Houve um tempo em que a política popular cultivava uma certa sobriedade perante o poder. Desconfiava de grandes desígnios, de cruzadas morais além-fronteiras e da ilusão persistente de que sociedades complexas podem ser moldadas pela força. Havia a consciência — nem sempre teorizada, mas bem presente — de que a história tende a castigar quem confunde intenções com resultados. Essa tradição não desapareceu por completo, mas, em muitos casos, foi sendo abandonada.
No seu lugar instalou-se algo mais simples e mais perigoso: a redução do mundo a uma narrativa binária de bem contra mal. Vacinados, apresentados como os virtuosos que salvam o mundo, contra não vacinados retratados como ameaças à vida alheia; antirracistas autoproclamados contra supostos racistas absolutos; os que colocam bandeiras no perfil e defendem o envio contínuo de dinheiro sem escrutínio para países até ontem considerados profundamente corruptos, contra os “malvados” que, por levantarem dúvidas, ou por questionarem se esse é o melhor destino a dar aos impostos que lhes são coercivamente cobrados, são imediatamente associados ao inimigo. Mudam os protagonistas, ajusta-se a linguagem, mas a lógica permanece intacta.
Também as guerras deixam de ser discutidas em termos de interesse, equilíbrio ou prudência e passam a ser apresentadas como imperativos morais. Quem questiona é suspeito. Quem hesita é fraco. Quem recusa alinhar é tratado como cúmplice do lado errado.
Foi com esse espírito que se justificaram intervenções cujas consequências são hoje difíceis de esconder. No Afeganistão, prometeu-se estabilidade e acabou-se com a substituição dos talibã… pelos talibã. No Iraque, derrubou-se o regime de Saddam Hussein para abrir caminho a um país fragmentado, onde uma das mais antigas comunidades cristãs do mundo praticamente desapareceu. Na Líbia, a remoção de Muammar Gaddafi resultou num território entregue a milícias, rivalidades tribais, o regresso de mercados de escravos a céu aberto e uma anarquia prolongada. Na Síria, em nome da clareza moral, aceitaram-se como alternativa figuras ligadas ao jihadismo, recicladas como se a passagem por organizações como o ISIS fosse apenas uma linha incómoda retirada do currículo.
Nada disto produziu prudência. Produziu repetição. A mesma certeza, a mesma urgência, a mesma recusa em aprender.
Agora, dizem-nos que desta vez é diferente. Que desta vez é inevitável. O alvo é o Irão e é uma ameaça séria. Há anos que Benjamin Netanyahu repete que o país está a semanas de obter armas nucleares. Há anos que “faltam duas semanas”. A previsão não se cumpre, mas também nunca desaparece. Serve um propósito: criar uma sensação de emergência permanente.
E, numa emergência permanente, tudo passa a ser justificável.
Dizem-nos que é para salvar pessoas, libertar populações, proteger mulheres. Mas depois a realidade impõe-se de forma brutal. Bombardeamentos sobre infraestruturas civis, ataques que não distinguem responsabilidades individuais, crianças apanhadas numa lógica de punição coletiva. Fala-se de libertação, mas os métodos aproximam-se perigosamente daquilo que se afirma combater.
Para quem olha para isto com um mínimo de coerência moral — seja ela cristã ou simplesmente humana — a contradição é evidente. Não se liberta um povo tratando-o como alvo. Não se constrói justiça através de castigo indiscriminado. Se a dignidade humana é o princípio, então tem de se refletir também nos meios, não apenas nas palavras.
E depois há o padrão mais amplo. Israel não se limita à defesa dentro das suas fronteiras. Ao longo dos anos, tem expandido a sua ação militar para além delas: em Gaza onde terraplanou o território, na continuidade das ocupações na Cisjordânia, em partes do Líbano e até na Síria onde já ocupa uma parte do território. A anexação e o controlo prolongado de territórios alheios deixaram de ser exceção e passaram a prática normalizada.
Ainda assim, mantém-se uma narrativa de vitimização permanente. A pergunta que se faz habitualmente — e à qual qualquer pessoa sensata responde afirmativamente — é se Israel tem o direito a existir. Mas há outras perguntas que raramente se colocam: e os outros países, têm também esse direito a existir? Ou esse direito no Médio Oriente tornou-se exclusivo de Israel?
Mas há ainda outra dimensão, menos discutida e talvez mais reveladora: quem paga a fatura?
No plano militar, são sobretudo os Estados Unidos. Jovens que se alistam e partem, famílias que ficam, vidas interrompidas ou marcadas para sempre. E depois há os que ficam — e os que ainda nem nasceram — que herdarão o peso financeiro dessas decisões, através de dívida acumulada, cujo custo já rivaliza com os próprios gastos militares.
A outra parte da fatura chega à Europa. Chega através dos ciclos migratórios que estas guerras inevitavelmente geram. Se a Síria já produziu o impacto que produziu, não é difícil imaginar o que poderá acontecer com um país como o Irão, com uma população várias vezes superior. Chega também através da deterioração de uma fragilidade energética já existente, agravada por decisões políticas próprias — sanções desnecessárias, dependências mal geridas e uma agenda energética conduzida mais por impulso ideológico radical do que por realismo estratégico. Trata-se de uma guerra que não escolhemos, da qual não beneficiamos e que, na verdade, nem sequer compreendemos plenamente. O resultado poderá ser um processo acelerado de desindustrialização e a erosão de décadas de progresso económico e social no continente. Vamos ficar mais pobres por causa desta guerra — e não há qualquer justificação racional para isso.
Talvez o mais revelador seja, ainda assim, o que está a acontecer dentro da própria direita europeia e mundial. Uma parte significativa parece hoje incapaz de se distanciar desta lógica, mesmo quando isso implica ignorar contradições graves no seu próprio campo.
Houve um tempo em que essa mesma direita fazia da oposição a guerras inúteis uma das suas bandeiras centrais. Desconfiava do intervencionismo, denunciava as cruzadas morais travestidas de política externa e recusava pagar, em sangue e em dívida, conflitos que não serviam os seus interesses. Foi com esse discurso que muitos conquistaram apoio — prometendo não repetir os erros do passado. Mas essa memória tornou-se, entretanto, seletiva. Quando a pressão vem de dentro, quando a decisão parte do “nosso lado”, aquilo que antes seria motivo de indignação transforma-se em silêncio ou, pior ainda, em adesão entusiástica. Mais do que isso, começa a surgir uma tentativa desconfortável de relativizar ou desvalorizar aquilo que antes era considerado inaceitável. Assiste-se, com inquietante regularidade, a uma elasticidade moral digna de competições olímpicas, vinda de pessoas que se mostrariam implacáveis se a equipa em causa não fosse a sua. O princípio deixa de ser um limite e passa a ser um instrumento – aplicável apenas quando conveniente.
No fundo, o problema mantém-se. Um mundo dividido entre bons e maus pode ser fácil de explicar, mas não é sério — e, nas relações internacionais, é simplesmente infantil e perigoso. Não se começam guerras porque o outro lado é mau; se assim fosse, não haveria bombas suficientes no mundo. Esta lógica serve para mobilizar, para justificar, para simplificar. Não serve para pensar. Muito menos para decidir.
E, enquanto nos refugiamos nessa simplificação, há perguntas que continuam sem resposta. Perguntas incómodas, mas inevitáveis. E ignorá-las não as faz desaparecer.
Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não refletem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.