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(A) :: Como explicar o súbito movimento de Trump?

Como explicar o súbito movimento de Trump?

Se Trump não está realmente a abandonar a ameaça, mas apenas a suspende-la verbalmente para ganhar vantagem, então o anúncio de conversações pode ser apenas um isco.

José António Rodrigues do Carmo
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Trump virou outra vez o tabuleiro e as análises mais comuns, voltam, na minha opinião, a falhar o alvo por muitos parsec, porque partem sempre do pressuposto de desvalorização da inteligência do Presidente americano.

Mas pode muito bem ser outra coisa.

Anteontem, Trump tratava de obrigar o Irão a abrir o Estreito. Com coerção directa para forçar a sua submissão. Levar a situação à beira do abismo, deixando o risco de catástrofe pairar sobre todos. Deixar amadurecer a ameaça, criar pânico, mobilizar observadores e obter efeitos psicológicos e políticos. O prazo de 48 horas serviu para apertar gargantas.

Ontem adiou por  5 dias, mas isso não só não destrói a coerção, como a refina. Combinando a ameaça credível com aparente abertura negocial, Trump está a dizer: “Ainda te posso esmagar, mas concedo-te uma saída.”

Parece moderação, mas é  apenas coerção com açúcar.

Há aqui também uma nota de  decepção. Se Trump não está realmente a abandonar a ameaça, mas apenas a suspende-la verbalmente para ganhar vantagem, então o anúncio de conversações pode ser apenas um isco. Serve para confundir o Irão, dividir os seus apoiantes, reduzir a urgência das suas contramedidas ou desactivar a retaliação contra os  estados do Golfo. Trump pode estar a vender soníferos enquanto afia a faca.

A ideia essencial é  ocultar intenções reais, manipular percepções, usar anúncios, pausas, ambiguidades e negociações aparentes para preparar melhor a acção decisiva. É encenação operacional.

Além disso, em estratégia, a mensagem é muito importante. Ao adiar, Trump envia sinais diferentes para públicos diferentes.

Para terceiros: “Sou responsável, dei margem, quis negociar.”

Para o Irão: “Continuo a mandar no ritmo da crise.”

Para os Estados do Golfo:  “Tenho tempo para vos proteger.”

Para os seus apoiantes: “Não recuei, estou a escolher o momento.”

Fazer bem isto é dirigir todo o teatro.

Quanto ao Irão, a ameaça de atacar os Estados do Golfo é a clássica dissuasão pela ameaça de punição. O Irão não consegue impedir os EUA de destruir as centrais, mas tenta elevar o custo da acção, prometendo castigo em pontos vulneráveis. É como quem diz:  “Podes bater-me, mas não sais daqui sem pagar.”

O adiamento de Trump  pode pois ser lido como tentativa de neutralizar precisamente essa retaliação. Não é um recuo, mas sim uma janela de preparação para reduzir os custos colaterais da escalada. Antes de avançar Trump tenta blindar os Países do Golfo, protegê-los e prepará-los para que um ataque iraniano seja menos eficaz. Observa os preparativos do Irão e tira notas. Ou seja, o adiamento para negociar é apenas um eufemismo para um intervalo de preparação.

Também pode acontecer que Trump esteja a fatiar a coisa. Não executa logo o passo mais brutal, mas vai fatiando pressão, normalizando a submissão gradual, mantendo o Irão  permanentemente em desequilíbrio. Não te bato hoje. Falo,  adio, pressiono, isolo, amedronto, enfraqueço, separo-te dos teus. Um dia dás por ti de joelhos sem saberes exactamente em que momento começou a rendição.

Em termos psicológicos, Trump está a induzir na liderança iraniana a sensação de que tudo depende do seu  capricho. Hoje são 48 horas, amanhã 5 dias, depois conversações, depois talvez novo ultimato. A imprevisibilidade controlada é uma arma poderosa. O objectivo não é apenas ameaçar o Irão, mas colonizar-lhe o cálculo mental. Fazer com que passe a reagir ao calendário dos EUA, em vez de agir segundo o seu próprio interesse.

Simplificando, Trump pode estar a fingir boa vontade para ganhar tempo, parecer razoável, proteger os seus flancos e vibrar o golpe em condições ainda mais vantajosas.

Veremos daqui a pouco tempo se tenho razão.