Está de regresso o festival que se fez referência nos Açores: o Tremor volta a ocupar a ilha de São Miguel entre 24 e 28 de março, naquela que é a 13.ª edição. Como sempre, a programação divide-se por diferentes espaços e não assume cabeças de cartaz, apostando numa perspetiva horizontal. Há performances em salas de espetáculo, mas também em locais de natureza, caminhadas performativas, experiências imersivas e gastronómicas, residências artísticas, workshops e conversas. Os passes gerais encontram-se esgotados, mas ainda há bilhetes para a semana (ou para o fim de semana) disponíveis no site oficial.
Um dos grandes destaques no cartaz desta edição é Yerai Cortés, que se irá apresentar no Coliseu Micaelense, em Ponta Delgada — a maior (e mais nobre) das salas do Tremor — após algumas datas em Portugal continental. Estrela em ascensão no flamenco contemporâneo, colaborador de C. Tangana ou Niño de Elche, traz na manga o álbum de estreia La Guitarra Flamenca de Yerai Cortés, editado em 2024, mas também os singles que apresentou deste então. “Tem as honras de abertura do festival, é o culminar dessa pequena tour”, comenta, em declarações ao Observador, um dos diretores artísticos do Tremor, António Pedro Lopes.
O flamenco também se vai manifestar numa das secções mais famosas do festival, o Tremor Todo-o-Terreno, onde todos os anos há artistas convidados para desenvolverem uma performance para um trilho pedestre. O espanhol Curro Rodríguez será este ano um dos responsáveis por essa iniciativa. “Ele liga a prática de exploração e experimentação no flamenco à performance e às artes visuais”, explica António Pedro Lopes. “Trata-se de uma performance surpresa que foi criada especificamente para este momento e lugar.” A outra artista a fazer o Tremor Todo-o-Terreno é Vera Morais, portuguesa “que vem de uma escola mais ligada à música jazz, uma compositora e performer que é uma experimentalista da voz, e será possível descobrir uma nova peça que ela criou para esta caminhada”. Estão marcadas várias sessões ao longo dos cinco dias de festival para que ninguém perca a experiência.
No programa, que reúne dezenas de artistas e momentos distintos, também saltam à vista os místicos Angine de Poitrine — um duo canadiano que se estreou há um par de anos com o disco Vol.1 e que se popularizou online graças aos figurinos arrojados e distintivos que usam nas atuações. “É uma banda que faz um rock matemático, microtonal, e veste uns fatos incríveis e super doidos, às bolinhas pretas e brancas.” Atuam a 28 de março nas Portas do Mar, em Ponta Delgada.




“Também temos o prazer de receber uma dupla ucraniana, Heinali & Andriana-Yaroslava Saienko”, que propõem uma reinterpretação da música da compositora medieval Hildegard von Bingen, abadessa alemã, “e que ajuda a pensar sobre o que é viver em contexto de guerra, a partir da guerra que existe neste momento na Ucrânia”. O canto tradicional ucraniano cruza-se com técnicas de síntese modular inspiradas nas melodias do alto período medieval. A combinação improvável pode ser ouvida (e vista) a 28 de março na Aula Magna da Universidade dos Açores.
Para algo único e irrepetível, o ensemble de percussão Arsenal Mikebe, do Uganda, que promete um “super show”, junta-se em palco a HHY, alter-ego do português Jonathan Uliel Saldanha, que produziu e gravou o álbum de estreia dos ugandeses, Drum Machine, editado em 2024 pela Nyege Nyege Tapes. O “poderoso” trio toca num sistema de percussão em aço, desenhado e concebido pelo escultor Henry Segamwenge, inspirado na mítica caixa de ritmos Roland TR-808. A atuação acontece no dia 26 nas Portas do Mar.
Já os norte-americanos Water Damage chegam a São Miguel com uma “missão dupla”. Vão fazer um concerto a 28 de março no Auditório Luís de Camões, mas também apresentar os resultados de uma residência artística em que se juntaram à Orquestra Modular Açoriana (OMA). Este é um coletivo que tem existido de forma pontual, em constante mutação, e que tem trabalhado no Tremor ao longo dos anos com diferentes artistas convidados. A formação é sempre composta por músicos que respondem a um open call da organização, profissionais ou amadores dos sintetizadores e teclados. Desta vez, o trabalho conjunto será apresentado a 27 de março no Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas.
“Os texanos Water Damage são uma banda incrível, hipnótica, com um rock que nos empurra quase para um lugar de transe, na maneira como a música se acumula, se densifica, se cresce e se torna hipnótica”, complementa António Pedro Lopes.
Outra das iniciativas que têm tido uma história regular dentro do Tremor é o projeto Som Sim Zero, a partir do qual a organização junta músicos convidados aos membros da Associação de Surdos da Ilha de São Miguel. “Todos os anos lançamos o desafio de os juntar a uma outra comunidade num espaço físico e este ano será com a comunidade do heavy metal açoriano. Portanto, são vários músicos — cantores, guitarristas, baixistas e bateristas — que se juntam a eles para um espetáculo conjunto, participativo e de raiz comunitária, que tem uma dimensão musical mas também de encenação e de jogo. Estamos muito curiosos para perceber onde vai dar este choque de mundos.” Para descobrir no Coliseu Micaelense a 28 de março.
O Tremor também tem como missão promover e dar visibilidade à música feita nos Açores. Este ano, são 22 os artistas com origem no arquipélago que participam no festival. “Desde uma banda de metal, os Buried by Lava, que fazem parte desse movimento de reacender esta subcultura que tem uma história digna e forte desde os anos 90 nos Açores; a uma dupla de Santa Maria que são os Engengroaldenga, que revisitam a viola dos dois corações, a viola da terra, com 12 cordas, e que repensam e criam novos repertórios para ela”, conta o diretor artístico. “Tal como temos a Falcona, que faz uma música mais girly, contestatária, queer, feminista, que cria uma ficção e todo um imaginário à volta desta personagem pop, a própria Falcona. Lançou recentemente o primeiro EP e é música de computador, de Internet, muito hyper-pop.”
O esforço de divulgar e incentivar a música açoriana, oferecendo-lhe uma plataforma e apresentando-a aos festivaleiros que chegam de diferentes regiões nacionais e países, também se traduz na parceria que este ano estabeleceram com a Vaivém, uma rádio comunitária e digital local. Tanto na emissão online como presencial, que pode ser acompanhada no espaço Rubro, no centro de Ponta Delgada — que acaba de ser inaugurado — onde se irão fazer conversas, DJ sets, uma sessão de escuta “em que se dá a ouvir o documento radiofónico que despoletou a revolução do 25 de Abril” e pequenos showcases de artistas locais.
“Vamos ter um baterista, o João Freitas; uma cantora e compositora que é a Neuza Furtado; e a dupla do Tomás Sampaio e da Marta Tavares. [Destacar a música açoriana] é mesmo um fator central, o Tremor vai sempre ter essa dimensão. No ano passado fizemos uma retrospetiva sobre isso e foi incrível o destaque que artistas como a Eugénia Contente ou o Romeu Bairos tiveram, também pelo facto de lhes termos dado palcos grandes no festival.”




Há dois anos que lançam uma convocatória chamada Faísca, através da qual os músicos açorianos se podem candidatar para estar presentes no Tremor. Na primeira edição da iniciativa, receberam 20 propostas; desta vez chegaram às 40 e acabaram por programar quatro performances a partir daí. “É um caminho que fazemos e também nos têm dado esse feedback de que é um espaço importante, uma plataforma para a comunidade, para contarem a sua história, terem contacto com outros músicos e profissionais da música.”
O Rubro vem também colmatar uma necessidade já sentida há algum tempo pela organização do festival, que pretendia criar um “espaço de encontro diurno” durante a semana do Tremor. “Que as pessoas possam visitar, onde possam beber um copo… No fundo, é uma referência. No meio da dispersão que o festival propõe, como a aventura que é pela ilha toda, haver não só um lugar noturno, que já existia e vai continuar a existir, as Portas do Mar, mas também um ponto de referência diurno.”
Outra das principais características que têm distinguido e afirmado o Tremor ao longo dos anos são os concertos em locais surpresa. Jup do Bairro, artista queer de intervenção oriunda de São Paulo, será uma das protagonistas deste ano. Tem feito um trabalho artístico em torno do “corpo não normativo, trans, as outras existências e vidas que não são normativas”.
“Temos a honra de a receber e o Tremor continua com esta série de concertos em lugares surpresa, o que significa que, quando as pessoas olham para o alinhamento do festival, alguns nomes não estão nos horários porque só no próprio dia é que são anunciados os sítios onde as atuações acontecem.”
Este ano são três locais, alguns dos quais inéditos. Na manhã das performances, todos aqueles que compraram um bilhete recebem uma notificação com a informação do sítio e as indicações necessárias para lá chegar.
“É um festival que brinca com a lógica de desorientação. Com muita oferta, com dispersão, com a ideia de experiência. É um convite à aventura, um convite a uma jornada pela ilha adentro, que tanto pode ser num espaço natural como patrimonial. É o jogo da surpresa, de abraçar a ilha como um palco. A música é o que nos junta e é a razão de ser do Tremor, mas depois há a ligação à cultura do lugar, a ligação às pessoas, ao lado sensorial e de surpresa. O festival não tem cabeças de cartaz, mas se houver um, é a ilha de São Miguel. Em todo o seu esplendor e possibilidades, com o seu imaginário e capacidade de surpreender, porque é de facto uma ilha cheia de recursos, de cantos e recantos, de situações e cenários por descobrir. É o nosso recreio, mas também é a nossa bússola. A ilha é a bússola que nos mostra as possibilidades do que o nosso imaginário pode fazer e isso mantém-se intacto”, remata.