um “‘serviço’ economicamente significativo e ecologicamente importante”, sublinham os investigadores.

O estudo, financiado pela União Europeia, reforça que estes habitats de calcário, ou “carst”, são dos ecossistemas menos conhecidos e mais ameaçados do planeta, albergando ainda espécies em perigo como o pangolim-sunda e o langur-prateado.

A equipa de biólogos e outros peritos registou ainda a presença de outros répteis já catalogados, que não são específicos das grutas, mas que habitam na zona envolvente  como a piton-reticulada (a cobra mais comprida da natureza) ou a fascinante cobra-voadora-ornamentada também conhecida como cobra-das-árvores-dourada.”Esta serpente tem a capacidade invulgar de planar entre árvores, assemelhando-se a uma ‘fita cintilante’ ao achatar a sua caixa torácica para serpentear pelo ar”, explicam os investigadores.

“Cada uma destas áreas cársticas isoladas atua como o seu próprio pequeno laboratório — onde a natureza está a realizar a mesma experiência repetidamente, de forma independente. Os resultados são espécies que não existem em mais lado nenhum — não apenas em nenhum outro lugar do mundo, ou desse país — mas em nenhuma outra gruta”, frisou Lee Grismer, professor de biologia na Universidade La Sierra (EUA) e um dos autores do estudo, ao descrever a singularidade biológica destas grutas.
Ou seja, estas formações de calcário funcionam como “ilhas biológicas”, onde o isolamento geográfico forçou os animais a evoluírem de forma única em cada gruta específica.

“As paisagens cársticas do Camboja abrigam espécies endémicas únicas. No entanto, esses ecossistemas frágeis estão cada vez mais ameaçados por atividades humanas, especialmente pela extração de cimento. Cada vez que uma dessas colinas é destruída, espécies podem correr risco de extinção. Muitas delas antes mesmo de serem descobertas”, alerta ainda Sothearen Thi, coordenador de Biodiversidade Cárstica da Fauna & Flora.