A Europa contemporânea construiu para si própria a narrativa confortável de que a violência ideológica pertence ao passado; encerrada em arquivos, museus e documentários. Uma espécie de superstição moderna segundo a qual o progresso material e institucional teria domesticado, de forma definitiva, os impulsos mais destrutivos da acção política.
É uma ideia elegante, porém, profundamente ingénua.
Porque, do ponto de vista antropológico, a violência não é um acidente da história — é uma constante da condição humana. E é precisamente aqui que a Europa revela uma curiosa assimetria: condena a violência em abstracto, mas tende a relativizá-la quando esta se apresenta revestida de certas intenções morais.
Os chamados “anos de chumbo” foram um laboratório claro dessa tensão.
Em Itália, as Brigadas Vermelhas não surgiram de um vazio, mas num ambiente intelectual onde a ruptura revolucionária era, em certos círculos, romanticamente tolerada. O assassinato de Aldo Moro expôs o resultado último da indulgência de que quando as teorias se convergem em acções, o sangue deixa de ser uma mera metáfora. Giulio Andreotti reagiu a este episódio com sobriedade institucional — “o Estado não pode ceder à chantagem da violência” — mas a frase contém uma verdade mais profunda: o Estado existe precisamente porque a violência é sempre uma possibilidade real.
E, no entanto, a localização geográfica não altera a natureza deste fenómeno.
Na Alemanha Ocidental, a Fraçāo do Exército Vermelho traduziu, em prática, uma visão do mundo onde o indivíduo se dissolve numa causa abstracta. O “Outono Alemão” não foi apenas uma crise política; foi a manifestação de um impulso recorrente: o de substituir a ordem imperfeita por uma promessa absoluta, mesmo que isso implicasse destruir o que já existia. Helmut Schmidt percebeu este perigo com clareza rara ao afirmar que “o Estado de direito deve defender-se sem perder a sua alma”. Mas talvez a questão mais incómoda seja perceber quantos estão verdadeiramente dispostos a defender essa mesma alma quando a violência se apresenta como “moralmente justificável”.
Em França, a Action Directe seguiu a mesma devota gramática de que a História tem um sentido inevitável e que a violência pode acelerar a sua chegada. François Mitterrand declarou que “a violência política não é uma alternativa democrática”. A frase é correcta, mas pode revelar também uma subtil fragilidade. A necessidade de se reafirmar o óbvio pode ser, muitas vezes, sinal de que esse óbvio já começou a ser corroído.
Descendo até Espanha, os GRAPO actuaram num momento particularmente sensível que foi a transição de um regime autoritário para uma democracia. Aqui, a violência apresentava-se como paradoxalmente “libertadora”, tentando impor pela força aquilo que afirmava defender em teoria. Felipe González afirmou mesmo que “a democracia deve ser firme contra quem a quer destruir pela força”. Mas a firmeza, como a história demonstra, raramente é distribuída de forma homogénea — depende, demasiadas vezes, de quem exerce essa mesma violência e de quem a interpreta.
Portugal, inevitavelmente, não constitui excepção. As FP-25 surgiram num contexto onde a revolução ainda era um memória recente e, para alguns, um projecto inacabado. A frase de Mário Soares — “não há causas que justifiquem o terrorismo numa sociedade livre” — permanece como uma linha de fronteira moral. O problema não está na sua formulação, mas na sua aplicação: linhas de fronteira são fáceis de traçar; porém difíceis de manter, quando atravessá-las parece, por momentos, conveniente.
É neste enquadrameMnto que o episódio recente em Lisboa deve ser lido. Durante a “Marcha pela Vida”, um indivíduo lançou um cocktail Molotov na direcção de manifestantes. O engenho não deflagrou e não houve vítimas. O agressor acabou detido.
E, ainda assim, algo de extrema importância se revelou. Não apenas o acto em si, mas a sua imediata digestão pública e a rapidez com que se procurou enquadrar, minimizar e psicologizar a violência.
Antropológicamente, esta reacção revela que as sociedades não apenas condenam a violência — classificam-na. E partindo do princípio de que essas classificações raramente são neutras; há violências intoleráveis e violências explicáveis.
A diferença entre o século XX e o presente não está na natureza da violência, mas na sua forma. Quer de forma organizada e ideológica; quer mais fragmentada e difusa, a mesma raiz é partilhada: a convicção de que a realidade pode — “e deve” — ser forçada a alinhar com uma determinada visão do mundo.
A Europa não superou a violência política; apenas a tornou menos visível e, em certos casos, mais selectivamente interpretada. Como advertiu Helmut Schmidt, o desafio é preservar a alma do Estado de direito.