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(A) :: Socialistas incomodados com visita de Carneiro à Venezuela

Socialistas incomodados com visita de Carneiro à Venezuela

A ida do líder do PS a Caracas gerou desconforto interno. Assis distancia-se, Temido fala em eventual "tiro no pé" e outros socialistas questionam a oportunidade política da deslocação.

Rita Tavares
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A ida de José Luís Carneiro à Venezuela no último fim de semana deixou vários socialistas a terem de “morder a língua” — a expressão é usada por um deles — para evitar criticar publicamente o líder do partido numa altura sensível. A deslocação preparada pelo departamento das comunidades do PS gerou sobretudo desconforto por poder contribuir para uma confusão sobre a posição do PS em relação ao regime venezuelano nesta altura.

O desconforto entre alguns socialistas é evidente, ainda que as palavras sejam medidas por se tratar de matéria internacional sensível e também por poder fragilizar o líder numa altura delicada para o partido. Isso foi claro nos vários contactos feitos pelo Observador, desde a semana passada, a propósito da deslocação de três dias (entre sexta-feira e domingo) do secretário-geral do PS a Caracas. Mas uma das principais preocupações manifestadas é a imagem que Carneiro pode dar de legitimação de Delcy Rodríguez, uma figura de continuidade do poder chavista e ao mesmo tempo parceira útil dos EUA depois do ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela e da detenção de Nicólas Maduro, em janeiro — uma operação que o PS condenou na altura.

O secretário nacional do PS para as Relações Internacionais, Francisco Assis, respondeu por escrito ao Observador, numa frase curta em que sublinha não ter acompanhado “ao pormenor” a visita e em que faz questão de reafirmar a distância face ao atual poder em Caracas. “A minha posição sobre o regime venezuelano não se alterou. É exatamente a mesma que me levou a elaborar e votar muitas resoluções, no Parlamento Europeu, de condenação de um regime autoritário que desrespeita princípios democráticos básicos”, escreveu, a propósito da viagem de José Luís Carneiro. Quando questionado sobre a falta de informação que diz ter sobre uma visita do secretário-geral quando é o responsável na direção pelas relações internacionais, Assis diz que a mesma foi preparada pelo departamento das comunidades do PS, dirigido por Paulo Pisco (que acompanhou a visita bem como o líder parlamentar Eurico Brilhante Dias).

Chegou a estar prevista uma reunião do líder do PS com a presidente interina Delcy Rodríguez, mas não estava na agenda oficial, só apareceu no sábado, quando o líder socialista já estava na Venezuela. O encontro acabou por ser adiado por um “imprevisto de última hora” da presidente interina, ainda assim, Carneiro não deixou de se reunir com outro elemento da equipa de Delcy, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Yván Gil, figura central do Governo de Maduro. Um regime que Assis tem condenado, tendo mesmo desalinhado dos socialistas no Parlamento Europeu quando, em 2024, vou a favor do reconhecimento de Edmundo González Urrutia como presidente legítimo da Venezuela — o opositor de Maduro está exilado em Espanha desde então.

https://observador.pt/2024/09/19/assis-desalinhou-dos-socialistas-na-venezuela-nem-hesitei-era-um-imperativo-de-consciencia/

“Não confundo, obviamente , este regime, que conduziu o país à ruína, com o povo venezuelano que tem relações de grande afetividade com os portugueses”, diz agora ao Observador o eurodeputado. Mas coloca-se à distância da visita do seu líder: “Não acompanhei em pormenor esta visita que, ao que julgo saber, visou apenas estreitar os laços com a comunidade luso-venezuelana.” É também isso que espera a eurodeputada Marta Temido que, ao Observador, também se escuda na “falta de dados” sobre a visita do líder socialista para evitar falar, advertindo, no entanto, que se não foi apenas para “mostrar empenho máximo junto da comunidade portuguesa, então foi um tiro no pé“.

“O que me deixa desconfortável é que daqui possa resultar a ideia de legitimação de um governo-fantoche“. A socialista não se opõe a uma visita com o objetivo de “contactar com a comunidade portuguesa”, ainda que tenha dúvidas sobre o timing desta. “Será que o objetivo justifica uma eventual perceção errada que saia da visita?”, questiona. “Não se pode dar azo a que nada seja lido como legitimação de alguém colocado à frente da Venezuela por uma entidade externa”, acrescenta ainda parecendo deixar nas entrelinhas que a vista de Carneiro pisou esse risco.

Já depois dos três dias de visita, outros socialistas também mostraram “dúvidas” sobre a “oportunidade política da visita. Um deputado acredita que com uma “avaliação política mais fina tinha-se percebido que não era o momento de ir”. Outro socialista revela “incompreensão” com a deslocação da Carneiro nesta altura em que se “sujeita a interpretações”. Outro elemento do partido lembra ainda a posição da União Europeia sobre o governo com que Carneiro se encontrou: embora mantenha contactos com a administração, a UE não reconheceu a legitimidade democrática da reeleição de Maduro nem da presidência interina de Delcy Rodríguez. E Portugal acompanha a posição, ainda que tenha já sublinhado o apoio ao levantamento de sanções da UE à Venezuela por considerar “essencial progredir no sentido da transição democrática e libertar todos os presos políticos, em especial, os luso-venezuelanos.”

Na última sexta-feira, na Assembleia da República, o PS aprovou uma resolução da IL que recomenda ao Governo português que considere ilegítimo o executivo venezuelano e apoie a transição democrática na Venezuela — só PCP votou contra e o BE absteve-se. Também viu aprovada (com as abstenções do PSD, PCP e CDS) a sua própria resolução para o reforço dos apoios à comunidade portuguesa na Venezuela e a intensificação de esforços para libertação dos presos políticos portugueses e lusodescendentes.

A visita foi comunicada tanto ao Presidente da República como ao primeiro-ministro e a conversa que José Luís Carneiro teve com Yván Gil focou, de acordo com o que disse o socialista no final do encontro, precisamente a situação destes presos políticos — em Caracas defendeu a libertação de, pelo menos, quatro luso-descendentes nesta situação. “Foi com muita satisfação, foi com uma atitude muito construtiva que este encontro decorreu. Yván Gil deixou ficar uma palavra de grande consideração aos portugueses e aos lusodescendentes que aqui se encontram, e também assumiu a sua disponibilidade para acompanhar de perto estas questões que se colocam em relação aos portugueses que se encontram ainda detidos”, disse o socialista, em declarações à Lusa.

Na rádio Observador, Ana Gomes elogiou “o sentido de iniciativa” de José Luís Carneiro, dizendo que era necessária “atitude política” e criticando o eurodeputado Sebastião Bugalho que tinha atacado o líder socialista. Para a socialista, Bugalho foi “despropositado e despeitado” e que o eurodeputado devia antes “ter aproveitado para se pôr ao caminho para ver se são libertados portugueses presos na Venezuela”. Também em conversa com o Observador, o socialista Eduardo Cabrita considerou que José Luís Carneiro “fez bem em capitalizar com o reconhecimento que tem junto as comunidades”, tendo sido secretário de Estado das Comunidades entre 2015 e 2019. E aponta mesmo o papel do antigo líder socialista espanhol, Jose Luís Zapatero, por ter mediado libertações na Venezuela.