A vida de um líder da oposição não é fácil. Mais difícil se torna quando nem sequer se lidera formalmente a oposição. Todos os que passaram pelo lugar mais ingrato da política portuguesa conhecem bem a sensação e poucos sobreviveram muito tempo nessa travessia do deserto. O padrão tem sido um: ou chegam rápido ao poder, ou kaput.
Cavaco chegou a primeiro-ministro num esfregar de olhos (seis meses entre a conquista do partido e a vitória nas legislativas). Guterres aguentou três difíceis anos, mas teve uma importante vitória autárquica e o cavaquismo já estava em fim de festa. Durão Barroso também demorou três anos, mas apanhou os cacos de Marcelo e ainda infligiu ao PS uma derrota moral nas autárquicas de 2001. Sócrates demorou cinco meses, Passos sensivelmente um ano, o mesmo que Costa. Montenegro demorou dois anos a chegar ao poder, e, quando o fez, nas circunstâncias conhecidas, já era contestado internamente.
Existe, portanto, um enorme conjunto de ilustres notáveis que foram ficando pelo caminho, quase sempre às mãos do próprio partido, quase sempre sem deixar grande saudade como líderes. No PS, Sampaio, Ferro, Seguro e Pedro Nuno; no PSD, Nogueira, Marcelo, Mendes, Menezes, Ferreira Leite e Rio, este último um verdadeiro caso de resiliência interna nunca acompanhada pelos resultados nas urnas — Santana é um exemplo diferente, pela forma como chegou ao cargo de primeiro-ministro e depois o perdeu.
Este é o retrato da realidade e a realidade pode ser muito cruel para quem está na oposição. Como súmula, é importante notar outra coisa. Na história recente do país, só por duas vezes um primeiro-ministro em funções perdeu eleições legislativas: José Sócrates e Pedro Santana Lopes, ambos em circunstâncias absolutamente excecionais.
Vem isto a propósito de José Luís Carneiro e das ameaças de chumbar o Orçamento do Estado no caso de o PSD atribuir ao Chega uma das três vagas que estão por preencher no Tribunal Constitucional. A informação foi avançada pela Rádio Renascença na quarta-feira e fez manchete no semanário Expresso na sexta-feira, citando fontes em off. Nunca foi formalmente desmentida — pelo contrário, antes e depois dessa notícia, muitos no PS se animaram com tamanha demonstração de coragem e de força. António Mendonça Mendes lá apareceu, uma voz tão isolada como esclarecida, a pedir algum juízo aos camaradas. Não consta que tenha feito doutrina.
O PS desbaratou uma maioria absoluta em dois anos. Em 2024, teve um dos piores resultados da história do partido. Conseguiu o inimaginável em 2025, caindo para a terceira força em número de deputados. Só uma avaliação muito generosa pode achar que o partido teve um bom desempenho nas autárquicas (além das 21 câmaras perdidas, ficou ainda menos representado no ranking dos 10 concelhos mais populosos). Perdeu nos Açores e na Madeira (duas vezes). Pode orgulhar-se de uma vitória nas europeias pela margem mínima, mas achar que Seguro venceu com as cores e em nome do PS é de ir às lágrimas. Não é currículo, é cadastro eleitoral.
Desde a queda de Costa a esta parte, qualquer figura do PS que tenha tentado fazer uma avaliação crítica sobre o que correu mal durante aqueles oito anos, incluindo o próprio Pedro Nuno Santos, foi tratado quase como um traidor. Para uma parte importante da nomenclatura do PS, aquela que vive obcecada a gritar que o “não é não” afinal é “sim, sim, sim”, Montenegro é um erro na matrix. Quase um usurpador do cargo de primeiro-ministro. E Ventura nada mais é do que um problema da direita moderada e uma criação da exclusiva responsabilidade desta última.
Foi leitura mais ou menos partilhada por todos de que a forma como se deram as últimas legislativas contribuiu e muito para a penalização do PS. Quando apareceu, José Luís Carneiro prometeu fazer diferente, ser a tal oposição construtiva, avessa a crises artificiais, disposta a pôr o país em primeiro lugar. Até se libertou do psicodrama orçamental, um legado do seu antecessor — Pedro Nuno Santos, recorde-se, disse que era “praticamente impossível” viabilizar o OE; depois foi o que se viu.
Carneiro, todos concordaram, era diferente. Resultado prático: há um par de semanas, o mesmo José Luís Carneiro veio dizer que a sua paciência tinha “limites” porque Montenegro não lhe respondia a umas cartas; agora, parece que o estado maior do PS quer cortar os canais de comunicação com o Governo e chumbar o Orçamento do Estado por causa de uma vaga num Tribunal — Tribunal onde o PS terá, mesmo depois deste processo, quatro juízes nos dez que são indicados pelo Parlamento.
O PS não está obrigado a aprovar nada do Governo. Nem está, obviamente, condenado a viabilizar o Orçamento do Estado. O que é difícil de compreender é que esteja à espera que os mesmos eleitores que o penalizaram por derrubar um primeiro-ministro naquele contexto, os mesmos eleitores que disseram categoricamente ‘não’ ao PS, os mesmos eleitores que esperam que o PS seja capaz de perceber o que lhe aconteceu, compreendam agora que o partido provoque uma crise orçamental por causa de uma vaga no TC. E logo numa altura em que o mundo está um lugar tão pouco recomendável.
Percebe-se a urgência de José Luís Carneiro em fazer qualquer coisa do ponto de vista tático. Percebe-se que sinta o relógio a contar e a história contra si. Até se percebe, do ponto de vista da psique humana, que aqueles que governaram 20 dos últimos 30 anos não concebam outro cenário que não o de estar no poder. Mas o país mudou. O PS deveria aproveitar a cura da oposição para se adaptar e evoluir. De resto, todos sabem o que se diz de quem insiste em fazer a mesma coisa e espera que os resultados sejam diferentes. E o PS, depois de atirado para terceiro, não devia andar em experimentalismos. Afinal, qual é a pressa?