O secretário-geral da ONU admitiu nesta segunda-feira estar “profundamente preocupado” com a disseminação do racismo e xenofobia no discurso político e nas plataformas digitais, apelando a medidas urgentes para acabar com a discriminação racial.
Num discurso perante a Assembleia-Geral da ONU, num evento para assinalar o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, António Guterres alertou que as mensagens subliminares podem rapidamente transformar-se em discurso de ódio declarado.
“Sabemos onde esse caminho leva: a mais injustiça, violência e coisas ainda piores. A solução é a solidariedade. Os Governos, as instituições, as empresas e as comunidades devem trabalhar em conjunto para salvaguardar a dignidade, a justiça, a igualdade e os direitos de todas as pessoas“, defendeu.
Isto significa “tomar medidas urgentes e concretas para acabar com o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e a intolerância conexa — incluindo no seio das Nações Unidas”, disse Guterres.
O líder da ONU lembrou nesta segunda-feira o massacre de Sharpeville, em 1960, na África do Sul, quando a polícia abriu fogo indiscriminadamente contra uma multidão que protestava pacificamente contra o regime de apartheid (regime de segregação racial), matando 69 pessoas.
O antigo primeiro-ministro português pediu que sejam honrados todos aqueles que se opuseram ao racismo em todo o mundo e defendeu a renovação do compromisso de trabalhar pela justiça e pela igualdade.
“A discriminação racial é uma violação dos direitos humanos e da dignidade humana. É um comportamento aprendido, generalizado e profundamente destrutivo. Já ceifou inúmeras vidas e causou sofrimento monumental ao longo da história”, lamentou.
“Não deveria ter lugar no nosso mundo, mas manifesta-se nas escolas, nos locais de trabalho e em inúmeras interações do dia-a-dia. O racismo prejudica-nos a todos. Ele persiste nas consequências nefastas da escravatura, do colonialismo e da opressão“, observou.
Guterres declarou que muitas das soluções para combater o racismo estão a ser enfraquecidas à medida que alguns Governos desmantelam políticas e práticas antirracistas e os “líderes tentam reescrever a história”, embora sem indicar nenhum país ou nome em concreto.
Ao mesmo tempo, sublinhou que as ferramentas e as tecnologias digitais “inundam-nos com discursos de ódio, perpetuando mentiras e estereótipos nocivos que se transformam frequentemente em violência e abuso no mundo real”.
“O racismo alimenta os atos repugnantes dos supremacistas brancos e de outros extremistas. Semeia a desconfiança, divide comunidades e desumaniza as pessoas. Estigmatiza os africanos e as pessoas de ascendência africana — assim como os asiáticos e as pessoas de ascendência asiática”, insistiu, frisando que alimenta ainda a opressão de várias minorias étnicas, religiosas, linguísticas e nacionais.
Dirigindo a sua mensagem ao setor privado, o secretário-geral da ONU indicou que combater o racismo inclui garantir que as suas cadeias de abastecimento, locais de trabalho, produtos e serviços respeitam os Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos.
Já para os Estados-membros da ONU, inclui a ratificação universal e a plena implementação da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial.
Guterres insistiu na utilização das mais diversas ferramentas e instrumentos para combater a discriminação racial, para que a igualdade e uma humanidade verdadeiramente partilhada se tornem uma realidade vivida por todos.
“Hoje, e todos os dias, vamos tomar posição. Vamos lutar pela dignidade, pelos direitos e pelo sentimento de pertença de todos. E juntos, façamos o juramento de erradicar a mancha do racismo do nosso mundo”, concluiu.
Estabelecido pela Assembleia-Geral da ONU para aumentar a consciencialização e incentivar à ação global contra o racismo, o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial reflete os esforços internacionais mais amplos que levaram a progressos importantes, incluindo o desmantelamento do apartheid na África do Sul e o fortalecimento dos compromissos globais com a igualdade, princípios também afirmados na Declaração Universal dos Direitos Humanos.