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(A) :: Quem é Mohamed Ghalibaf, presidente do parlamento iraniano e possível interlocutor de Trump?

Quem é Mohamed Ghalibaf, presidente do parlamento iraniano e possível interlocutor de Trump?

Imprensa avança que os EUA estarão a negociar com Mohamed Ghalibaf, o presidente do parlamento do Irão que pertence à 'linha dura' do regime e tem um historial de repressão violenta de protestos.

Tiago Caeiro
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“Queremos falar com eles, mas não temos com quem falar. E gostamos que assim seja”. As palavras são do Presidente dos EUA. No final da semana passada, Donald Trump afastava qualquer possibilidade de diálogo com o Irão, congratulando-se com o poderio militar demonstrado pelas forças norte-americanas. Apenas três dias depois, e com o preço do petróleo a escalar, Trump invertia radicalmente o discurso: afinal, os EUA estavam a negociar com Teerão, de forma “produtiva”, e tendo como interlocutor uma “figura de destaque do regime”. Essa figura, noticiou depois a Reuters, é Mohamed-Bagher Ghalibaf, presidente do parlamento do Irão.

Segundo a imprensa norte-americana, Ghalibaf terá estado em contacto nos últimos dias com Steve Witkoff, enviado especial dos EUA para o Médio Oriente, e com Jared Kushner, genro de Trump. A confirmarem-se — Teerão tem negado qualquer contacto com os EUA — as negociações com Ghalibaf podem ser consideradas uma surpresa, já que é apontado como um dos membros da linha-dura do regime, tendo defendido veementemente a repressão das recentes manifestações em massa (que terão provocado 30 mil mortos). Segundo o ABC, o presidente do parlamento tem sido também o alto responsável do regime que mais tem feito ouvir a sua voz nos últimos dias, afirmando constantemente nas redes sociais que o Irão lutará até o fim na guerra contra Israel e EUA.

Na semana passada, perante a disrupção económica causada pelo encerramento quase total do estreito de Ormuz, Ghalibaf afirmou que “o estreito não regressará ao seu status pré-guerra”, sugerindo a ideia de que a navegação marítima não se voltará a normalizar.

https://observador.pt/2026/03/23/teerao-nega-estarem-em-curso-negociacoes-com-washington/

Pouco depois, Trump fez um ultimato ao Irão, ameaçando destruir as principais infraestruturas energéticas do Teerão a não reabrisse o Estreito. Ghalibaf respondeu, também pelas redes sociais, avisando Washington de que o Irão retaliaria contra instalações de petróleo e energia em toda a região do Golfo, garantindo assim que “o preço do petróleo permanecerá alto por muito tempo”.

Ghalibaf desmente negociações e ameaça com ataque a instituições financeiras

“Além das bases militares, as instituições financeiras que financiam o orçamento militar dos EUA são alvos legítimos”, salientou ainda o Presidente do parlamento do Irão. Em declarações à imprensa, Trump disse que os seus negociadores estão a conversar “com as pessoas que parecem comandar o país, porque as coisas que elas dizem têm consequências depois”.

https://twitter.com/mb_ghalibaf/status/2036108696040747128

No entanto, Ghalibaf foi dos primeiros altos responsáveis iranianos a vir a público negar a existência de negociações entre as duas partes. “Não houve negociações com os EUA, e as notícias falsas são usadas para manipular os mercados financeiros e de petróleo e escapar do atoleiro em que os EUA e Israel estão presos”, escreveu o presidente do parlamento iraniano no X.

Nascido em 1961 na cidade de Torqabeh, perto de Mashhad, na atual província de Khorasan-e Razavi, no nordeste do país, Ghalibaf juntou-se à milícia Basij e foi enviado para lutar contra os rebeldes curdos no oeste do país. Ingressou depois na Guarda Revolucionária Islâmica após o início da Guerra entre o Irão e o Iraque, que durou desde 1980 até 1988.

Entre ordens de repressões e acusações de corrupção, Ghalibaf nunca chegou a Presidente

A ascensão de Ghalibaf aos altos escalões do regime coincidiu com a ascensão de Khamenei como líder supremo em 1989. Ghalibaf tornou-se vice-comandante da Basij e, posteriormente, liderou dois órgãos da Guarda Revolucionária Islâmica. Mais tarde, tornou-se comandante da Força Aérea durante três anos, de 1998 a 2000. Em 1999, juntamente com outros comandantes da Guarda Revolucionária, advertiu o então Presidente reformista Mohammad Khatami de que seria destituído do poder caso não reprimisse os protestos estudantis que tomavam as ruas. De seguida, o Líder Supremo, Ali Khamenei, nomeou-o chefe do Comando da Polícia da República Islâmica do Irão. Foi já nesse papel, em 2003, e perante uma nova vaga de protestos, que Mohamed-Bagher Ghalibaf comandou uma nova repressão violenta dos manifestantes. Durante esse período, também ordenou a prisão de jornalistas, escritores e ativistas.

https://observador.pt/especiais/jogos-de-guerra-as-pecas-de-teatro-militares-que-preveem-conflitos-como-o-do-irao/

Sem nunca esconder as suas ambições políticas, Ghalibaf concorreu à presidência do Irão em 2005, 2013 e 2024, nunca conseguindo ser eleito, recorda o The Hill. Após a primeira derrota, em 2005, foi eleito e reeleito presidente da câmara de Teerão, sem oposição em 2007 e novamente em 2013.

O mandato ficou marcado pela expansão do metro de Teerão e pela criação de novas áreas verdes na cidade mas também por acusações de corrupção: foi acusado de ter vendido grandes propriedades da Câmara a funcionários da rica região do norte de Teerão, mas o processo acabou por ser arquivado. Como Presidente do parlamento iraniano, cargo que ocupa desde 2020 (quando substituiu Ali Larijani), também enfrentou acusações de corrupção: foi acusado de estar envolvido num esquema de desvio de fundos, num escândalo relacionado com a compra de apartamentos e de bens de luxo na Turquia.