Há duas conclusões principais das eleições em França. Uma delas é relevante para as eleições presidenciais do próximo ano. A outra tem um significado mais profundo e vai marcar cada vez mais a política francesa, e num sentido negativo.
Em primeiro lugar, o Rassemblement National e a França Insubmissa não conquistaram os resultados que esperavam. O partido de Marine Le Pen cresceu e conquistou 9 municípios. Mas a maioria foram cidades pequenas e médias. Entre as grandes cidades, ganhou Nice, sem dúvida uma grande vitória (a quinta cidade francesa). Mas perdeu em Marselha, o objectivo principal, e em Toulon. Não foi uma derrota, mas também não foi uma grande vitória.
A França Insubmissa de Jean-Luc Melenchon cresceu ainda menos e conquistou poucos municípios. Não conquistou nenhuma grande cidade. O candidato “Insubmisso” perdeu em Toulouse, o maior alvo da esquerda radical e uma cidade muito importante e sede da Airbus. Mas a França Insubmissa faz parte das coligações de esquerda que conquistaram cidades importantes, como Lyon e Nantes.
O partido socialista e os principais partidos do centro-direita alcançaram resultados melhores do que muitos calculavam. As grandes vitórias socialistas foram indiscutivelmente em Paris e em Marselha. Os respectivos vencedores tiveram ainda um mérito que deve ser louvado. Recusaram o apoio da extrema-esquerda de Melenchon e mesmo assim conseguiram ganhar. Os eleitorados das duas maiores cidades francesas disseram não à extrema-esquerda.
Os resultados eleitorais mostram que a vitória do candidato do Rassemblement National nas eleições presidenciais do próximo ano não é inevitável. Pode ganhar o candidato do partido socialista ou, mais provável, o candidato do centro-direita. Neste momento, Édouard Philippe, líder do pequeno partido de centro-direita, Horizons, é quem está melhor posicionado para conquistar a presidência no próximo ano. As eleições municipais mostraram, mais uma vez, que a direita é maioritária em França.
A segunda conclusão é muito preocupante. O radicalismo islâmico começa a ser um factor importante nas eleições francesas, especialmente nas municipais. As cidades com maior percentagem de população muçulmana são as mais radicalizadas, onde o Rassemblement National consegue os melhores resultados, como Nice e Marselha, ou onde a França Insubmissa é necessária para as esquerdas vencerem, como Lyon. Há, em França, uma radicalização crescente das populações muçulmanas. A Irmandade Muçulmana e até grupos apoiados e financiados pelo Irão estão cada vez mais presentes na vida pública francesa precisamente com o objectivo de radicalizar as populações muçulmanas.
Além disso, o islamismo radical aliou-se à extrema-esquerda de Melenchon. Os seus adversários são os mesmos, o capitalismo norte-americano e Israel, como a face do “colonialismo ocidental” no Médio Oriente. As suas causas e aliados são os mesmos, a “libertação” da Palestina, o Hamas e a república teocrática iraniana. O objectivo comum é levar a “causa palestiniana” para França, criando “pequenas Gazas” governadas pela coligação dos radicais, islâmicos e de esquerda.
Esta dupla radicalização levou a uma reação, igualmente radical. Muitos franceses – a maioria das classes trabalhadores e os mais pobres – olham para a “islamização” de partes do território francês como uma “invasão muçulmana.” Para esses franceses, é fundamental salvar a “civilização e a cultura francesas.” O Ressemblement National dá um sentido político a essa luta nacionalista, e por isso tem crescido eleitoralmente. Entre a “causa palestiniana” e as “Gazas” da aliança “gauche-islamiste”, e o “choque de civilizações” do Rassemblement National, tudo pode correr muito mal em França. É o que mostra uma análise cuidada das eleições municipais.