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(A) :: A procissão voltou ao adro, mas o andor está mesmo desequilibrado

A procissão voltou ao adro, mas o andor está mesmo desequilibrado

É como chegar ao fim de um jantar e dizer: “Não bebo vinho desde as 22.37!”, omitindo os 9 copos – ainda mais cheios – bebidos desde as 19.56 até às 22.15.

José Diogo Quintela
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Desde que há registos, o clube português com mais títulos é o Benfica. Porém, se contarmos desde 1980, então é o Porto. Já se o fizermos a partir do Covid, é o Sporting. E, se for apenas em 2026, o clube mais titulado é o Guimarães. Como é evidente, o leitor já percebeu que apresento estas curiosidades estatísticas porque o IPMA publicou os dados sobre o clima de Fevereiro, o mês do comboio de tempestades e das cheias. Destacando os 247,1 mm de água caído por m2, foi anunciado como o Fevereiro mais chuvoso dos últimos 47 anos. Que é mais ou menos o mesmo que a manchete do Record ser: “Domínio total do Guimarães no futebol português!”

O período de tempo escolhido para realçar o volume da bátega é curioso. Porquê sublinhar que há 47 anos que não chovia tanto? Essa é fácil: porque há 48 anos choveu mais. Em Fevereiro de 1979 caíram 284,9 mm (mais 15% do que este ano). O que é substancialmente acima deste Fevereiro, embora não tão acima quanto em Fevereiro de 1966, quando choveram 323,1 mm (mais 30% do que este ano). E bastante menos do que os diluvianos 347mm de 1947 (mais 40% do que este ano). Longe dos valores máximos desde que, em 1931, se começaram a compilar dados, este Fevereiro está mais em linha com os Fevereiros de 1978 (240,5 mm), 1977 (240,1 mm), 1972 (235 mm), 1968 (239 mm) e 1936 (256,8 mm). Claro que afirmar que este foi o Fevereiro mais chuvoso dos últimos 47 anos assusta muito mais do que simplesmente informar que, desde 1931, este Fevereiro foi o 5.º mais chuvoso, ao nível de outros 5 Fevereiros. E que, em vez de anos chuvosos cada vez mais repetidos, estes 47 anos são o maior espaço de tempo decorrido entre Fevereiros com mais de 230 mm. Com a primeira podemos dizer que as alterações climáticas estão a causar estes episódios de chuva nunca vistos. Com a segunda, percebemos que ainda antes do aquecimento global estar a todo o vapor, até chovia mais e mais frequentemente.

É como chegar ao fim de um jantar e dizer: “Não bebo vinho desde as 22.37!”, omitindo os 9 copos – ainda mais cheios – bebidos desde as 19.56 até às 22.15. Trata-se de um ébrio a tentar passar por abstémio.

Este meu fossar nos registos históricos não pretende sugerir que no mês passado não choveu imenso, mais do que o costume, e que isso não teve impacto devastador por todo o país. Serve apenas para mostrar que não foi novidade. O excesso de bátegas em Fevereiro não foi um evento atípico causado pelas alterações climáticas antropogénicas, na medida em que já tinham ocorrido Fevereiros mais molhados, inclusive em anos em que, supostamente, a influência humana no clima ainda não se devia fazer sentir. E para mostrar que estes Fevereiros não acontecem mais amiúde agora, já se repetiram com menor cadência.

Porém, se estes dados ajudam a desmistificar a tese da excepcionalidade das chuvadas de Fevereiro, não servem para contestar as alegações de que estes eventos climáticos são agora muito mais imprevisíveis. Antigamente, diz-se, o tempo era muito mais certinho, sabia-se com o que contar.

Só que, pasme-se!, a realidade não é bem assim. Para contrariar essa teoria recorro a duas investigações académicas que o algoritmo – conhecendo as minhas obsessões – me apresentou. A primeira é “O Clima do Sul de Portugal no Séc. XVIII – Reconstituição a partir de fontes descritivas e instrumentais”, de João Paulo Taborda, Maria João Alcoforado e João Carlos Garcia. A segunda é o capítulo “O Clima do  Noroeste de Portugal no Séc. XVIII, através das preces e Procissões Pro Pluvia e Pro Serenitate”, de Luís Pedro Silva, incluído em “Riesgo, desastre y miedo en la península Ibérica y México durante la Edad Moderna”, editado por Armando Alberola Romá.

Ambas reconstituem o clima português durante o séc. XVIII (no Alentejo e no Noroeste) recorrendo a fontes históricas, com destaque para os registos eclesiásticos das procissões que se organizavam para rogar intervenção divina sobre o clima. Quando havia seca, eram procissões Pro Pluvia; quando havia borrasca, eram Pro Serenitate. Os nossos compatriotas de 1700 não faziam cerimónia com o Altíssimo quando era altura de encomendar meteorologia de feição, fosse de que tipo fosse. Em Évora, por exemplo, em 1732 rezou-se Pro Serenitate, o que indica um ano tempestuoso. As preces devem ter-se feito ouvir com clamor, pois o excesso de estio obrigou a que, logo em 1734, se rezasse uma Pro Pluvia. Que voltou a escangalhar o termostato, já que em 1736 o bispo teve de organizar nova Pro Serenitate. De novo extremamente bem sucedida, já que em 1737 e 1738 tiveram de voltar a sair com os andores para uma Pro Pluvia.

O mesmo a Norte de Portugal. No Porto, nessas décadas, alternaram-se procissões Pro Pluvia (1734, 1738, 1742, 1744, 1753 e 1754) e Pro Serenitate (1739 e 1751). E em Braga a diocese tomou nota da saída de procissões em 1731 (Pro Pluvia), 1732 (Pro Serenitate), 1739 (Pro Pluvia), 1744 (Pro Serenitate), 1747 (Pro Serenitate), 1753 (Pro Pluvia), 1760 (Pro Pluvia em Abril, Pro Serenitate em Setembro), 1764 (Pro Pluvia), 1766 (Pro Serenitate), 1768 (Pro Serenitate) e 1769 (Pro Serenitate).

Das duas, uma: ou no séc. XVIII o tempo era muito imprevisível e mudava de ano para ano, ou os portugueses dessa altura não se conseguiam decidir entre ter sol na eira ou chuva no nabal. Há que recordar que ainda não se tinha começado a queimar combustíveis fósseis. O clima ainda não tinha sido conspurcado pela industrialização, a humanidade ainda não tinha posto a sua manápula nos comandos. No entanto, havia mau tampo, instável e de todo o tipo. Só se pode dizer que é o “novo normal” porque antigamente era clima que fazia querer rezar em público e agora só faz querer ir para a rua à procura de uma câmara da CMTV.