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Defesa da Europa: que papel para a IA?

Hoje, o poder reside na informação, na velocidade com que é processada e na capacidade de interpretar padrões quase impercetíveis num infinito de dados.

Hélder Alves
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A Europa vive um momento de transformação na forma como encara a sua segurança. O modelo que, durante décadas, sustentou a estabilidade, a prosperidade e a proteção das sociedades europeias, está hoje sujeito a desafios que evoluem rapidamente e que ultrapassam fronteiras tradicionais. Fenómenos como a utilização de drones em espaços sensíveis, ciberincidentes que afetam infraestruturas críticas, interferências nas comunicações ou campanhas de desinformação com impacto social, tornaram‑se mais frequentes e exigem novas respostas coordenadas. Este conjunto de ações, muitas vezes interligadas, enquadram‑se no que se designa por “guerra híbrida”, caracterizada pela combinação de diferentes métodos destinados a pressionarem ou influenciarem as democracias contemporâneas.

O que está em causa não é apenas a preparação técnica para enfrentar este tipo de ameaça, mas a capacidade da Europa preservar a sua autonomia estratégica. A resposta tradicional, centrada na defesa física das fronteiras, tornou-se insuficiente. Hoje, o poder reside na informação, na velocidade com que é processada e na capacidade de interpretar padrões quase impercetíveis num infinito de dados. Este é o domínio onde a inteligência artificial se tornou num ativo tão determinante quanto, no passado, o foram os recursos naturais ou as forças militares convencionais. Mas é também o terreno onde a dependência externa representa uma vulnerabilidade crítica. Quem controla o algoritmo controla a informação e quem controla a informação controla a decisão.

A soberania tecnológica, especialmente no domínio da inteligência artificial, não é apenas uma ambição, é uma necessidade estrutural. O controlo europeu sobre os dados, os algoritmos, o software, as comunicações e as infraestruturas digitais, que suportam os sistemas de segurança e defesa, tornou-se indispensável. Sem isso, a Europa arrisca-se a tomar decisões estratégicas condicionadas por tecnologia estrangeira, comprometendo a sua capacidade de agir em defesa própria. A independência tecnológica é, neste contexto, o novo pilar da independência política.

Para enfrentar a realidade que hoje molda o espaço europeu, são necessárias três capacidades fundamentais. A primeira é a superioridade cognitiva, ou seja, a aptidão para compreender mais rapidamente, e com maior profundidade, a multiplicidade de sinais que chegam de sensores, redes, plataformas digitais, fronteiras, serviços de emergência ou infraestruturas críticas. Esta mesma superioridade implica transformar dados dispersos em conhecimento útil e de forma antecipada, permitindo ver o que o adversário ainda não revelou. A segunda capacidade é a autonomia operacional, para atender a conflitos que se desenrolam em frações de segundo e exigem sistemas capazes de atuar com rapidez, coerência e coordenação, libertando o ser humano de tarefas impossíveis de executar ao ritmo exigido. A terceira tem a ver com ciber-resiliência, que não se limita à proteção dos dados, mas garante igualmente a integridade das comunicações, das redes e do próprio espetro eletromagnético onde hoje se trava grande parte do confronto invisível.

Nada disto é teórico. O contexto atual mostra como estas capacidades são aplicáveis a cenários civis, como a gestão de catástrofes, proteção de fronteiras, defesa de serviços essenciais, como até em cenários militares multidomínio. A guerra híbrida dissolve fronteiras artificiais. Um ataque pode começar com uma campanha digital e evoluir para um ataque físico, ou vice-versa. Esta fusão entre domínios exige também uma fusão entre as respostas, com tecnologia integrada, interoperável e capaz de operar de forma robusta, mesmo em ambientes degradados.

A Europa tem, portanto, uma escolha histórica pela frente: ou investe agora na construção de uma inteligência artificial soberana, capaz de garantir autonomia estratégica num mundo cada vez mais competitivo; ou aceita um futuro de dependência tecnológica, que comprometerá a sua segurança e os seus valores fundamentais. Cada dia de atraso aumenta a exposição a riscos, enfraquece a capacidade de decisão e reduz o espaço de manobra geopolítico.

A decisão é clara, a inteligência artificial soberana deve tornar-se um projeto estruturante, europeu, transversal e urgente. Não se trata de competir por inovação, mas de garantir a continuidade de modelos de sociedade baseados na liberdade, na democracia e no Estado de direito. Num ambiente global onde a tecnologia define poder, a soberania tecnológica é a única forma da Europa garantir que a proteção dos seus cidadãos permanece, de facto, nas suas próprias mãos. É por isso que a aposta numa IA soberana deixou de ser uma opção e tornou‑se a decisão estratégica que a Europa já não pode adiar.