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(A) :: O que se sabe sobre o Harakat Ashab al-Yamin al-Islamia, o grupo que ataca alvos judaicos na Europa?

O que se sabe sobre o Harakat Ashab al-Yamin al-Islamia, o grupo que ataca alvos judaicos na Europa?

Sem histórico conhecido e possivelmente ligado ao Irão, o grupo atua através de indivíduos isolados. Já reivindicou ataques contra alvos judaicos em quatro países da Europa, divulgando-os no Telegram.

Manuel Nobre Monteiro
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O Harakat Ashab al-Yamin al-Islamia, um grupo que até há poucas semanas era praticamente desconhecido, está a ser investigado pelas autoridades europeias e israelitas após ter reivindicado vários ataques contra alvos judaicos, incluindo o incêndio de quatro ambulâncias comunitárias no bairro de Golders Green, em Londres. Estas ações levantaram alertas de segurança sobre uma possível expansão de redes ligadas ao Irão na Europa.

O ataque na capital inglesa ocorreu durante a madrugada de segunda-feira. Imagens de videovigilância divulgadas pela imprensa britânica mostram os suspeitos a dirigirem-se para junto de uma das ambulâncias e a usar o que parece ser um recipiente com combustível para incendiarem o veículo, pertencente à organização judaica Hatzola que se dedica a fornecer, a título gratuito, transporte hospitalar e apoio médico de emergência.

https://observador.pt/2026/03/23/quatro-ambulancias-da-comunidade-judaica-incendiadas-em-londres-policia-investiga-hipotese-de-ataque-antissemita/

Mas, afinal, que grupo é este?

Harakat Ashab al-Yamin al-Islamia significa “Movimento Islâmico dos Companheiros da Direita”, uma expressão de origem religiosa associada, no Islão, à ideia de recompensa divina. De acordo com o Telegraph e o Independent, o grupo é descrito como recém-formado e não tem registos nas bases de dados de contraterrorismo. E até há cerca de três semanas não tinha qualquer presença nas redes sociais.

A atividade do grupo começou a ser detetada no início deste mês, quando foram identificadas várias ações em diferentes países europeus num curto espaço de tempo. Entre 9 e 14 de março, o grupo reivindicou uma explosão junto a uma sinagoga em Liège, um ataque com explosivos contra um alvo judaico em Atenas, um incêndio numa sinagoga em Roterdão e a colocação de um engenho explosivo numa escola judaica em Amesterdão. Nenhum destes ataques provocou vítimas, tendo ocorrido sobretudo durante a noite e com foco em edifícios.

As autoridades israelitas consideraram, num relatório recentemente divulgado, que estes incidentes fazem parte de uma campanha de intimidação e de guerra psicológica dirigida às comunidades judaicas na Europa. O documento afirma que “o ataque está de acordo com um padrão mais amplo de incidentes antissemitas semelhantes em toda a Europa, incluindo os casos recentes na Bélgica, Países Baixos e Grécia, que foram ligados à mesma rede alinhada ao Irão”.

O ministro da diáspora israelita, Amichai Chikli, afirmou que “os recentes acontecimentos na Europa não são incidentes isolados, mas sim parte de um padrão de ação preocupante”. “As redes terroristas ligadas ao eixo de resistência iraniano estão a tentar alargar a sua área de atuação às cidades e comunidades judaicas da Europa”, sublinhou, citado pelo Times of Israel.

O grupo poderá operar através de células locais ou indivíduos isolados na Europa, coordenados a partir do estrangeiro. Este método, já associado a operações iranianas no passado, permite realizar ataques mantendo uma distância que dificulta a atribuição direta de responsabilidades.

A forma como os ataques são divulgados — através de canais ligados ao Hezbollah e ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica — reforça esta suspeita, embora não exista confirmação oficial direta. O grupo tem utilizado a aplicação Telegram para divulgar vídeos e mensagens dos ataques.

Um desses vídeos reivindica que o alvo principal em Londres seria a sinagoga Machzike Hadath. Numa outra mensagem, o grupo deixou um aviso dirigido à União Europeia, apelando a que deixe de alinhar ou depender dos interesses dos Estados Unidos e de Israel.

Os especialistas ouvidos pelos jornais britânicos destacam também o símbolo do grupo, que apresenta um braço erguido a segurar uma arma apontada para a direita sobre um globo, muito semelhante aos emblemas de organizações alinhadas com o Irão — como o Hezbollah (no Líbano), Kataib Hezbollah (no Iraque) e a Guarda Revolucionária Islâmica (no Irão). A principal diferença é a arma representada, que não é a habitual AK-47, mas sim uma espingarda de precisão.

“Analistas sugerem que essa diferença pode ser intencional, servindo como uma tática para criar uma negação plausível e ocultar a atribuição direta”, lê-se no relatório das autoridades israelitas.

O nome da organização é também semelhante ao usado pela milícia iraquiana Harakat Ansar Allah al-Awfiya, que foi classificada como organização terrorista pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos.

“O surgimento do Harakat Ashab al-Yamin al-Islamia destaca o risco crescente de ataques coordenados digitalmente ou facilitados por terceiros, visando instituições judaicas na Europa”, concluiu o relatório.