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(A) :: Honra os que vieram antes de ti

Honra os que vieram antes de ti

Memória de gente que viu a II Guerra Mundial, Humberto Delgado, amigos a morrer no ultramar, o homem na Lua, os 25A e N, a CEE e o telemóvel, a bancarrota e a pandemia e que fez tudo pela Pátria.

Pedro Barros Ferreira
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Como se escreve sobre uma pessoa, que, a maioria dos eventuais leitores, não conhece?

Este foi o problema com que me deparei, ao querer escrever um texto, relativo aos 90 anos de idade do meu Pai.

Embrenhado nesse dilema, reparei num pequeno acrílico que comprei quando fui à Escócia ver um jogo de rugby, que apenas diz: Honra os que vieram antes de ti.

Esta frase tão singela (e Cristã) revela muito daquilo que – infelizmente – não se faz em Portugal, ou seja: Honrar em vida, aproveitar a experiência da idade, dar continuidade às gerações, conhecer a história. Quando formos capazes de tal fazer, podemos ter cá todos os imigrantes que existirem, que continuaremos – sempre – a existir. É isso que os políticos deviam exigir e não a construção de muros.

Vamos então conhecer este Pai, igual a tantos outros da mesma idade, que viveram metade da sua vida durante o Estado Novo, que foram à guerra, que desejaram o 25 de Abril, mas que também se desencantaram com muitas coisas.

O meu Pai nasceu em 1936, na freguesia da Lapa. Era vizinho de Pinto Balsemão, com quem jogava à bola no Páteo da casa deste. O ambiente na sua casa era republicano, oposicionista e ateu. Andou sempre na escola pública (óptima à época): Passos Manuel e depois Gil Vicente (onde conhece o futuro colega Morais Leitão – o Fritz) pois para poder ir para Direito era necessário ter alemão e latim, além do Francês (ainda hoje o seu inglês é fraco – a cultura dominante era a francófona).

Pratica desporto – Dardo – no Sporting e participa na inauguração Estádio de Alvalade (o velhinho). No entanto e por influência do seu Pai, é sócio do Benfica. Teria agora 80 anos de sócio. No entanto, em repúdio à direcção de Vale e Azevedo, que prejudicou o rugby do Benfica por décadas, cancela a inscrição. Num país com a tal cultura de respeito à antiguidade, o SLB teria repescado este sócio. Adiante.

Falo de rugby, porque essa é uma parte – fulcral – da sua vida. No 1.º ano de Direito, vai a Madrid na equipe de futebol da Faculdade. Acontece que o seu “jeito” foi notado por parte dos colegas de curso da equipe de rugby (fica amigo de Dias da Cunha), que o convenceram que estava no desporto errado. Junta-se, pois, ao Grupo Desportivo de Direito do qual é, ainda hoje, Presidente da Mesa da Assembleia Geral.

Na Faculdade, por culpa própria, reprova o 1º ano (o melhor aluno do seu ano é André Gonçalves Pereira). Sem apelo é chamado para o serviço militar (a guerra não tinha ainda começado, estávamos em 1959). Desembarca no Funchal como Aspirante – com direito a notícia do jornal local. Na Madeira conhece a minha Mãe, a mais nova de 8, filha de um fazendeiro germanófilo e de uma devota católica de Missa diária.

Volta a Lisboa, já casado, disposto a acabar o curso. Nasce o meu irmão António. Vivem com a ajuda dos meus avós e mudam-se para a Lapa. A tradição de vivermos perto uns dos outros, será continuada pelas gerações seguintes.

Na Faculdade, novo chumbo. Desta feita às “mãos” do temível Soares Martinez que conclui a reprovação dizendo: Não foi mau de todo, mas o nosso exército precisa de oficiais (a guerra tinha, entretanto, começado): É que, à época, reprovava-se a uma cadeira e reprovava-se o ano, reprovava-se o ano (Regime do Bloco) e assentava-se praça. Outros tempos.

A hipótese da deserção, apesar de oposicionista, não se coloca: Podemos não gostar de quem nos governa, mas a Pátria está acima. Portanto, não foge às suas responsabilidades. Já como Alferes é enviado para o curso de Rangers, em Lamego – “o lugar mais frio do planeta”.

É destacado para o Ultramar, mas, com sorte, enviado para Timor onde não existe guerrilha. É acompanhado pelo seu irmão Carlos (podia ter pedido adiamento, mas não o fez) que já era internacional de rugby – pelo Benfica – e que foi, durante décadas, o português com o maior número de internacionalizações. Assim e de uma assentada, os meus avós ficam separados dos filhos por dois oceanos. E a minha Mãe também, do seu marido. Esses eram os tempos. Portugal tinha territórios ultramarinos e todos cumpriam a sua parte. Ou quase todos…

Mas a minha Mãe, determinada como era, pega no meu irmão e embarca no paquete Timor, carregado de tropas, com destino ao fim do mundo. Tinha 21 anos.

A viagem demora quase 3 meses devido ao fecho do Suez. Larga tropas ao longo do caminho. No Timor segue Ramalho Eanes – que sai em Macau – e o futuro líder da classe operária Arnaldo Matos, que vai até ao fim da viagem. A minha Mãe passa um mau bocado em Timor: Não confia nos indígenas, que não falam português e têm hábitos estranhos (além disso, sempre lhe pareceu que não gostavam “de nós”). O facto de ser loira de olhos azuis naquela terra pode ter ajudado a sentir-se olhada em demasia. As casas para os oficiais são básicas, mas têm direito a uma quantidade de mainatos (criados) e as praias são paradisíacas. Vive-se numa bolha: oficialato, funcionários públicos (maioritariamente mestiços) e alguns estrangeiros.

Em Timor o meu Pai dá aulas aos soldados de forma a acabarem o liceu (vários viriam mesmo, já na Metrópole, a acabar a licenciatura – um deles vira médico e, mais tarde, presidente da câmara de Sines) e funda o Atlético de Aileu Football Club, onde é presidente, treinador e jogador. Nesse fim de mundo, nasço eu, à luz do petromax e às mãos de uma parteira – com a ajuda do meu Pai – depois de uma viagem de Jeep Willy, por uma picada, até ao “hospital” de Dili. Na altura não havia televisões, senão era caso para reportagem. Mas era assim que se nascia. Sem dramas.

A minha Mãe tem 23 o meu Pai 27 e já viveram mais do que muitos idosos dos nossos tempos.

Para conseguir juntar um pé-de-meia, o meu Pai aceita fazer mais um ano onde termina o Império: passa a Tenente e a 2.º Comandante da Companhia. De volta a Portugal traz uma catatua e o nosso cão (o Timor) – que não equacionam deixar para trás. Na viagem passamos por: Singapura (onde compram o enxoval de electrodomésticos que hão de durar até ao final dos anos 70) Hong Kong e Cairo. Chegamos a Portugal. É tempo de voltar à Faculdade. E à Lapa. Estuda à noite. De dia trabalha no Ministério do Exército (de onde é corrido logo a seguir ao 25 e onde conhece e fica amigo de mais um colega: António da Cunha, que também virá a ter inúmeros filhos e netos jogadores de rugby – mas no Belenenses…).

Na Faculdade é colega – e fica amigo para a vida – de Jorge Sampaio e Vítor Wengorowius. Na Lapa somos vizinhos do referido Wengorowius, bem como de Nuno Portas, em casa de quem, os meus Pais assistem a serões de música de protesto e leitura de poesia. A filha mais nova deste último (assim como a filha de Wengorowius) fica das melhores amigas da minha irmã Catarina – entretanto nascida. Por perto mora igualmente o Prof. Adérito Sedas Nunes, ficando eu muito amigo do seu filho João (a Mãe deste, Maria Velho da Costa, também mora por perto). Acaba, finalmente, o curso e arranca no trabalho para o qual sempre se achou destinado: Advogado. Na Baixa faz o estágio com o antigo Bastonário Rodrigues Bastos e fica amigo do filho deste. Muda o escritório para a Sampaio e Pina. Volta ao rugby no “seu” Direito e organiza – até aos dias de hoje – o almoço da Companhia que comandou em Timor.

Vem o 25.

Acompanha Sampaio e Wengorowius em algumas das suas “aventuras” políticas. No entanto, não se “mete a sério” na vida partidária (nunca ganhou dinheiro na política e faz disso CV). Quer ser, e é, advogado. Colabora, quase sempre pro bono, com a Associação de Inquilinos de Lisboa (que, quando tomada pelo PCP, o dispensa sem apelo). Neste trabalho defronta invariavelmente amigos do rugby, colegas de curso e vizinhos da Lapa. Nunca corta relações com nenhum. Tenta, sempre, a quadratura do círculo. Sempre afirmou que o advogado é um colaborador da justiça. Desagradam-lhe os colegas que, influenciados pelas séries de tv americanas, visam apenas encontrar as fragilidades do sistema, criando incidentes, atrás de incidentes, com o único fito de safar o seu cliente (e não de se fazer justiça pois são coisas diferentes) por muito escroque que este possa ser (ring a bell?).

No Direito – cujos órgãos sociais eram compostos, antes do 25, por Marcello Caetano, Paulo Cunha e mais uns quantos, não arranja inimizades. Ainda hoje é amigo de Miguel Caetano, filho de Marcello e o último fundador vivo do clube.

É à conta deste estilo de ser, que, já como Presidente do clube, convence Krus Abecassis a ceder ao Direito o terreno em Monsanto (aumentado depois por Sampaio quando este é presidente da câmara), onde está construído o complexo desportivo que, justamente, tem o seu nome. Abecassis e Sampaio, podem descansar onde estão: A obra está feita, revitalizou a zona, tem uma boa relação com o vizinho Bairro da Boavista, tem centenas de jogadores, é uma potência do rugby nacional e não vive de apoios.

Concomitantemente é jurista do Comité Olímpico e Juiz do Tribunal Internacional do Desporto. E continua a advogar. É nomeado Presidente da Fundação do Desporto. Ajuda a eleger presidentes da Federação Portuguesa de Rugby. Faz parte das comitivas olímpicas a Barcelona e Sydney. Ajuda a redigir a Lei de Bases do Desporto. Assume cargos na Ordem dos Advogados (será que a OA desconhece quais os advogados mais velhos que continuam a trabalhar? Esquecem-se de honrar quem antes deles vieram…).

Os filhos já deixaram de jogar rugby (foram ambos internacionais como o Tio Carlos Nobre) agora é o tempo dos netos (8). Os amigos, os colegas e os camaradas da tropa começam a desaparecer. A mulher igualmente. Esta morte, mais do que tudo, deixa-o zangado, por se sentir impotente perante o desfecho inevitável.

Continua como advogado. Tem 90 anos. Chama-se Miguel Nobre Ferreira e é meu Pai.

Concluindo: Não pretendi tecer uma loa. Desejei mostrar, resumidamente, uma vida longa e que pode ser igual a muitas outras: Marcada por coisas boas, mas igualmente por sacrifício. Uma geração que viveu no Império e que o tentou defender – mesmo não concordando – mas viveu a sua perda e que (à boa maneira portuguesa) não esqueceu amigos e família, quando o caldo se entornou. Gente que viu: Senhas de racionamento na II Guerra Mundial, Norton de Matos e Humberto Delgado, amigos a morrerem no ultramar, o homem chegar à Lua, o 25 de Abril e o de Novembro, a entrada de Portugal na Europa, o telemóvel, os computadores, a falência do país, a pandemia. Estas são pessoas comuns a quem não são prestadas as homenagens que os responsáveis políticos só se lembram de dar a quem está doente. Esta geração – que a grande ceifeira nos vai retirando do seu convívio – fez tudo pela Pátria (muitos até o último sacrifício). Foi honesta, estudou e trabalhou. Sonhou sem egoísmos. A comparação com os anões actuais que, vivendo à conta da Europa, nunca pegaram numa arma, nunca se separaram de pais mulher e filhos para embarcar por 2 anos para um fim de mundo, mas aproveitaram o Bolonha e o Erasmus para subirem na vida, e que, mesmo assim, vociferam contra tudo e todos, deixa-os tristes. Mas ganham na comparação.

Camões colocou a fasquia muito alta quando escreveu: Daqueles que da lei da morte se vão libertando (pois esses serão, sempre, muito poucos). Mas, se nos ativermos ao pequeno mundo de cada um de nós, também o meu Pai conseguirá escapar a esse destino – o do oblívio – e talvez até, por mais gente do que é normal.