“O mundo não é isto, meu. O mundo é bué cenas. Não é só o que está à frente” — já dizia Bruno Nogueira, na série “O Último a Sair” da RTP.
Se me dissessem que, quinze anos depois, estaria a citar uma sátira aos reality shows para falar sobre carreira, provavelmente não acreditaria. Até porque, nessa altura, eu estava a estudar Direção e Gestão Hoteleira, sem qualquer tipo de suspeita de que iria ter várias profissões ao longo da vida.
Quando comecei a licenciatura, ainda se vendia a ideia de que, apesar de já não existir “um trabalho para vida”, a escolha da profissão era absolutamente determinante no nosso futuro — quase irreversível. Talvez tenha sido por isso que quando, aos 23 anos, decidi deixar a hotelaria e o turismo para tentar a minha sorte na publicidade (sem qualquer curso ou formação), ouvi de quase toda a gente à minha volta: “Tu não sabes o que queres.”
E não sabia. Só não entendia por que é que isso era uma coisa má.
Quem é que decidiu e convenceu toda a gente de que uma jovem de 18 anos é a pessoa mais indicada para tomar uma decisão definitiva sobre o seu futuro? Biologicamente, chega a ser cómico.
Aos 33 anos, ainda me questiono sobre o que quero fazer. Continuo sem ver nisso uma coisa má. No entanto, agora já tenho nomes para o que era antes visto como indecisão e imaturidade.
Portfolio career é um deles.
O que é, afinal, uma Portfolio Career?
Uma carreira em portfólio existe quando uma pessoa combina várias profissões ou atividades profissionais — ao mesmo tempo ou ao longo da vida — em vez de depender de um único cargo, empregador ou visão linear da carreira.
Estas carreiras podem organizar-se em torno de uma área principal que se expande para diferentes contextos (uma diretora de marketing que também leciona, por exemplo) ou podem cruzar competências aparentemente distantes.
A terapeuta ocupacional e o gestor bancário que abriram uma Escape Room. O programador que se tornou bailarino e dá aulas de zouk brasileiro. A editora de vídeo que criou uma personagem de comédia nas redes sociais. A arquiteta que criou uma marca de cosmética. A gestora de clientes que criou uma marca de bijuteria. Todos estes exemplos são reais e próximos, na minha bolha social. E eles mostram que uma carreira em portfólio não é uma coisa do futuro. É algo já bem presente no mercado.
O termo Portfolio Career foi popularizado por Charles Handy que, nos anos 90, já indicava que o emprego tradicional iria deixar de ser a norma. Segundo o especialista em gestão e comportamento organizacional, uma carreira em portfólio oferece uma maior flexibilidade, variedade e proteção face à volatilidade do mercado de trabalho.
Como? Com base em três pilares:
Antifragilidade — Quem tem várias fontes de rendimento ou áreas de atuação não colapsa quando um setor treme, pois tem alternativas nas quais já tem alguma experiência.
Identidade separada da carreira — Durante décadas, confundimos a nossa profissão com a nossa identidade, incentivando uma discriminação entre empregos de primeira e de segunda categoria, como se isso determinasse o nosso valor. Uma carreira em portfólio separa ambas. Passamos a ser um sistema profissional em constante evolução e diversificação, em vez de um rótulo.
Efeito polinizador de inovação — Ideias, processos e conhecimento de uma determinada área podem trazer ideias, processos e conhecimento novos noutra. Muitas vezes, a inovação nasce precisamente dessas colisões improváveis e é a diversificação da nossa experiência profissional que acrescenta valor real a uma função ou projeto.
Charles Handy promove a ideia de que devemos ser os “gestores da nossa própria carreira”, focando-se na capacidade de nos adaptarmos às mudanças do mercado. O filósofo que previu a “gig economy” — a economia baseada em tarefas — salienta, no entanto, que uma carreira em portfólio não é sinónimo de biscates ou dispersão, nem deve incentivar a precariedade.
Deve ser, sim, uma carreira desenhada de forma intencional, de forma a alinhar os nossos pontos fortes e valores pessoais, bem como os nossos objetivos profissionais e de vida.
Numa era em que tanto nos questionamos sobre se a Inteligência Artificial nos vai roubar o emprego, talvez faça sentido — mais do que nunca — apostarmos em diversificar a nossa carreira. E, claro, divertirmo-nos enquanto o fazemos.
Afinal, o mundo (do trabalho) pode ser mesmo “bué cenas”.
O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.