Um dos paradoxos que tem merecido a atenção recente dos economistas é a extraordinária capacidade de resistência das economias às sucessivas crises que nos têm abalado. Simplificando e apenas concentrando-nos na Europa, tivemos a pandemia (2020), a invasão da Ucrânia pela Rússia (2022) e a incerteza, nas mais diversas frentes, lançada pelo presidente dos Estados Unidos, das tarifas, às ameaças de abandono da defesa dos aliados europeus, passando pela crise da Groenlândia até ao recente ataque ao Irão. Apesar de tudo isto, e retirando da equação a guerra com o Irão, as economias têm revelado uma resistência paradoxal, inconsistente com o que seria de esperar seguindo os manuais de economia.
A economia global tem conseguido crescer ao ritmo de 3% ao ano, os países da área do euro, não registando em média crescimentos notáveis, têm conseguido evitar a recessão e registam sempre crescimentos no emprego. As perspetivas de uma recessão na sequência da guerra na Ucrânia acabaram por não se confirmar. E os danos gerados pela política de zig-zag de Trump nas tarifas também nos mostrou uma economia mais resistente do que esperávamos. Há, aparentemente, qualquer coisa a passar-se nas economias que não estamos a entender. E que agora, com a guerra no Irão enfrenta um novo teste.
Quando ainda não estávamos perante o conflito com o Irão, a diretora-geral do FMI Kristalina Georgieva avançou em Davos, em Janeiro, com quatro possíveis explicações para aquela que a revista The Economist já designou como “economia teflon”. A primeira é o maior peso do sector privado, com os Estados a reduzirem a sua presença na gestão das empresas. Empresas privadas, defendeu, são mais ágeis, adaptam-se mais depressa. Em segundo lugar, as tarifas anunciadas por Trump acabaram por não se concretizar na dimensão anunciada. Em terceiro ligar, o Fundo está convencido que o investimento em Inteligência Artificial é uma importante fonte de resistencia das economias. Finalmente, as políticas públicas prosseguidas pelos governos têm conseguido alisar os ciclos económicos, com os apoios às empresas e às famílias a serem a regra desde a pandemia.
Registe-se que esta forma de intervenção dos governos, através de apoios directos, começa a verificar-se a partir da crise financeira de 2007/2008, altura em que os estados acabaram a ajudar massivamente o sistema financeiro, directa ou indirectamente. Uma das explicações, para essa mudança de atitude dos governos, reside no facto de terem dificuldade de explicar aos seus eleitores porque ajudavam a banca e não as outras empresas e famílias quando eram vítimas de crises.
Repare-se que apesar de a Agência Internacional de Energia estar a recomendar que não se actue apenas do lado da oferta – como apoios -, não se ouve na Europa nenhum Governo a avançar com medidas que actuem na procura, reduzindo nomeadamente o consumo de combustíveis.
Interessante é igualmente olhar para o comportamento de alguns indicadores que pretendem medir a incerteza. Um deles é o Índice de Risco Geopolítico Global (GPR) de Dario Caldara e Matteo Iacoviello, baseado em dez jornais de língua inglesa que vale a pena seguir. Mas, para esta abordagem, é interessante ler o trabalho publicado pelo FMI e assinado por Hites Ahir, Nicholas Bloom e Davide Furceri em que comparam três medidas da incerteza focadas nos Estados Unidos: a baseada em palavras-chave nos jornais, o índice de volatilidade dos mercados financeiros conhecido como VIX e os resultados de inquéritos a empresários. O interessante é que a avaliação do risco por parte dos empresários é praticamente estável – os dados mais recentes são de 2025 – enquanto o índice baseado nos jornais tem um acentuado pico em 2025 – o ano das tarifas. O VIX fica algures no meio. No passado estes três indicadores estavam mais próximos.
Agarrando na sistematização feita pela directora-geral do FMI, uma das hipóteses, para este afastamento da percepção do risco consoante os protagonistas, é estarmos perante uma economia que está mais resistente do que pensamos, designadamente graças à capacidade de adaptação das empresas a eventos negativos, que hoje é possível ter com as novas tecnologias. A The Economist dá o exemplo da muito rápida reacção das cadeias de abastecimento na pandemia. E os economistas do trabalho publicado pelo Fundo explicam que a agitação do índice baseado nos jornais pode dever-se, entre outros factores, à atenção que os media dão às declarações de Donald Trump.
Com exceção do VIX, estes dados não refletem a guerra no Irão. Olhando para a série mais longa do VIX o que verificamos é que aquele que é conhecido como indicador do medo não atingiu os níveis de 2002 – guerra na Ucrânia – e está bastante longe do registado na pandemia, para não falar da crise financeira.
O que tudo isto nos parece indicar é que as economias na sua base empresarial estão a ser capazes de reagir mais rapidamente a eventos adversos. A questão é se conseguem manter esta imunidade perante o choque energético causado pela guerra no Irão. Tal como aconteceu em 2022, as previsões são de uma inevitável recessão tudo dependendo da duração do conflito e dos danos que deixe quando a guerra acabar. Mas, neste momento, podemos já estar numa situação com efeitos muito mais graves do que os da guerra na Ucrânia.
Desta vez pode ser diferente porque estamos a falar de cerca de um quinto de gás e petróleo consumido pelo mundo, assim como um terço dos fertilizantes que precisam de passar pelo estreito de Ormuz. Embora os países asiáticos sejam os principais clientes, os preços sobem para todos. E é neste quadro que a Agência Internacional de Energia classifica este choque como o mais grave da história. A reabertura do estreito de Ormuz a todos os navios é fundamental para reduzir o impacto económico do conflito, ainda que neste momento não se perceba o efeito dos danos já infligidos em algumas das infraestruturas de gás e petróleo da região.
A pausa de cinco dias anunciada por Donald Trump nesta segunda-feira dia 23 de Março pode ser o princípio do fim do conflito. Até que ponto ainda vamos a tempo de evitar uma crise global, mantendo esta resistência das economias ao caos geopolítico que se instalou no mundo, só o tempo o dirá. Para já parece muito mais difícil que as economias resistam a um choque desta dimensão. A imunidade também tem os seus limites.