Ninguém tem dúvidas de que o centro do país foi, de longe, a maior vítima dos terríveis acontecimentos do passado mês de fevereiro. Nunca serão, por isso, demais todos os apoios e solidariedade que Governo, autarquias e particulares dêem a quem, em muitos casos, tudo perdeu.
Há, no entanto, todo um outro país que não esteve debaixo dos holofotes, mas que também sofreu danos tremendos e que não pode ser ignorado.
Odemira é uma dessas áreas que, talvez por não ter tido inundações, não atraiu os olhares e as câmaras dos meios de comunicação social.
O montante dos estragos continua a ser calculado, mas não é difícil imaginar que possa atingir os 40 milhões de euros: centenas de hectares de túneis completamente destruídos, culturas ao ar livre perdidas e potencial produtivo comprometido, o que impede o cumprimento dos contratos comerciais em vigor.
40 milhões de euros é também o valor apontado pelo Governo para o montante de apoio ao setor agrícola a nível nacional. Num contexto em que os prejuízos numa única região podem atingir esse valor, torna-se evidente a dimensão do desafio que o setor enfrenta. É, por isso, fácil imaginar a apreensão que o Sudoeste Alentejano está neste momento a sentir.
Costuma dizer-se que quem não aparece, esquece. E esta não é a primeira vez na última década que o território tem de se reinventar perante circunstâncias adversas.
Nos últimos anos, a região atravessou como poucos os desafios da Covid-19, reorganizando-se perante uma cerca sanitária que, em teoria, paralisaria o território. Paralelamente, tem vindo, com o esforço e o investimento das empresas, a minimizar o problema de falta de habitação – sobre o qual governo central e autarquias ficaram muito aquém do que poderia ter sido feito.
Anteriromente, há não muito tempo, a barragem de Santa Clara distribuía cerca de 40 milhões de metros cúbicos de água, mas anos consecutivos de seca reduziram esse volume levando os produtores a ter de sobreviver com apenas 12 milhões por ano.
Só com um enorme investimento na construção de charcas e de sistemas de reutilização de água se conseguiu que os 15% das exportações de frescos do país, que de aqui partem todos os anos, não só se tenham mantido, como até mesmo aumentado.
Os acontecimentos recentes foram a última machadada numa luta pela sobrevivência que Odemira teima em não perder. Mas para que essa resiliência continue a ser possível, é essencial que não se ignore aquilo que acontece longe das câmaras. Porque também aí se joga uma parte importante da economia agrícola portuguesa.