Há um conjunto de informações que, isoladamente, podem ser descartadas como especulação vazia ou ruído, gerado pelos serviços de informações, mas que, quando analisadas em conjunto, apontam para uma evolução técnica consistente no programa de mísseis do Irão e para uma possível mudança de patamar no alcance efetivo dos seus sistemas de armas.
Segundo o Wall Street Journal, citando vários responsáveis norte-americanos, o Irão terá lançado dois mísseis balísticos de alcance intermédio (IRBM) contra a base conjunta EUA-Reino Unido em Diego Garcia, no Oceano Índico, a cerca de 4.000 km do território iraniano, sendo que um dos mísseis terá falhado em voo e o outro terá sido abatido por um destroyer norte-americano com interceptor SM-3, não havendo confirmação de interceção bem-sucedida e não tendo nenhum dos mísseis atingido o alvo.
Poderia ter-se tratado de um teste de foguetões inicialmente concebidos para o ambicioso programa espacial iraniano. Em 2015 o Irão tinha exibido uma maquete de um veículo espacial tripulado e embora a administração do programa espacial tenha declarado que tinha colocado esse programa em suspenso em 2017, em 2021 houve novas notícias sobre a sua reactivação com planos para lançar um astronauta para o espaço em 2026 e, de facto, em 2023, o Irão lançou vários pequenos animais para o espaço num foguetão “Salman” e anunciou que planeava colocar um astronauta no espaço num veículo indígena até 2029 (antes tinha declarado que haveria astronauta iraniano na Lua em 2025 pelo que estas declarações não merecem uma credibilidade extraordinária).
Estes lançamentos de mísseis IRBM podem ter sido apenas uma manobra de propagando lançando mísseis de modelo já conhecido com um carga útil de explosivos reduzida para aumentar o alcance, com um motor melhorado (ou recebido recentemente da Rússia no “comboio humanitário” que chegou ao Irão em meados de março). A ser o caso poderiam ter-se tratado de variantes do Sejjil (≈2.000–2.500 km) e o Ghadr-110 (≈1.800–2.000 km) ou protótipos, terminados de forma apressada e sob pressão, dos foguetes em desenvolvimento e que teriam um alcance na faixa dos ~3.000–4.000+ km. As informações conhecidas – se são minimamente fiáveis – não dizem a que distância de Diego Garcia foram abatidos mas é improvável que não existisse a convicção dos iranianos de que houvesse uma boa possibilidade de chegarem aos alvos. O certo é que esse alcance está nos planos dos desenvolvimentos de tecnologia de foguetões e que os contactos com engenheiros russos e chineses têm sido frequentes.
É contudo mais provável que, em vez de variantes melhoradas de mísseis conhecidos ou de mísseis adaptados com novos motores russos estes dois engenhos tenham sido adaptações apressadas de veículos originalmente concebidos para o programa espacial sabendo-se que o país tem três classes de lançadores com capacidade orbital:
O Zoljanah, um lançador de três estágios com combinação de combustível sólido e líquido, poderia, se convertido para função balística, atingir alcances estimados entre 4.000 e 5.000 km com uma carga útil de cerca de 1.000 kg.
O Simorgh, de dois estágios e combustível líquido, apresenta parâmetros técnicos que, numa configuração balística, apontam para um alcance na ordem dos 4.000 km com carga útil equivalente.
O Safir-2, também de dois estágios e combustível líquido, insere-se na mesma lógica, com alcance potencial próximo dos 4.000 km para cargas na ordem da tonelada.
Estes sistemas existem, foram testados no contexto espacial e demonstram que a barreira tecnológica crítica — propulsão, estágio múltiplo, controlo de voo — já foi ultrapassada pelos engenheiros iranianos, sendo a conversão para uso militar uma questão de engenharia aplicada e não de um avanço científico radical.
Aliás, a preocupação de que estes programas civis funcionariam como cobertura para aquisição de capacidade de IRBM/ICBM conquista, neste contexto, maior consistência, sendo esse enquadramento que ajuda a explicar ações como o ataque israelita ao Iran Space Research Centre (ISRC), que não deve ser lido como isolado, mas como uma tentativa de travar uma convergência tecnológica considerada crítica.
Colocando isto em termos geográficos concretos, um raio de cerca de 4.300 km a partir do Irão inclui Ancara, Tbilisi, Erevan e Baku; Moscovo, Kiev e Minsk; Bucareste, Sófia e Atenas; Belgrado, Sarajevo, Zagreb, Skopje e Tirana; Budapeste, Viena, Bratislava, Praga e Varsóvia; Berlim, Copenhaga, Estocolmo, Oslo e Helsínquia; Roma, Berna e Liubliana; bem como Paris, Amesterdão, Bruxelas e Luxemburgo. Ficam fora deste envelope, numa primeira fase, Londres e Dublin, bem como Madrid e Lisboa, o que significa que o risco direto para a fachada atlântica europeia permanece, pelo menos durante alguns anos, relativamente reduzido.
A conclusão relevante não depende de confirmar se os mísseis lançados contra Diego Garcia foram tecnicamente bem-sucedidos, mas sim de reconhecer que, se o Irão consolidar sistemas de lançamento fiáveis na faixa dos 3.000–4.000 km, uma parte substancial da Europa passa a estar dentro do raio direto de ação, independentemente da precisão terminal ou da taxa de sucesso inicial.
Neste contexto, a distinção entre capacidade demonstrada e capacidade latente torna-se central: o Irão pode não ter ainda demonstrado um IRBM plenamente operacional ou um ICBM funcional com capacidade de carga nuclear, mas os vetores tecnológicos necessários para essa evolução estão identificados, testados e, em alguns casos, já integrados.
É precisamente neste ponto que a discussão europeia continua a falhar: a Europa mantém uma dependência estrutural de sistemas de defesa antimíssil integrados na NATO e, em última instância, da arquitetura tecnológica e operacional dos EUA, não dispondo de um escudo antimíssil verdadeiramente autónomo, integrado e concebido a partir de prioridades próprias.
Os sistemas existentes, como o SAMP/T europeu, demonstram que existe base industrial e tecnológica para uma defesa de médio alcance credível, mas continuam fragmentados, com cobertura limitada, sem uma arquitetura continental integrada de alerta precoce, rastreio e interceção em múltiplas camadas comparável aos sistemas norte-americanos.
Se o vetor de ameaça iraniana continuar a evoluir na faixa dos IRBM, a resposta europeia não pode continuar a assentar em soluções parciais ou em dependência externa nos EUA, exigindo o desenvolvimento de um escudo antimíssil europeu, com integração de sensores, radares de longo alcance, interceptores exoatmosféricos e sistemas de comando e controlo próprios, seja através da evolução do SAMP/T, seja através de novos programas dedicados.
Portugal, neste contexto, encontra-se numa posição particularmente vulnerável a médio prazo: não dispõe de sistemas de defesa antimíssil de médio ou longo alcance, não integra atualmente uma arquitetura nacional com capacidade de interceção balística e não tem capacidade autónoma de resposta a este tipo de ameaça, dependendo integralmente de enquadramentos externos.
A ausência de capacidade própria não é neutra, é uma escolha implícita, e num cenário em que o alcance dos sistemas balísticos evolui mais rapidamente do que a adaptação política e orçamental, essa escolha tende a traduzir-se numa exposição crescente.
A questão já não é se a Europa deve desenvolver um escudo antimíssil autónomo, mas quanto tempo ainda vai demorar a aceitar que não o fazer tem consequências diretas.