A divulgação dos ficheiros ligados ao criminoso sexual Jeffrey Epstein desencadeou uma corrida aos escritórios de advogados mais prestigiados. À medida que nomes começaram a surgir em documentos, e-mails e outros registos, dezenas de pessoas referidas nos arquivos — incluindo as vítimas — procuraram equipas de defesa criminal para gerir o escrutínio mediático e eventuais danos reputacionais associados a ligações a Epstein ou à sua cúmplice, Ghislaine Maxwell, noticiou o Politico.
Mesmo sem acusações formais, várias figuras públicas reforçaram discretamente a sua defesa legal depois de verem os seus nomes expostos. Do outro lado, as vítimas continuam a recorrer aos tribunais, em alguns casos para tentar remover dos ficheiros informação pessoal tornada pública.
Entre os exemplos mais mediáticos estão a modelo Naomi Campbell — que, mencionada em múltiplos documentos, recorreu a um conhecido advogado de Hollywood — e o médico e influenciador Peter Attia, cujo nome surge repetidamente nos arquivos. Representado por um advogado experiente, Attia reconheceu que algumas trocas de e-mails são “constrangedoras”, mas rejeita qualquer conduta ilegal. Perante o que descreve como um “elevado volume de reportagens imprecisas e difamatórias”, Attia “reuniu uma equipa para ajudar a promover a exatidão factual e a comunicar a verdade”, afirmou um porta-voz.
Também grandes empresas e universidades avançaram com investigações internas, contratando firmas de topo para avaliar possíveis ligações institucionais. Alguns executivos contrataram advogados para analisar situações envolvendo funcionários mencionados nos ficheiros ou simplesmente para confirmar identidades em casos de nomes comuns, segundo fontes do setor citadas pelo Politico.
A onda chegou ainda a organizações internacionais. O Fórum Económico Mundial abriu uma investigação independente ao seu presidente, Borge Brende, que acabaria por se demitir, justificando a decisão com a necessidade de não prejudicar o trabalho da instituição.
https://observador.pt/2026/02/26/ceo-do-forum-economico-mundial-demite-se-apos-instituicao-anunciar-investigacao-sobre-as-suas-relacoes-com-epstein/
Para os advogados especializados em crimes de colarinho branco, trata-se de um inesperado aumento de procura, numa altura em que o setor enfrentava um abrandamento da atividade devido à prioridade dada pelas autoridades a outros tipos de criminalidade. E tudo indica que a pressão não vai abrandar: comissões do Congresso norte-americano já começaram a chamar para depoimento pessoas cujos nomes constam nos ficheiros, mesmo sem acusações formais.
https://observador.pt/2026/03/17/procuradora-geral-dos-eua-intimada-pelo-congresso-a-depor-sobre-caso-epstein/
Ao mesmo tempo, crescem no setor críticas à forma como os documentos foram tornados públicos. “Não há precedentes na era moderna de uma divulgação em massa de caixas de entrada de e-mail desta forma”, Joan Vollero, que trabalhou como assessora sénior do ex-procurador distrital de Manhattan, Cy Vance. “As vítimas foram novamente ‘revitimizadas’ por reportagens mal feitas, aleatórias ou inexistentes, e pessoas totalmente inocentes, cujos nomes aparecem por uma série de razões, ficam agora sob uma nuvem de suspeita e com o fardo de ter de se explicar publicamente.”