O sonho está a 12 mil quilómetros de distância. Parece um paradoxo, mas o que é certo é que a Nova Caledónia nunca esteve tão perto de chegar a um Campeonato do Mundo. Apesar de ser um Estado parcialmente independente, a Nova Caledónia continua a ser um território ultramarino que pertence a França, contemplando dezenas de ilhas no sul do oceano Pacífico. É mais conhecida pela época balnear do que propriamente pelo futebol, tendo uma das maiores lagoas do mundo, com cerca de 24.000 km2 de área. Ainda assim, é no desporto que os neocaledónios têm estado nas bocas do mundo por estes dias. Afinal, estão a “apenas” dois jogos de se apurarem para o Mundial deste ano, que se realiza no Canadá, nos EUA e no México.
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Há um ano, a seleção da Nova Caledónia eliminou o Taiti nas meias-finais da terceira ronda de qualificação da Oceânia (3-0), garantindo desde logo, na pior das hipóteses, a repescagem para o Campeonato do Mundo, algo que acabou por se confirmar depois da derrota na final, frente à Nova Zelândia (0-3). Agora, a Nova Caledónia está em Zapopan, no México, onde vai enfrentar a Jamaica na madrugada de sexta-feira (3 horas em Portugal continental), num jogo a contar para as meias-finais do playoff intercontinental. Quem vencer vai defrontar o Congo na terça-feira (22 horas), igualmente no Estádio Akron. O vencedor dessa partida vai integrar o Grupo K do Mundial, juntamente com Portugal, Usbequistão e Colômbia, defrontando a Seleção Nacional na primeira jornada.
O crescimento da seleção do Pacífico foi possível a partir do investimento recente feito pela Federação de Futebol da Nova Caledónia (FCF), que mudou a sua estratégia e começou a fortalecer o apoio às competições nacionais, bem como às seleções do país, comprometendo-se a melhorar o nível do futebol em todo o arquipélago. Para além disso, a FCF contou com o apoio do programa FIFA Forward, utilizando o investimento da FIFA para desenvolver os seus jogadores e construir a sua nova sede, que foi inaugurada por Gianni Infantino, presidente da entidade que tutela o futebol, em agosto de 2023, a fim de melhorar toda a pirâmide do futebol neocaledónio. Para além disso, a academia do país, que foi inaugurada em 2022 com o apoio da FIFA e da OFC, foi renovada no ano passado.
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O objetivo inicial desta academia passava por escolher os potenciais jogadores do país, que seriam identificados através de um programa de desenvolvimento de talentos destinado a atletas a partir dos 13 anos. Da academia saíram, segundo a FIFA, cerca de 80% dos jogadores que representaram a Nova Caledónia no Campeonato do Mundo de Sub-17 de 2023, ao passo que seis elementos estiveram no Mundial de Sub-20 do ano passado. Em termos de ranking, a Nova Caledónia é a 150.ª melhor seleção do mundo.
À luz da convocatória para os jogos em território mexicano, a seleção neocaledónia é maioritariamente composta por jogadores que atuam no campeonato local ou nas divisões inferiores do futebol francês, ainda que haja três jogadores que jogam no estrangeiro: Joseph Athale (Taiti United), Jekob Jeno (Hapoel Rishon, Israel) e Angelo Fulgini (Al Taawoun, Arábia Saudita). Titouan Richard tem 25 anos e representa o Olympique Salaise Rhodia, que compete na sétima divisão do futebol francês. “Quando jogamos contra a Nova Zelândia são todos profissionais. É um ambiente diferente”, disse ao The Guardian o jogador que, há uns meses, se dividia entre o trabalho num supermercado da cadeira Intermarché e os estudos na área da comunicação. Para já, encontra-se em licença sem vencimento para representar o seu país na América do Norte.
César Zeoula tem 36 anos, joga no Chauvigny, da quinta divisão de França, e é o capitão da Nova Caledónia. “Às vezes [as viagens] são chatas, mas temos de as fazer. Antigamente era muito difícil vir para França, porque estamos longe da família e os preços dos voos são altos. Não era algo garantido. Agora é muito mais fácil. Vamos ter dois jogos de alto nível que provavelmente nunca mais vamos jogar nas nossas vidas. Vai ser um momento emocionante”, contou o médio, que explicou que os jogadores costumam de se reunir em Paris, antes de a FCF os transportar para o arquipélago, numa viagem que ronda os 20 mil quilómetros. Nos últimos tempos, a federação tem incentivado e promovido a mudança dos seus jogadores para França, com vista a melhorar o seu nível competitivo.
“Um dos objetivos que me foi dado quando entrei, em agosto de 2022, foi o de estabelecer ligações com o futebol francês, para garantir que os rapazes joguem a um determinado nível. Houve acontecimentos que enfraqueceram o futebol na Nova Caledónia e o futebol sofreu um revés. Distância? Usamos uma aplicação, a Suivi Sport, que consideramos absolutamente fundamental. Permite-nos acompanhar os rapazes ao longo do ano. Os jogadores registam a sua atividade desportiva, bem como o seu estilo de vida e bem-estar diários. Acompanhamos 45 jogadores diariamente e a ideia é que cada um tenha de estar ‘no verde’ para ser convocado. Eles nem sempre conseguem dar o seu melhor, mas quando estão juntos criam uma cultura em que são mais do que família. São clãs e tribos inteiras habituadas a trabalhar em conjunto e, quando estão juntos, movem montanhas”, explicou o selecionador Johann Sidaner, que antes de assumir o comando técnico da Nova Caledónia, trabalhou na formação do Nantes.
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