Com o inverno a terminar, é tempo de fazer o balanço do seu impacto real no Serviço Nacional de Saúde. E os números associados à Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) continuam a ser devastadores. Há decisões em saúde que salvam vidas. E há atrasos que as comprometem. Esta é uma realidade que começa muito antes das portas das urgências, nas lacunas da prevenção e no subdiagnóstico crónico que afetam a doença.
A DPOC é hoje a 5.ª causa de morte em Portugal. Afeta cerca de um milhão de portugueses, muitos dos quais sem um diagnóstico estabelecido ou com um diagnóstico tardio, e é responsável, todos os anos, por mais de 2.000 mortes e cerca de 77.000 internamentos. A maioria destes internamentos resulta de exacerbações — agravamentos agudos que, especialmente nesta época do ano, sobrecarregam as urgências, aceleram a progressão da doença, aumentam o risco de morte e deixam sequelas irreversíveis.
Estes números não são estatísticas abstratas. Significam o avô que deixa de conseguir ir buscar os netos à escola por medo de uma crise de falta de ar. É a profissional ativa forçada a uma reforma antecipada. Cada internamento é uma fratura biográfica com um custo humano incalculável, ocupando camas hospitalares com eventos que, em muitos casos, poderiam ser evitados.
O impacto económico direto da DPOC no SNS aproxima-se dos 900 milhões de euros por ano. O principal motor dessa despesa são as hospitalizações, muitas delas consequência direta de um diagnóstico tardio e de uma gestão preventiva inadequada. Cada internamento, com um custo médio de cerca de 2.700 euros representa não só uma falha terapêutica, mas também uma oportunidade perdida de intervenção atempada. Mas o verdadeiro custo é ainda maior: perda de produtividade, dependência crescente, reformas antecipadas, sobrecarga informal de cuidadores.
Perante esta realidade, que exige uma forte aposta na prevenção e no diagnóstico precoce, o que continua a dominar o debate é o custo da inovação terapêutica. O que raramente se discute é o custo de não a disponibilizar atempadamente. A evidência científica mais recente demonstra que, em doentes com formas graves e exacerbadoras de DPOC, o acesso a terapêuticas inovadoras, nomeadamente as que atuam sobre mecanismos inflamatórios específicos da doença, pode reduzir significativamente a mortalidade, as hospitalizações e as exacerbações agudas. Um estudo publicado em janeiro de 2025, no Journal of Allergy and Clinical Immunology, apontou para reduções próximas de 50% no risco de morte e quedas substanciais nos internamentos.
Quando estes dados são ignorados ou quando as decisões se arrastam, a consequência não é neutra. Cada mês de atraso significa mais exacerbações e, inevitavelmente, mais mortes evitáveis.
Portugal apresenta um dos maiores atrasos médios da Europa no acesso a medicamentos inovadores — cerca de 840 dias entre aprovação europeia e disponibilização efetiva, segundo o estudo The Patients W.A.I.T. (EFPIA, 2025). Este atraso traduz-se numa desigualdade concreta para os doentes portugueses, que continuam a esperar por terapêuticas já acessíveis noutros países há mais de dois anos.
É legítimo discutir sustentabilidade financeira. Mas é incompleto — e injusto — fazê-lo sem integrar o custo da inação na equação. Não tratar a tempo também tem um preço. E esse preço está a ser pago todos os dias nas urgências e enfermarias no nosso país.
O debate que as autoridades de saúde e os decisores políticos precisam de liderar é outro. Não se trata de discutir se devemos inovar, mas como construímos uma estratégia integrada que comece na prevenção primária (ex: cessação tabágica), garanta o diagnóstico atempado através da espirometria acessível, e culmine num acesso rápido à inovação terapêutica com a urgência que a situação impõe. É imperativo criar um mecanismo de ‘via verde’ para a avaliação e financiamento de terapêuticas que demonstrem, inequivocamente, capacidade para reduzir mortalidade e hospitalizações em patologias de elevado impacto como a DPOC.
Em Saúde Pública, o tempo é um determinante de sobrevivência. E na DPOC, o tempo está a jogar contra os doentes. Portugal precisa de decidir se quer continuar a pagar o custo de mais um inverno de inação — ou se está preparado para assumir que agir de forma integrada, da prevenção ao tratamento, neste contexto, não é um luxo. É uma necessidade económica e uma responsabilidade. De todos.