Há uma ferida que a espécie nunca tratou. Não por falta de inteligência, mas porque a ferida é a própria espécie.
O ser humano é o único animal que sabe que vai morrer e constrói, a partir dessa certeza, pirâmides, catedrais, poemas, religiões, impérios, filosofias e tecnologias. Tudo o que a humanidade edificou é, na sua raiz mais honesta, uma negociação com a extinção pessoal. Ernest Becker chamou-lhe “o terror da morte como motor da cultura”. Mas é mais do que isso: é o terror de ter existido sem saber porquê.
Nenhuma outra espécie carrega este peso. O polvo resolve problemas com nove cérebros distribuídos pelo corpo sem nunca ter perguntado o que é. O corvo usa ferramentas sem ter inventado a teologia para justificar o facto de as usar. Apenas o Homo sapiens acordou um dia com a consciência de si próprio e ficou paralisado perante a pergunta que esse acordar gerou.
E a resposta que deu a essa pergunta foi sempre a mesma, sob mil formas diferentes: inventou um sentido exterior a si próprio. Um deus, uma nação, uma classe, um progresso, uma raça, um mercado. Qualquer coisa que justificasse a existência individual como parte de algo maior e, portanto, menos aterrador.
O problema é que nenhuma dessas respostas sobreviveu intacta à sua própria história. Os deuses morreram com as civilizações que os criaram. As nações provaram ser ficções capazes de assassinar em massa os seus próprios filhos. O progresso produziu Auschwitz e a bomba atómica com a mesma engenharia que produziu a penicilina e o saneamento básico. O mercado livre criou uma abundância sem precedente e, simultaneamente, a primeira extinção em massa causada por uma única espécie desde o impacto do asteroide que eliminou os dinossauros.
Esta não é uma acusação moral. É uma observação ontológica sobre a estrutura mais profunda do que somos. Somos o paradoxo encarnado. O único ser conhecido no universo capaz de chorar perante a beleza de outro ser e, com a mesma mão que enxuga as lágrimas, construir câmaras de gás. Não são dois tipos de humanos. É o mesmo. Com frequência, é o mesmo indivíduo, na mesma semana, a viver no mesmo coração.
As tradições espirituais perceberam isto e propuseram a redenção, a iluminação, a salvação, como saída do paradoxo. A ciência propôs a razão e a educação. A filosofia política propôs as instituições e os direitos. Todas falharam não porque fossem erradas na intenção, mas porque tentaram resolver o paradoxo em vez de o integrar. E o paradoxo não se resolve. Habita-se.
Pela primeira vez na história, as consequências das escolhas desta espécie são planetárias e irreversíveis em escalas geológicas. O Antropoceno não é apenas uma designação técnica: é o diagnóstico de que o animal que se perguntou quem era se tornou uma força geofísica sem ter ainda respondido à pergunta. Atuamos à escala do planeta com uma consciência ainda calibrada para a tribo, para o trimestre, para o ciclo eleitoral.
A crise climática, a erosão da biodiversidade, a concentração de poder nas plataformas digitais, os conflitos de recursos que se anunciam, não são problemas técnicos à espera de soluções técnicas. São sintomas de uma arquitetura de consciência que não evoluiu ao ritmo dos instrumentos que criou.
Quem somos, na realidade?
Somos uma espécie inacabada. Cosmicamente jovem: duzentos mil anos num universo com 13,8 mil milhões. Menos que o último segundo de um dia cósmico. Somos uma experiência ainda em curso, um processo que pode ir em direções radicalmente diferentes, dependendo das escolhas feitas agora, com lucidez ou sem ela.
Somos o universo a tentar compreender-se a si próprio, usando como instrumento um cérebro que evoluiu para apanhar frutos e fugir de predadores, e que de alguma forma, por acidente ou por desígnio, desenvolveu a capacidade de perguntar o que é o tempo, o que é a consciência, e se existe algo para além da matéria que se organiza.
Somos a aposta mais improvável que a evolução alguma vez fez. Um animal frágil, sem garras nem velocidade, que sobreviveu por cooperação, por ficção partilhada, por capacidade de imaginar o que ainda não existe.
A pergunta “quem somos?” não tem resposta. Por este caminho em que seguimos, nunca terá. Mas talvez a urgência de a fazer nunca tenha sido tão pertinente como agora. Porque o que está em jogo não é uma civilização. É a continuidade do único ser conhecido no universo que se perguntou o que era. E que ainda não sabe a resposta, porque não há uma resposta a obter, mas sim a construir.
Será que teremos tempo e discernimento para a construir?