Uma das moções setoriais já entregue e que será debatida no congresso do PS deste fim de semana é assinada por alguns nomes de uma eventual geração futura do partido — a começar pelos promotores JS Miguel Costa Matos e Pedro Costa (próximos de Duarte Cordeiro), e exige que o partido faça uma reflexão. E que sobretudo comece a “sacudir a imagem de parceiro do Governo”, afirmando-se como alternativa.
O PS não deve “relegar-se a parceiro de consensos e acordos com o PSD”, consta no texto da moção a que o Observador teve acesso e que coloca como objetivo do partido neste período sem eleições “afirmar-se como alternativa de governo”. Isto implica “sacudir a imagem do parceiro do Governo”, mas “não significa recusar entendimentos” — e neste ponto exemplificam com várias pontes estendidas pelo PS em direção à direita, tenha sido o de Mário Soares em 1983, os de António Guterres em 1996 e 1999 e até o de António Costa, mas concretamente em 2018, saltando por cima da “geringonça”, aterrando diretamente no acordo que o então primeiro-ministro fez com o líder do PSD Rui Rio para a descentralização.
“O PS não deve nem endossar nem comprometer a estabilidade política, mas não deve também abdicar da clareza da sua oposição ou da
audácia das suas ideias”, defendem os socialistas que apontam como “fundamental normalizar o funcionamento das instituições e não
confundir o debate político com a rutura em direção a uma crise política” — isto numa altura em que o diálogo com o PSD está difícil, um clima agravado pela problemática escolha de juízes para o Tribunal Constitucional.
Nestes acordos o PS deve fazer como no passado e “dialogar nos seus próprios termos, de igual para igual, nos temas que considerou centrais para a vida dos portugueses”. E, com tudo isso em vista, ir usando um Presidente da República que já mostrou ser apologista de consensos. Os autores da moção consideram que em algumas matérias “o Presidente poderá agregar vontades e criar condições de entendimento. Cabe ao PS liderar a agenda, antecipando essas áreas e, para cada uma, definir as convergências possíveis e as linhas vermelhas necessárias. O PS deve aproveitar a existência de um árbitro institucional para clarificar o espaço de diálogo e o espaço de confronto”, escrevem, numa altura em que em Belém está o socialista António José Seguro.
Ao mesmo tempo, é a uma frase com que o antigo líder António Costa enfrentou Seguro, em 2014, que recorrem para cravar essa necessidade de afastamento da direita : “Se pensarmos como a direita, acabamos a governar como a direita”. “Parafraseando António Costa, se pensarmos como a direita pensa, não só acabaremos a governar como a direita, como seguramente deixaremos que esta governe como quer”, escrevem os dirigentes socialistas que também acreditam que ter PS e PSD como “parceiros estruturais”, isso “abre espaço à extrema-direita para captar o descontentamento”.
A moção procurou juntar, por baixo dos nomes de dois ‘cordeiristas’ — Duarte Cordeiro é um dos nomes que se posiciona para o futuro, que não vai ao congresso mas tem conhecimento desta iniciativa –, elementos de uma “geração alargada”, entre os 30 e os 40 anos, incluindo quatro presidente da Câmara (Ricardo Calé, de Olhão, Nuno Jorge Lino Mira, da Chamusca, Marcelo Guerreiro, de Ourique, e Olavo Câmara, de Porto Moniz. No grupo está também a atual líder da JS, Sofia Pereira, o antigo líder da mesma estrutura, Ivan Gonçalves. E ainda outros nomes fortes do pedronunismo, como Nuno Araújo, Hernâni Loureiro, Hugo Oliveira ou Frederico Francisco, ou ainda Hugo Pires, Luís Testa e Álvaro Beleza, um dos socialistas que foi dos principais apoiantes da candidatura de António José Seguro a Belém.
Impaciência com Carneiro, críticas ao costismo e preparar o “comboio de eleições”
O texto deixa transparecer alguma impaciência com a tática da atual direção — da qual Pedro Costa faz parte (é um dos secretários nacionais escolhidos por José Luís Carneiro) — ao defender que “o PS tem de saltar de cima do muro do ‘nim’” e ao recusar que o partido vá a jogo “com posições aquém do que verdadeiramente defende”. Os autores acreditam que a direita já conseguiu que ganhassem tração “ideias simples”, como a “asfixia fiscal e burocrática, de que o Estado não funciona ou de que à esquerda falta ambição para a economia” e aconselha o PS a ripostar. “Temos de fazer o mesmo para que, mais do que uma ou outra eleição, possamos vencer a batalha das ideias”, escrevem quando dizem que “as pessoas respeitam uma posição moderada, sensata e realista. Não respeitam uma posição indecisa, cheia de ‘ses’, ‘mas‘ e outros condicionalismos.”
Na análise do contexto político, os socialistas desafiam, assim, o partido, a ficar longe do “beco sem saída” em que pode cair, com uma estratégia menos vincada face ao Governo. Dizem mesmo que o “PSD enfrenta um desgaste acelerado” mas que ele não faz com que o PS seja automaticamente alternativa, até porque o Chega entrou na equação e com roubos diretos ao PS. Este grupo de socialistas reconhece que, neste momento, o “PS disputará com o Chega uma parte do eleitorado desiludido com a AD e que o partido de André Ventura “concorre diretamente com o PS na representação das classes trabalhadoras.”
O atual quadro político e o “período de mais de três anos sem eleições” faz com que a “reflexão dentro do PS não pode ser evitada, suspensa ou condicionada: nem pela unidade em torno do líder nem pelo frenesim imparável da conjuntura”. Depois da derrota das últimas legislativas, em maio de 2025, o partido passou a terceira força política no Parlamento e teve vários altos dirigentes a pedirem a Carneiro — que não tardou em lançar-se para as diretas, mal Pedro Nuno Santos se demitiu — tempo para analisar o que se tinha passado. Mas o socialista não esperou e, com o argumento da proximidade das autárquicas e também das presidenciais, chutou a reflexão para depois desse ciclo de eleições.
A caminhada de Carneiro nestes primeiros nove meses de liderança tem sido de resolução das várias questões eleitorais e internas, mas agora é desafiado de dentro a não ficar à espera que o Governo caia de podre. “Esperar pelo desgaste do adversário nunca foi suficiente para quem quer ser alternativa”, avisam ao mesmo tempo que aconselham o PS a não ficar preso à questão ideológica, nesta reflexão. “É tão redutor andar agarrado ao ‘esquerdómetro’ ou achar que a maioria sociológica e política de direita atualmente configurada está para durar. Atualmente, a decisão de voto parece cada vez menos ideológica, em especial no grande número de eleitores que têm escolhido a extrema direita”, acreditam.
Nesta análise do passado também entra a longa governação de Costa, pai de Pedro Costa, e que merece algumas críticas nesta moção. Ainda que se faça a defesa das conquistas — nomeadamente “a maior reforma” que foi “o semear da esperança, que apenas pode vir pela transformação económica e financeira do país” –, apontam-se vários problemas. O primeiro é não ter usado a margem orçamental para “valorizar rendimentos da classe média”, mas também a valorização de carreiras da função pública, a lentidão nas obras públicas, a “revolta” que se instalou nas zonas metropolitanas por causa do preço da habitação e também as falhas na “integração dos fluxos migratórios.”
Como objetivos para o futuro imediato do partido, estes socialistas pedem que se aposte na formação de quadros, a disponibilização aos militantes de uma espécie de cartilha com dados estatísticos e argumentos, ter sondagens internas a apoiar a construção de políticas e “criar novos rostos”. Querem o partido preparado para “um comboio de eleições”, por isso defendem que o comece a “explorar novos modelos de seleção de cargos diretivos e de representação”. Aproveitar a travessia do deserto para preparar a tentativa de regresso ao poder.