Durante mais de um século, o petróleo foi o principal determinante do poder económico global. Guerras foram travadas, alianças geopolíticas foram construídas e impérios industriais ergueram-se em torno do acesso aos hidrocarbonetos provenientes dos combustíveis fósseis. Controlar o petróleo e o gás natural significava, em grande medida, controlar a economia moderna.
Mas essa era está a chegar ao fim. A economia global está a entrar numa nova fase: a era da electricidade.
A electricidade está a tornar-se o recurso estratégico central da economia europeia. Dados da Bloomberg New Energy Finance indicam que a União Europeia investiu cerca de 455 mil milhões de dólares na transição energética em 2025, um aumento de 18% face ao ano anterior. Nos Estados Unidos, mesmo com a actual Administração Trump o investimento atingiu 378 mil milhões de dólares, tendo subido 3.5% face a 2024.
Nas próximas décadas, a competitividade económica, a resiliência industrial e a autonomia geopolítica dependerão cada vez menos do acesso ao petróleo e ao gás natural e cada vez mais da disponibilidade de electricidade renovável, abundante e competitiva. Por outras palavras, a electricidade está a tornar-se o novo petróleo da economia europeia.
Mais do que política climática, vivemos uma electrificação estrutural. Os transportes estão a passar dos motores de combustão interna para a mobilidade eléctrica. O aquecimento está a evoluir das caldeiras a gás para bombas de calor. Indústrias e empresas começam a substituir combustíveis fósseis por processos electrificados. Ao mesmo tempo, surgem novos sectores altamente intensivos em electricidade, como a inteligência artificial, os centros de dados, a automação industrial ou a produção de hidrogénio.
Segundo a Agência Internacional de Energia, a procura de electricidade deverá crescer pelo menos 2,5 vezes mais rapidamente do que a procura global de energia até 2030. Na União Europeia, poderá representar mais de 60% do consumo final de energia em 2050, face a cerca de 23% actualmente.
A crise na Ucrânia expôs a vulnerabilidade europeia aos fósseis importados. Em contraste, o sol, o vento e a água são recursos domésticos que garantem soberania. Portugal, com vastos recursos renováveis, tem uma oportunidade estratégica para atrair indústrias electro-intensivas (química, aço, digital).
Cada megawatt de electricidade renovável produzido em território europeu reduz a dependência energética externa e contribui para maior estabilidade económica. Neste contexto, a transição energética deixa de ser apenas uma política climática e passa a ser também uma estratégia de soberania energética e de competitividade económica.
Essa competitividade será cada vez mais determinada pelo acesso a electricidade abundante, previsível e barata. Sectores como o aço, os químicos, os fertilizantes, o hidrogénio ou as infraestruturas digitais tenderão a localizar-se onde a electricidade seja mais competitiva. Países como Portugal têm aqui uma oportunidade estratégica.
Se a electricidade é o novo petróleo, então as redes eléctricas são os novos gasodutos e oleodutos. Uma economia electrificada exige redes mais extensas, digitalizadas e interligadas, capazes de integrar grandes volumes de energia renovável e gerir padrões de consumo mais complexos.
O século XX foi marcado pela geopolítica do petróleo e do gás natural. O século XXI será cada vez mais marcado pela geopolítica da electricidade.
A Europa tem a oportunidade de liderar esta transformação. Mas para isso terá de reconhecer uma realidade simples: quem controlar a electricidade competitiva controlará uma parte decisiva da economia do século XXI.