Muito antes de a cinza do Monte Vesúvio a ter parado no tempo, Pompeia já carregava nas suas muralhas sinais de outro tipo de destruição — e mais atual do que se poderia esperar. Um estudo recente preconiza que, durante o cerco de 89 a.C., as tropas romanas comandadas pelo general Lúcio Cornélio Sula poderão ter tido uma arma secreta a seu favor: um polybolos, uma “metralhadora” antiga cujas marcas ainda hoje permanecem visíveis na pedra. Depois de inicialmente interpretadas como marcas de impacto da época republicana — e durante décadas pouco estudadas pela investigação académica —, estas cavidades foram agora reavaliadas por Adriana Rossi, Silvia Bertacchi e Veronica Casadei, da Universidade da Campania Luigi Vanvitelli e de Bolonha, noticiou o The Telegraph.
A investigação, publicada na revista Heritage, combina análise arqueológica com simulações de engenharia para interpretar um conjunto de impactos circulares identificados no lado norte das fortificações da cidade. Segundo as autoras do estudo, a forma, a repetição e a concentração desses danos afastaram também explicações baseadas em armas de cerco tradicionais, apontando antes para um sistema capaz de disparos sucessivos a grande velocidade, deixando pequenos buracos profundos.
De origem grega, o polybolos era uma evolução das balistas convencionais que permitia o lançamento repetido de projéteis metálicos contra posições elevadas, sendo descrito no estudo como uma espécie de antecessor da metralhadora. A teoria proposta resulta também de um trabalho de reconstituição digital, através de modelos tridimensionais, que simulou a formação dos impactos e os comparou com diferentes tipos de artilharia antiga. Neste caso, a engenharia inversa apontou consistentemente para um mecanismo de disparo rápido, ou seja, uma “metralhadora” antiga.

“A artilharia utilizada durante o ataque tinha como objetivo principal o disparo contra pessoal, visando os defensores posicionados ao longo das muralhas e entre as ameias, em vez de demolir as próprias fortificações”, lê-se no estudo. As investigadoras sublinham essa distinção: não se trataria de uma arma destinada a abrir brechas na defesa de Pompeia, mas a neutralizar a guarnição militar que as defendia. Além disso, já que o alvo não seria a fortificação em si, o estudo sugere que esses impactos resultam de projéteis com trajetórias falhadas ou dispersas, considerando a estrutura defensiva e o tipo de armas utilizadas.
Com mérito acrescido da arma ou não, após a conquista de Pompeia por Sula e a sua integração no sistema romano, esses vestígios permaneceram cravados nas muralhas da cidade. Para as autoras, as marcas “sobreviveram milagrosamente” às reconstruções romanas, aos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial e a desastres naturais, ao longo dos séculos.
Mais de dois mil anos depois, essas marcas permanecem. E num lugar tantas vezes lembrado pelo silêncio da morte súbita imposta pelo Vesúvio, elas preservam outra memória: a de um ruído anterior, o da guerra, que já tinha deixado a sua assinatura na pedra muito antes de o Vesúvio fazer o mesmo no resto da cidade.