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(A) :: O nome que carrego e o quarto que me espera…

O nome que carrego e o quarto que me espera…

Não aceito que o envelhecimento em Portugal tenha que ser uma escolha entre a solidão em casa, ou a despersonalização num corredor de hospital ou num quarto de uma ERPI.

Anabela Bilro Casadinho
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Quando projeto o meu futuro e imagino o dia em que a minha autonomia exigirá o amparo de uma Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI), não quero ver apenas um edifício ou uma solução logística. Quero sim, ver a continuidade da minha identidade. Quero ser cuidada numa IPSS, não por uma questão de caridade, mas por acreditar na missão social destas instituições. Contudo, exijo, e creio que todos deveríamos exigir, que o meu nome nunca seja substituído pelo número do meu quarto.

A importância da identidade além do utente

Quero acreditar que o Estatuto da Pessoa Idosa em Portugal não seja apenas um pedaço de papel legislativo, mas um sério compromisso de honra. Espero que me garanta o direito à autodeterminação e a um envelhecimento digno. No entanto, na prática, e atualmente, sinto que o sistema muitas vezes nos empurra para aquilo que se pode chamar de “morte social” antes da biológica.

Eu não quero ser “a senhora do quarto 5” que toma banho e a medicação às oito. Quero ser a mulher que gosta de café de manhã numa chávena grande, que vê todos os noticiários na televisão e que toma banho antes do jantar. Eu tenho uma história, preferências alimentares, manias matinais e um nome que merece ser pronunciado com dignidade.

O humanismo de que tanto falamos tem de ser o oxigénio destas casas. Cuidar não é apenas manter o corpo limpo e alimentado, é acima de tudo, preservar o brilho no olhar de quem sente que ainda pertence ao mundo.

O equilíbrio da sustentabilidade

No entanto, sou realista e sei que o carinho não paga faturas de eletricidade nem salários de auxiliares. A sustentabilidade financeira das IPSS é o grande “elefante na sala”. Como pedir um cuidado personalizado quando as instituições lutam com orçamentos asfixiantes e acordos de cooperação que, muitas vezes, não cobrem o custo real do cuidado de qualidade?

Ouvimos frequentemente que “o humanismo custa dinheiro” e que as IPSS lutam pela sobrevivência financeira. É verdade. No entanto, a gestão moderna ensina-nos que a ineficiência do modelo atual, focado apenas na tarefa e não na pessoa poderá, ironicamente, vir a ser mais cara a longo prazo.

É urgente evoluirmos para modelos de gestão mais modernos, em que se valorize quem cuida, para que o cuidado não seja mecânico e simultaneamente usar métodos modernos de organização para que a rotina da instituição se molde ao indivíduo, e não o contrário.

Para que eu possa ser cuidada com humanismo, a instituição precisa de ter rácio de pessoal, formação contínua e tempo. Sim, tempo. O tempo é o recurso mais caro e mais humano que existe. Um cuidador exausto dificilmente conseguirá ver em mim a pessoa por trás da doença que me acompanha de forma injusta e violenta. As lideranças terão que respeitar mais os cuidadores, ouvi-los e valoriza-los. Só assim se trabalha, não apenas, por obrigação, mas com compromisso, e isso mudará tudo. Estes profissionais têm que passar a ser vistos como especialistas na arte do cuidar. Por isso, defender a minha identidade é também defender o financiamento justo destas casas.

Quero que, quando eu lá chegar, me perguntem quem eu fui, para que saibam quem eu ainda sou. Eu, mais que ninguém, sei que a que a gestão financeira deve ser rigorosa, mas que a difícil “sobrevivência do saldo” seja o meio para um fim maior.

Infelizmente, o modelo de gestão que ainda predomina em muitas das nossas instituições é, sejamos honestos, muito obsoleto. É quase um sistema onde a eficiência é medida pela rapidez do banho e o silêncio dos corredores. Mas eu não quero, nem posso ser um fardo a ser gerido, sou uma pessoa com mais idade, e possivelmente doente, a ser cuidada.

O humanismo não pode ser considerado um luxo, mas sim a base do cuidado. Quero ser cuidada por pessoas que tenham tempo para me olhar nos olhos, e não por profissionais exaustos, presos a rácios de pessoal, incongruentes com a realidade, que transformam o cuidado numa linha de montagem industrial.

O meu desejo de futuro

Não aceito nem posso vir a aceitar nunca a ideia de que o envelhecimento em Portugal tenha que ser uma escolha entre a solidão em casa, ou a despersonalização num corredor de hospital ou num quarto de uma ERPI.

Não quero que o meu último capítulo seja escrito numa plataforma informática, pronto a ser apagado para dar lugar ao próximo ocupante. Quando olho para o futuro e projeto o meu tempo numa ERPI, não quero ver apenas um teto ou assistência na higiene, vendo a minha identidade em risco de se diluir num corredor e rotinas de higiene em série.

O meu desejo de ser cuidada com humanidade numa IPSS não é, de maneira nenhuma, um ataque às instituições, mas um apelo desesperado à sua evolução. Quero que a sustentabilidade financeira caminhe de mãos dadas com a sustentabilidade afetiva. Quando chegar a minha vez quero ser respeitada na minha autonomia, mesmo quando o meu corpo falhar, quero continuar a ser a pessoa que sou hoje, apenas com mais anos e menos pressa. Afinal, a qualidade de uma sociedade mede-se pela forma como ela trata aqueles que já não produzem, mas que continuam a ser.

A dignidade não deveria nunca ter um preço, mas a estrutura que a sustenta tem um custo!