Nunca foi tão fácil medir tudo. Acordamos com um alarme, depois de exatamente 5h e 47min. Abaixo do recomendado. Contamos passos e calorias. Aquém da meta. Contamos níveis de stress. Acima do limite. Ainda não chegámos à hora de almoço. Contamos horas de estudo, horas de trabalho. Contamos conquistas para o LinkedIn. Já vamos em quantos likes?
Nunca foi tão fácil medir tudo. Nunca foi tão difícil simplesmente estar e sentir. Transformámos a vida num projeto — e projetos estão em constante avaliação. Encontramos identidade num CV e amizades tornam-se networking estratégico. Descanso vem com culpa. A terapia aumenta, mas como ferramenta de performance. Vamos, mas para cumprir prazos. Onde está o slot no Google Calendar para simplesmente desmoronar?
Nunca se falou tanto de saúde mental, nem nunca estivemos tão informados, mas continuamos exaustos, ansiosos e a sentir que estamos constantemente atrasados. Os dados confirmam isto mesmo. Um estudo recente da Deloitte revela que 40% da Gen Z e 34% dos Millennials dizem sentir-se stressados ou ansiosos grande parte do tempo.[1]
Sabemos, reconhecemos e falamos do tema, mas isso não se parece traduzir numa melhoria na forma como operamos. Porquê?
Porque a nossa geração não ignora a saúde mental. Gere-a.
Encaramos o nosso bem-estar na lógica da automação e eficiência — não para viver ou sentir melhor. Já se fala num “over-optimization backlash”[2], mas este diagnóstico chega tarde.
Porque, quando tudo se transforma em métricas, também a forma como falamos de nós muda. Sem que nos déssemos conta, já adotamos linguagem corporativa para falar de nós próprios. A pergunta deixou de ser “quem é que eu quero ser?” e passou a “como posso ser o que mais vale no mercado”?
Ajustamos a nossa personalidade como quem ajusta um produto – sê simpática, mas não demasiado; leve, mas sem lembrar desleixo; carismática, mas sem exageros. Chamamos a isto profissionalismo. Mas a receita nunca é suficiente — há sempre uma versão melhor de nós por lançar.
Com o tempo, crescemos a partir dessa validação, e passamos a operar acima da nossa liquidez emocional.
Gastamos mais do que conseguimos repor — e, algures pelo caminho, perdemos o momento em que isto deixou de ser sustentável.
A nossa vida transforma-se num pitch deck permanente, e nós o produto que nunca está atualizado.
Esquecemo-nos que a nossa saúde mental não é um produto que se deve adaptar ao mercado, mas sim o capital sem o qual a empresa não sobrevive.
Não creio que a ambição seja o problema. O problema é tratarmos a nossa interioridade como um produto em constante avaliação.
Nunca foi tão fácil medir tudo. Nunca foi tão difícil simplesmente estar e sentir. Amanhã de manhã, o teu alarme vai voltar a tocar. E o teu primeiro impulso será o de medir.
Antes de chegares ao “abaixo do recomendado” ou “aquém da meta”, lembra-te: nenhuma dessas métricas mede o que realmente importa.
O que parece um erro no sistema não é uma falha — é a prova de que ainda és humano. Se insistires em medir, mede o que o mercado ignora: quando foi a última vez que fizeste algo sem um porquê? Quando foi a última vez que paraste — sem agenda, propósito ou culpa?
Talvez percebas que isso não se mede. E talvez seja esse o ponto.
O ser humano não é suposto ser mensurável.
Somos humanos. Não um projeto por otimizar.
O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.